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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Uma História de Amor

Ficção Científica + História Romântica = Melhor Filme do Ano


File:Her2013Poster.jpg
HER
de Spike Jonze
com: Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Amy
Adams e Rooney Mara
Nota: nesta crítica é descrito o final do filme (não porque quero ser desmancha prazeres, mas porque é a melhor cena para frisar uma ideia). Caso ainda não o tenha visto, salte o 5.º parágrafo ou pelo menos as suas últimas frases.

Já se sabe que Spike Jonze é um dos realizadores mais imaginativos dos últimos anos. Se se percorrer a sua curta carreira vemos que ele seguiu sempre uma linha de originalidade combinada com uma delicada qualidade. O seu mais recente filme Uma História de Amor (uma tradução absurda a partir do título original: Her) é recebido, portanto, com enormes expectativas. E Jonze ainda consegue superá-las.

Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) leva uma vida solitária e monótona. Escreve cartas de amor para outros casais por encomenda, está prestes a finalizar o seu divórcio e tem apensa dois amigos próximos, um casal vizinho dele. A sua vida dá uma volta de 180º quando adquire o mais recente sistema operativo (OS). Theodore acaba por estabelecer uma relação peculiar com o OS que se auto-apelida de Samantha (cuja voz é a de Scarlett Johansson) e vê nela mais que um simples computador.

Se no mundo do cinema actual é normal a péssima qualidade dos filmes românticos, Uma História de Amor foge à regra. Nunca entrando em clichés ou diálogos de 'gosto muito de ti', 'eu também', etc., Spike Jonze escreveu a melhor história romântica desde Antes de Amanhecer (e isso já foi há quase 20 anos...). Como não podia deixar de ser, o filme conta com vários diálogos românticos entre Samantha e Theodore, que já por si são bem melhores e mais comoventes que qualquer outro filme cor-de-rosa de Hollywood (o argumento de Jonze chega ao ponto de ser poético a dado momento). A parte realmente interessante do argumento de Uma História de Amor vem com os diálogos espontâneos que o casal tem um com o outro, bem como todos os outros que Theodore acaba por ter com variadíssimas personagens sobre morte, sumo de frutas, compromissos e tantas outros assuntos soltos mas não menos curiosos.

Mesmo com tanta seriedade e profundidade no tema que aborda (o filme deixa até algumas perguntas filosóficas sobre identidade e amor), Jonze não deixa de continuar ingénuo e sarcástico. São vários os momentos de comédia típica, com um humor muito eficaz quer a nível de diálogos quer a níveis visuais, e há ainda muitas cenas que não se podem ver sem sorrir, tal é a alegria e a já referida ingenuidade que o realizador lhes dá.

A realização que Jonze oferece é também ela algo de espectacular. A forma como este realiza Uma História de Amor é tão delicada e original quanto o seu argumento, isto porque ele consegue sempre transmitir algo mais que o esperado com um simples movimento de câmara. Jonze ora utiliza travellings lentos e suaves durante as cenas a só de Theodore ora entra em mexidos e apressados planos subjectivos da nossa personagem principal, que vai tendo vários flashbacks nostálgicos da sua família ou dos seus recentes relacionamentos, muitas vezes mostrados através dos seus olhos. Embora perca um pouco o ritmo numa ou noutra cena, a história que Jonze nos conta chega-nos levemente e nunca conseguimos perder o interesse por ela.

Spike Jonze, para além de criar uma inovadora história de amor, conseguiu ainda fazer um belíssimo pano de fundo, situado num futuro não tão distante. Os cenários são absolutamente atraentes, onde a forma como se dispôs cada peça de cada divisão parece ter sido meticulosamente planeada, e o jogo de cores e luzes que Jonze nos oferece, aliado a uma grande cinematografia de Hoyte Van Hoytema, também não passa despercebido. Para além disso há ainda vários 'brinquedos' futurísticos (jogos de vídeo em 4D, computadores que escrevem o que ditamos, etc.) que, embora muito ficção científica, bem podiam ser criados já em 2014 (lá está a ideia do 'futuro não tão distante').

E são esses 'brinquedos' e o modo como as personagens interagem com elas que faz parte de uma certa sátira de Spike Jonze. A naturalidade com que a maioria das pessoas aceitam a relação que Theodore estabelece com um sistema operativo é um sinal que a dependência do ser humano em relação às máquinas é já uma nova forma de vida, algo do quotidiano. E o assustador de tudo isso é que já não faltará muito para isso acontecer, pois já são muitas as vezes em que nos distrai-mos com telemóveis e iCoisas enquanto há muita beleza à nossa volta. Exemplo disso é a última cena (SPOILER! SPOILER!) onde, após os seus sistemas operativos decidirem partir à procura da sua própria identidade (isto depois de terem moldado a dos seus donos), Theodore e a sua amiga Amy (Amy Adams) vêem-se pela primeira vez no filme sem qualquer tecnologia e é aí que conseguem realmente apreciar o nascer do sol enquanto desfrutam do contacto humano.

Uma das outras coisas de que mais gostei em Uma História de Amor foram as personagens. É difícil desgostar do filme no momento em que todas as personagens têm algo com o qual nos identificamos. Parece que nos vemos ao espelho sempre que os intervenientes falam, pois todos já passamos por aquilo que eles passaram: a solidão de Theodore, o desejo de Samantha em ser algo mais do que já é, as brigas que Amy tem com o seu marido Charles... Toda a gente já viveu algumas destas fases e não pode ficar indiferente quando estas são retratadas no filme. Alguns dos diálogos parecem ser uma cópia a papel milimétrico das nossas próprias conversas ou desabafos, o que torna Uma História de Amor um filme altamente universal.

Para ajudar à relação personagem/público temos também as grandes intervenções dos actores. Joaquin Phoenix interpretou de modo magnífico Theodore, dando-lhe vida própria com as suas expressões faciais e voz de constante tristeza e solidão. Amy Adams confirmou que é uma das mais versáteis actrizes da actualidade (notem-se as diferenças entre as suas personagem em Uma História de Amor e Golpada Americana) e interpretou muito bem a sua homónima personagem que, embora simples e com poucas intervenções, ficou mais carismática e interessante graças à actriz.

E a cereja no topo do bolo, neste caso do elenco, é Scarlett Johansson. Visto que é, a título oficial, a mulher mais sexy do mundo nunca se prestou muita atenção às verdadeiras qualidades da actriz, cujo talento é muitas vezes ofuscado pela sua silhueta. Por isso a oportunidade de dar apenas e só a voz a uma personagem e deixar a sua aparência física à imaginação do espectador podia sair ao lado, pois poderíamos descobrir que, afinal, Johansson é má actriz. Mas não. A actriz conseguiu transmitir variadíssimas emoções apenas com o seu timbre, que tanto era amável e bem humorado como podia chegar aos mais altos picos de sentimentalismos. Conseguimos ver lágrimas a escorrer pela cara de Samantha ou vislumbrar o seu sorriso apenas pela expressividade de Scarlett Johansson. E isso não é tão fácil como parece.

No meio de tanta excelência salienta-se ainda a banda-sonora, uma das peças mais comoventes de Uma História de Amor. Temos algumas faixas com poucos acordes, como a do início do filme, que servem apenas para ambientar a atmosfera, mas depois temos algumas músicas que acompanham o filme como se fossem personagens da história. Muitas delas têm tons nostálgicos que acompanham os flashbacks de Theodore e outras parecem funcionar como uma almofada para o sentimentalismo do argumento de Jonze (que sabe jogar com mestria os sons e as palavras dos actores), acabando por ser todas elas incríveis, sem excepções.

Ainda vamos a meio de Fevereiro, mas é seguro dizer que o filme do ano está aqui. Uma História de Amor utiliza um cenário de ficcção científica para contar uma comovente história de amor e conta com um argumento soberbo de Spike Jonze, bem como espectaculares interpretações de Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson.

9/10

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Ain't Them Bodies Saints

AIN'T THEM
BODIES SAINTS

de: David Lowery
com: Casey Affleck, Rooney Mara, Ben Foster
e Keith Carradine
Ain't Them Bodies Saints não é bem um filme. Isto porque a sua história anda monotonamente para a frente até chegar ao seu previsível final, como se de um poema se tratasse.

Dois amantes fora-da-lei, Bob Muldoon (Casey Affleck) e Ruth Guthrie (Rooney Mara), são separados após um assalto mal sucedido: Bob vai para a prisão e Ruth prossegue com a sua vida de forma discreta, ou não estivesse ela grávida do seu amante. A relação dos dois depressa se transforma num triângulo amoroso quando Ruth se envolve com Patrick Wheeler (Ben Foster), um polícia que esteve envolvido no último assalto do casal. O que estes não sabem é que Bob evadiu-se da prisão e está a planear regressar à sua família...

O filme é a estreia de David Lowery como realizador e argumentista. E, para novato, não se saiu nada mal. Seguindo muitas vezes o estilo de Terrence Malick (Ain't Them Bodies Saints faz lembrar Os Noivos Sangrentos), Lowery demonstrou muita classe na sua realização e, com a ajuda de uma extraordinária cinematografia, criou um belo pano de fundo para o seu filme. Tendo uma Texas dos anos 70 a fazer de paisagem por detrás das personagens, o estreante realizador nunca teve um único plano mal escolhido ao longo de todo o filme e fez de Ain't Them Bodies Saints um dos mais filmes mais agradáveis ao olhar dos últimos anos. O seu argumento é igualmente belo e, como disse na introdução, parece um poema e ao mesmo tempo uma carta de amor. Com diálogos muito profundos e comoventes a desenvolverem uma história bastante trágica, Lowery nunca deixa de nos comover, embora acabe por pecar na previsibilidade do seu enredo.

Rooney Mara continua a provar que é uma das actrizes mais polivalentes da actualidade. Após ter entrado no sombrio Millennium 1: Os Homens Que Odeiam as Mulheres, a actriz deu uma magnífica performance ao interpretar Ruth Guthrie, uma personagem muito diferente da do filme de David Fincher. Casey Affleck e Ben Foster deram também excelentes interpretações e trouxeram uma grande vivacidade às suas personagens. Keith Carradine desempenhou de forma brilhante um papel discreto ao fazer de Skerritt, a personagem mais fraca do filme. Fiquei mesmo com pena de não poder ter visto mais de Carradine neste filme.

No entanto, Ain't Them Bodies Saints acabou por não me satisfazer muito. Após uma cena inicial sangrenta, o filme parte para uma história muito previsível e monótona, e deixou-me com uma certa sede de violência. Por muito bons que sejam a realização e o argumento de Lowery, nunca consegui ficar totalmente preso ao ecrã (e se não fosse pelas grandes interpretações que os actores dão, não sei se não teria adormecido pelo meio).

Como já disse, Lowery segue os traços de Terrence Malick, mas ainda há um pequeno fosso entre ambos. Isto porque nos filmes de Malick ele consegue agarrar o espectador através de histórias mais interessantes do que a que nos é apresentada por David Lowery. Mas o jovem realizador terá certamente muitos bons anos pela frente, e tenho esperanças que conseguirá chegar um dia à excelência de Malick.

Ain't Them Bodies Saints é um filme com magníficas interpretações e coloca David Lowery na lista dos mais promissores realizadores da actualidade, mas acaba por não aproveitar bem os seus recursos. É um grande poema romântico, mas apenas um filme médio.

6/10