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sábado, 27 de junho de 2015

Lava

LAVA
de James Ford Murphy
Como já é tradição, a Pixar apresentou antes do seu mais recente trabalho uma curta-metragem. Este ano, Lava foi o pequeno filme que os estúdios produziram para anteceder a Divertida-mente. É uma história bastante interessante, sobre um vulcão (com olhos e boca) chamado Uku que passa os dias a ver golfinhos, baleias, tartarugas, etc., aos pares, enquanto vai cantando uma música sobre o quão quer ter um vulcão para amar (dando origem a trocadilhos mauzinhos que brincam com as palavras love e lava). Porém, nenhum vulcão aparece e a sua lava começa a tornar-se em pedra, fazendo com que Uku se vá afundando lentamente. O que ele não sabe é que, ainda no fundo do mar, está uma vulcana de nome Lele a ouvir a música... Não conto mais nada porque isto trata-se de uma curta e mais um bocado e já tinha falado do filme inteiro. Mas dá para perceber que a ideia é muito gira. O visual é fantástico, com ilustrações muito bonitas da natureza e uma humanização dos dois vulcões bastante bem conseguida, e a história é uma montanha russa de emoções de apenas sete minutos, quase um aquecimento para Divertida-mente. O problema de Lava reside essencialmente em duas coisas: primeiro, toda o enredo é contado numa canção que se começa a tornar chata ao fim de um bocado; e segundo, há um factor desagradável que consiste em a Pixar não admitir que se baseou (descaradamente...) na música e na figura de Israel "IZ" Kamakawiwoʻole para construir o vulcão Uku, fazendo assim com que uma curta que poderia servir de homenagem se torne num rip-off fácil e embaraçoso para os estúdios. Em suma, Lava é uma bonita história de amor que peca por não ser construída com o encanto e a delicadeza presentes nos outros pequenos filmes da Pixar.

6/10

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Os Meus Milímetros Favoritos: NINOTCHKA (1939)

NINOTCHKA
de Ernst Lubitsch
com: Greta Garbo, Melvyn Douglas, Ina Claire,
Sig Ruman, Felix Bressart e Alexander Granach
Ninotchka é uma deliciosa comédia romântica realizada por Ernst Lubitsch em 1939. A narrativa decorre, num entanto, uns anos antes, numa Paris onde “uma sirene ("siren" em inglês, que também significa “mulher sedutora”) era uma morena e não um alarme – e se um francês apagasse a luz não era devido a um raid aéreo.” É nessa Paris pré-II guerra que conhecemos Iranoff, Buljanoff e Kopalski, três simpáticos russos que viajaram à capital francesa ao serviço do estado, com a missão de vender joias confiscadas durante a Revolução de 1917. No entanto, atraídos pelo modo de vida capitalista e influenciados pelo Conde Leon d’Algout (representante da Grande Duquesa Swana, a quem pertencem as joias), os três acabam por se instalar em Paris na suite real de um luxuoso hotel, enquanto a venda que deveriam estar a efectuar para angariar dinheiro para o estado soviético é deixada de lado para dar lugar à diversão e ao luxo.

Até aqui nada parece indicar que o filme se trata de uma comédia romântica. Sim, os três russos andam todos babados com as ideologias capitalistas e em especial com as meninas dos cigarros do hotel; e sim, entre o Conde Leon e a Duquesa Swana há mais que uma relação meramente política. Mas falta algo, uma personagem ou acontecimento que venham dar dinâmica a uma história, até agora, simples e engraçada, porém sem especial encanto. É então que, acabada de chegar da União Soviética, que a destacou após se aperceber que os seus três primeiros enviados nada fizeram para avançar com a venda das joias, conhecemos Nina Ivanovna Yakushova, um verdadeiro Manifesto Comunista andante, tão fria como a Rússia e tão severa quão as políticas soviéticas. Deparando-se com a ineficácia de Iranoff, Buljanoff e Kopalski em desempenhar em condições a sua missão, é Ninotchka (assim é a sua alcunha) quem assume as negociações.

Uma das primeiras decisões que toma com objectivo de avançar com a venda das joias é que não irá sequer entrar em contacto com a Duquesa Swana ou com qualquer dos seus representantes. Contudo, nessa mesma noite acaba por conhecer Conde Leon, sem saber quem ele é e ele também sem qualquer conhecimento do porquê daquela bela russa estar em Paris. Habituado a namoriscos, Leon ajuda Ninotchka a encontrar a Torre Eiffel no seu mapa e segue-a até lá, pois não quer deixar escapar uma mulher tão bela. Inicia-se assim o lado romântico do filme, sem nunca deixar a comédia de parte. As diferenças abismais entre as duas personagens vão levar primeiro a um choque de personalidades e logo a seguir a um confronto de ideologias, estando assim juntos os ingredientes para uma série de episódios hilariantes que servirão para Lubitsch e o seu trio de argumentistas, Billy Wilder, Charles Brackett e Walter Reisch, construírem uma divertida e mordaz sátira ao modelo político e económico da União Soviética.

Ora bem, depois de muito tentar encantar com o seu charme Ninotchka (que se mostra sempre desencantada, chegando a dizer não existirem homens assim no seu país, daí ela estar tão confiante no futuro da nação), Leon lá consegue convencê-la a ir a sua casa (não porque ela não mais resistiu ao seu encanto, mas por considerar o Conde um bom sujeito de estudo). É lá que se dá, depois de nova luta entre palavras poeticamente sedutoras e respostas frias, o primeiro beijo entre os protagonistas. Entramos neste momento na primeira surpresa da narrativa. Em vez de, como é mais comum, seguir com um romance onde as duas partes do casal não sabem que são, à partida, inimigos e só o descobrem numa parte já muito avançada da sua relação, Lubitsch faz com que meros segundos após o primeiro beijo Ninotchka e Leon se apercebam que são rivais nas negociações das joias da Duquesa Swana. Profissional como sempre, a russa decide sair de casa e esquecer que tudo aconteceu, mas o coração que opera acima da lógica do Conde leva-o a continuar a persegui-la, levando-nos até uma das cenas mais engraçadas e não menos bonitas de fita: Leon tentando, num restaurante, fazer a sua amada rir enquanto lhe conta uma série de anedotas, sempre sem sucesso, até que, acidentalmente, cai no chão e vê pela primeira vez Ninotchka a rir às gargalhadas.

É este o ponto de viragem da narrativa. Tal como havia acontecido aos seus três camaradas, a bela russa cede aos encantos da vida ocidental, ainda que continuem a persistir nela algumas das ideologias comunistas que serão mais evidentes quando é confrontada pela Duquesa Swana, esta com medo de perder o Conde e por isso desejosa de terminar o negócio das joias (a seu favor, obviamente) para que o vértice soviético deste triângulo amoroso parta de regresso à sua terra natal. Entre as duas irá existir também uma colisão de ideais, agora entre as duas mentalidades russas, a pré e pós Revolução de 1917. Embora este conflicto esteja presente apenas numa cena, não deixa de ser interessante constatar como, no meio das divertidas piadas e de uma bela história de amor, o filme quer também olhar para vários pontos da então recente história da Europa.

Ninotchka, agora deixando toda a sua beleza (ou melhor dizendo: a beleza dessa musa sueca de nome Greta Garbo) fazer esquecer a sua frieza e desdém inicial e libertando a sua personalidade mais festiva e sentimental, dá por fim a mão e o coração a Leon e os dois, esquecendo que com os negócios que os opunham estão prestes a findar e que o regresso dela à Rússia está para breve, vão vivendo a sua paixão por entre os encantos de Paris. Obstáculos vão aparecendo, como é óbvio, e embora o final feliz seja certo (como o é em 99% dos filmes deste género nesta época) algumas situações ainda nos fazem interrogar, não se a conclusão da película será assim tão alegre, mas como é que os dois protagonistas vão dar a volta às situações mais adversas, fazendo-nos assim estar de olhos fixos no ecrã até ao último minuto.

Durante toda a duração da obra a câmara de Lubitsch vai-se movendo com suavidade pelos cenários e consegue inúmeras vezes captar brilhantemente os sentimentos de cada personagem, especialmente os de Ninotchka, através de planos fechados da sempre expressiva face de Garbo, ela que é a estrela mais brilhante do elenco, sem tirar qualquer mérito aos outros membros. Melvyn Douglas (Conde Leon) apresenta-se inicialmente como um ingénuo romântico mas consegue no final destacar a forte personalidade da sua personagem, enquanto que Ina Claire (Duquesa Swana) apresenta-se sempre má como às cobras. E depois temos o maravilhoso trio Sig Ruman, Felix Bressart e Alexander Granach (os três primeiros enviados da URRS a Paris), que oferecem constantemente gargalhadas à narrativa.

E há sempre um alternar magistral entre a comédia da fita (por vezes até bastante atrevido e a roçar o humor negro, como quando Ninotchka afirma que “os últimos julgamentos em massa [na Rússia] foram um sucesso: vai haver menos mas melhores russos”) e a sua faceta mais comovente. Uma não tira lugar há outra; em vez disso, dão ambas as mãos e fazem de cada momento de Ninotchka uma regalo para os olhos e para o coração. Não vale a pena, aliás, contar o número de diálogos e cenas inesquecíveis: Ninotchka, como um todo, é um pedaço único de verdadeiro espírito cinematográfico.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A Teoria de Tudo

THE THEORY
OF EVERYTHING

de James Marsh
com: Eddie Redmayne, Felicity Jones, Charlie Cox
e David Thewlis
Quem tem lido as minhas últimas críticas aqui belo blog ou pelo Espalha-Factos há de ter reparado que ando a embirrar cada vez mais com os biopics. E ando, sem dúvida. Cada vez mais os filmes desse género são menos ambiciosos e não passam de um artigo da Wikipédia em longa-metragem, com uma limpeza da imagem da personagem ou uma moldagem da mesma para que pareça mais fofinha (mais uma vez, estou a falar contigo, O Jogo da Imitação).

Por isso ia de nariz já meio torcido para ver A Teoria de Tudo. E juntando-lhe o facto de ser um filme biográfico em estilo romantic movie, género que também anda pelas ruas da amargura (obrigado Nicholas Sparks), então estava consumado um casamento perfeito para vermos mais uma bela banhada, que em nada iria fazer justiça à grande personalidade que transporta para o ecrã. Porque se ver Stephen Hawking em diálogos amorosos já soa mal no papel, então no ecrã ainda seria pior.

Mas A Teoria de Tudo foi talvez uma das maiores surpresas desta award season. Não é um filme perfeito (longe disso), mas consegue balançar muito bem entre a componente biográfica e romântica do seu enredo. Mostra, embora um bocadinho superficialmente, os estudos de Hawking de forma interessante e apresenta o seu lado pessoal e amoroso seriamente sem cair em lamechices. Ou melhor: mostra o seu lado pessoal e só depois o seu lado científico, pois a fita concentra-se muito mais na relação entre o físico e a sua primeira mulher, ou não tivesse sido adaptada a partir da obra da própria Jane Wilde Hawking.

O realizador James Marsh tem algumas ideais visuais que ajudam a distanciar-se do convencionalismo típico de hoje em dia e que fazem a película minimamente original. E consegue a partir delas fazer nascer momentos de forte carga emocional, especialmente aquelas que apresentam o propagar da doença de Hawking e a forma como o seu corpo vai-se lentamente paralisando. Como não podia deixar de ser, o elenco é um dos pontos fortes deste biopic e é graças a ele que muitas das cenas mais sentimentais funcionam. Eddie Redmayne está absolutamente perfeito na representação física do cientista e o seu empenho na mímica pode até esconder alguma falha no lado mais psicológico da sua performance, pois nem neste aspecto há muito a apontar. Ao lado dele temos uma bela Felicity Jones, com uma interpretação mais delicada e contida, mas igualmente excelente.

Mais uma boa banda sonora aqui e uma interessante fotografia acolá fazem com que A Teoria de Tudo seja um título muitíssimo bem conseguido. Pode perder-se pelo meio da narrativa (há alguns momentos parados) e exceder-se noutras cenas com alguns clichés aos quais até podia escapar, mas não isto que tira grande mérito a um filme capaz de contar uma bonita história de amor e fazer justiça à imagem de Stephen Hawking. Não me admirava que no Domingo levasse para casa alguns Oscars...

7/10

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Cometa

COMET
de Sam Esmail
com: Justin Long e Emmy Rossum
É com potencial e alguma originalidade que Cometa, uma das propostas românticas para o fim de semana de S. Valentim, chega hoje a Portugal.

Esta estreia de Sam Esmail na realização evidencia uma peculiar originalidade por parte do cineasta. É notória a quantidade de ideais visuais que quer aplicar, desde planos minimamente radicais a interessantes jogos de luz e cor, e o argumento, assinado igualmente por ele, evidencia um inteligente sentido de humor onde várias referências à cultura pop se intrometem em diálogos sarcásticos à la Woody Allen. Há ainda por vezes um tom poético bastante bonito numa ou noutra fala das personagens com uma boa e adequada banda-sonora de fundo, o que faz com que a relação de Dell e Kimberly seja sempre agradável de acompanhar.

Mesmo na construção da narrativa há que louvar a decisão de “baralhar” as várias vivências do casal e dispô-las quase em formato puzzle, tornando o acompanhar da história mais desafiante que a maioria das fitas românticas. Contudo, parte do problema de Cometa começa precisamente aqui, na não-linearidade do enredo. Nos primeiros minutos ainda é preciso fazer algumas tentativas para juntar as peças e compreender a ordem cronológica dos acontecimentos, mas a meio do filme já se percebe bem que a cena X vem a seguir à cena Y e por aí adiante.

Leiam a crítica completa no Espalha-Factos

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Os Maias

OS MAIAS
de João Botelho
com: Graciano Dias, Maria Flor, Pedro Inês,
João Perry, Hugo Mestre Amaro, Maria João Pinho,
Adriano Luz, Marcello Urgeghe, João Pedro Vaz,
Sandra Santos e Pedro Lacerda
Crítica feita à versão curta de 135 minutos. Quando tiver a oportunidade de ver a versão de 3 horas ou a adaptação ao pequeno ecrã na RTP actualizarei a crítica.

João Botelho está de volta às adaptações de grandes obras literárias da língua portuguesa. Depois de Livro do Desassossego e Frei Luís de Sousa, o realizador pegou em Os Maias de Eça de Queirós e transportou-o para o grande ecrã sem alterar um único detalhe ou diálogo da história.

Não é preciso explicar muito o enredo de Os Maias. Percorrendo três gerações da família Maia, desde Afonso, o seu filho Pedro e o neto Carlos (o protagonista principal), a obra vai fazendo uma crítica à sociedade portuguesa através das personagens e das suas vivências.

É claramente a melhor adaptação literária de João Botelho ao cinema. Mas temos que ter em conta que tanto Filme do Desassossego (a partir da obra de Fernando Pessoa) e Quem És Tu (de Almeida Garrett) são filmes que não conseguiram captar a essência do material original e que se tornaram algo aborrecidos. Agora em Os Maias o cineasta português não tocou no livro de Eça de Queirós e toda a intriga está presente na sua longa-metragem. Continua a haver muito toque de João Botelho na coisa, mas ao menos conseguem-se salvar muitos bons aspectos. Vamos por partes.

Tenho que, em primeiro lugar, admitir que não sou fã da obra de Eça de Queirós, por isso até vinha com algumas expectativas altas para conseguir ver aquilo que me custou a ler. Mas embora seja possível absorver os bons diálogos das personagens sem ter que reter a muita descrição dos espaços, a forma (demasiado) teatral e a falta de uma banda sonora faz de Os Maias uma longa-metragem quase tão densa quanto o livro e aborrecida o suficiente para nos pôr impacientemente à espera do seu final. E a forma como se passa de uma cena para a outra às vezes é muito abrupta, muito rápida e desconcertante, não possibilitando que a história flua naturalmente.

Os cenários interiores não parecem ter uma ambiente característico que os diferenciem uns dos outros. Hotel Central, Ramalhete, Casa dos Gouvarinho... Embora a decoração mude ligeiramente, estaríamos sem saber onde as personagens estão se não fossem pelas indicações que o realizador nos oferece. Já os cenários exteriores, como todos os que viram o trailer sabem, são reproduzidos em estúdio através de telas que recriam as ruas de Lisboa do séc. XIX. Mas por muito bonitas que sejam as pinturas, estas falham em dar a impressão de que estamos num espaço exterior. Por exemplo, a cena das corridas de cavalos torna-se idiota quando temos uns 20 figurantes a abanarem-se e a apoiarem os seus cavalos e o resto da multidão são imóveis desenhos de pessoas.

Mas tudo não deixa de ser visualmente apelativo. O trabalho de fotografia de João Ribeiro é excelente, desde a cena inicial a preto e branco (que por acaso até é desnecessária) até ao grande jogo de cores que estabelece nos restantes minutos do filme. É muito interessante ver como a paleta de cores vai escurecendo paralelamente à decadência da família Maia graças aos episódios vividos por Carlos que se vão revelar trágicos, terminando num tom muito acinzentado depois de no início mostrar variadíssimas cores vivas e alegres, muito bem realçadas nos momentos de maior felicidade e animação das personagens.

Personagens essas que contaram com um bom elenco para as desempenhar. Os melhores actores do filme são, curiosamente, aqueles que desempenham dois protagonistas secundários: Pedro Inês e Pedro Lacerda, que encarnaram, respectivamente, João da Ega e Tomás de Alencar de forma sublime. Os dois roubaram totalmente o protagonismo aos actores principais, conseguindo dizer de forma exemplar todos os seus diálogos, desde os mais sarcásticos (os de Ega) até aos mais revoltados (de Alencar). Consegue-se também perceber que Hugo Mestre Amaro, no papel do caricato Dâmaso Salcete, e a doce Maria Flor, a escolhida para ser Maria Eduarda, têm performances muito bem conseguidas. A única nódoa num elenco de luxo é mesmo o actor principal. Graciano Dias esteve encarregue de dar vida a Carlos da Maia, mas o seu desempenho fraquíssimo fez com que o herói passasse completamente despercebido.

Os alunos do secundário encontram aqui, pois então, uma adaptação muito fiel à obra de Eça de Queirós que têm de estudar, e aqueles que quiserem conhecer ou voltar a estabelecer contacto com uma das histórias mais conhecidas da literatura portuguesa têm uma boa oportunidade para o fazer com Os Maias, um filme com enormes interpretações e belíssimas imagens, mas que é vítima do típico tom aborrecido que demarca a filmografia de João Botelho.

6/10

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Magia ao Luar

MAGIC IN THE MOONLIGHT
de Woody Allen
com: Colin Firth, Emma Stone, Hamish Linklater,
Marcia Gay Harden, Eileen Atkins e Simon McBurney
O mais recente filme de Woody Allen, que se segue ao grande êxito Blue Jasmine, chegou esta semana às salas portuguesas. Pode não ter tanta magia como o título indica, mas é obviamente um filme muito divertido ao estilo do realizador norte-americano.

Stanley (Colin Firth) é um convencido ilusionista céptico e defensor ferrenho da lógica. Quando um amigo lhe diz ter descoberto uma medium que ninguém consegue desmascarar, ele vai tentar perceber os seus truques de modo a provar que ela é um fraude. Mas quando conhece Sophie (Emma Stone), não só fica surpreendido com os seus dotes como também encantado pela sua aparência.

Estão portanto reunidas as condições para uma comédia romântica soft ao bom estilo de Woody Allen. E, felizmente, não se encontram em Magia ao Luar temas reciclados de trabalhos anteriores do realizador, coisa que tem marcado os últimos anos da sua carreira. É claro que é possível encontrar neste filme alguns aspetos comuns a outros, como a cena inicial que remete vagamente a A Maldição do Escorpião de Jade e o espaço e tempo onde decorre a acção (sul de França no final dos 20) até faz lembrar Meia-Noite Paris, mas nada que seja uma cópia descarada de ideias já exploradas.

Será então seguro dizer que Magia ao Luar é um trabalho de Woody Allen dotado de originalidade? Nem por isso. A relação que Stanley e Sophie criam é a mesma (ou quase a mesma) de outros pares do cinema e o desfecho é perceptível desde o primeiro contacto que os dois estabelecem. Mas o argumento sarcástico, inteligente e bastante divertido consegue criar momentos engraçados que diferenciam esta obra de tantas outras. A personagem Stanley, por exemplo, está muito bem construída, é quase como que uma caricatura daqueles cépticos fanáticos pelo bom senso e lógica, teimando em não acreditar nos poderes de Shopie, acabando quase sempre por gozar com a medium, naqueles que são os mais hilariantes momentos do filme.

E se Stanley é a melhor personagem do filme, para isso contribui o excelente desempenho de Colin Firth, que imita um pouco as performances de Woody Allen nos seus próprios filmes e diz cada fala e desempenha cada gesto e expressão facial de modo woodyano mas também com um toque pessoal. Emma Stone continua encantadora como sempre e teve também uma performance interessante e ambos os actores demonstraram uma química eficaz no ecrã. Nos papéis secundários, há que destacar Eileen Atkins como a tia de Stanley e Hamish Linklater como Brice (outro apaixonado por Sophie que lhe toca divertidíssimas serenatas).

Mesmo os que não acharem piada a Magia ao Luar poderão sempre gostar das imagens que proporciona. Woody Allen conseguiu enquadrar muito bem o seu elenco com as belíssimas paisagens do sul de França (realçadas pela excelente fotografia de Darius Khondji) e com os cenários deliciosos de finais da década de 20. O guarda roupa masculino pode deixar um pouco a desejar, mas é compensado por aquilo que as actrizes usaram, desde vestidos coloridos até acessórios deslumbrantes e excêntricos.

Tanta diversão e excelência visual acabam por distrair o público dos dois problemas do filme. A história é demasiado precipitada: as personagens mudam de ideias de um momento para o outro sem que nada o justifique e é perceptível que Woody não trabalhou muito neste ponto do seu argumento. Já a banda sonora está cheia de bons temas clássicos, mas foram muito mal usados. Alguns mais pesados e fortes foram utilizados em cenas que preferiam uma música mais animada, enquanto que outros oldies característicos da obra de Woody Allen "assassinaram" momentos de maior drama.

Contudo, Woody Allen acaba por ser como Stanley, iludindo-nos e escondendo os piores aspectos do filme com muita diversão e risos. Magia ao Luar não é, de todo, um dos seus melhores títulos, mas é certamente a comédia perfeita para os menos exigentes e aqueles que quiserem passar um bocado na sala de cinema.

7/10

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Só os Amantes Sobrevivem

ONLY LOVERS LEFT ALIVE
de Jim Jarmusch
com: Tilda Swinton, Tom Hiddleston, Anton Yelchin
e Mia Wasikowska
Numa altura em que os filmes de vampiros vão sendo cada vez mais em quantidade e menos em qualidade, chega-nos Só os Amantes Sobrevivem, uma das mais surpreendentes obras dos últimos anos e talvez a mais curiosa de 2014, até agora.

O vampiro sempre foi o tema principal de vários filmes. Um dos mais icónicos é do longínquo ano de 1922, Nosferatu, uma das primeiras obras a retratar a mítica criatura, e desde aí perdeu-se a conta às vezes em que os vampiros tomaram o grande ecrã. Mas, como não podia deixar de ser, a indústria americana usou e abusou deles, como se tivesse aguçado os dentes e sugado a misticidade dos seus pescoços.

Mas engane-se quem pensa que vai encontrar aqui mais uns quantos adolescentes com olhos vermelhos, pele pálida e abdominais que brilham quando expostos à luz do sol. O realizador e argumentista Jim Jarmusch trouxe até ao século XXI a vampiresca criatura e renovou-a, fê-la renascer da mediocridade em que havia caído num filme surpreendente.

9/10


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Uma História de Amor

Ficção Científica + História Romântica = Melhor Filme do Ano


File:Her2013Poster.jpg
HER
de Spike Jonze
com: Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Amy
Adams e Rooney Mara
Nota: nesta crítica é descrito o final do filme (não porque quero ser desmancha prazeres, mas porque é a melhor cena para frisar uma ideia). Caso ainda não o tenha visto, salte o 5.º parágrafo ou pelo menos as suas últimas frases.

Já se sabe que Spike Jonze é um dos realizadores mais imaginativos dos últimos anos. Se se percorrer a sua curta carreira vemos que ele seguiu sempre uma linha de originalidade combinada com uma delicada qualidade. O seu mais recente filme Uma História de Amor (uma tradução absurda a partir do título original: Her) é recebido, portanto, com enormes expectativas. E Jonze ainda consegue superá-las.

Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) leva uma vida solitária e monótona. Escreve cartas de amor para outros casais por encomenda, está prestes a finalizar o seu divórcio e tem apensa dois amigos próximos, um casal vizinho dele. A sua vida dá uma volta de 180º quando adquire o mais recente sistema operativo (OS). Theodore acaba por estabelecer uma relação peculiar com o OS que se auto-apelida de Samantha (cuja voz é a de Scarlett Johansson) e vê nela mais que um simples computador.

Se no mundo do cinema actual é normal a péssima qualidade dos filmes românticos, Uma História de Amor foge à regra. Nunca entrando em clichés ou diálogos de 'gosto muito de ti', 'eu também', etc., Spike Jonze escreveu a melhor história romântica desde Antes de Amanhecer (e isso já foi há quase 20 anos...). Como não podia deixar de ser, o filme conta com vários diálogos românticos entre Samantha e Theodore, que já por si são bem melhores e mais comoventes que qualquer outro filme cor-de-rosa de Hollywood (o argumento de Jonze chega ao ponto de ser poético a dado momento). A parte realmente interessante do argumento de Uma História de Amor vem com os diálogos espontâneos que o casal tem um com o outro, bem como todos os outros que Theodore acaba por ter com variadíssimas personagens sobre morte, sumo de frutas, compromissos e tantas outros assuntos soltos mas não menos curiosos.

Mesmo com tanta seriedade e profundidade no tema que aborda (o filme deixa até algumas perguntas filosóficas sobre identidade e amor), Jonze não deixa de continuar ingénuo e sarcástico. São vários os momentos de comédia típica, com um humor muito eficaz quer a nível de diálogos quer a níveis visuais, e há ainda muitas cenas que não se podem ver sem sorrir, tal é a alegria e a já referida ingenuidade que o realizador lhes dá.

A realização que Jonze oferece é também ela algo de espectacular. A forma como este realiza Uma História de Amor é tão delicada e original quanto o seu argumento, isto porque ele consegue sempre transmitir algo mais que o esperado com um simples movimento de câmara. Jonze ora utiliza travellings lentos e suaves durante as cenas a só de Theodore ora entra em mexidos e apressados planos subjectivos da nossa personagem principal, que vai tendo vários flashbacks nostálgicos da sua família ou dos seus recentes relacionamentos, muitas vezes mostrados através dos seus olhos. Embora perca um pouco o ritmo numa ou noutra cena, a história que Jonze nos conta chega-nos levemente e nunca conseguimos perder o interesse por ela.

Spike Jonze, para além de criar uma inovadora história de amor, conseguiu ainda fazer um belíssimo pano de fundo, situado num futuro não tão distante. Os cenários são absolutamente atraentes, onde a forma como se dispôs cada peça de cada divisão parece ter sido meticulosamente planeada, e o jogo de cores e luzes que Jonze nos oferece, aliado a uma grande cinematografia de Hoyte Van Hoytema, também não passa despercebido. Para além disso há ainda vários 'brinquedos' futurísticos (jogos de vídeo em 4D, computadores que escrevem o que ditamos, etc.) que, embora muito ficção científica, bem podiam ser criados já em 2014 (lá está a ideia do 'futuro não tão distante').

E são esses 'brinquedos' e o modo como as personagens interagem com elas que faz parte de uma certa sátira de Spike Jonze. A naturalidade com que a maioria das pessoas aceitam a relação que Theodore estabelece com um sistema operativo é um sinal que a dependência do ser humano em relação às máquinas é já uma nova forma de vida, algo do quotidiano. E o assustador de tudo isso é que já não faltará muito para isso acontecer, pois já são muitas as vezes em que nos distrai-mos com telemóveis e iCoisas enquanto há muita beleza à nossa volta. Exemplo disso é a última cena (SPOILER! SPOILER!) onde, após os seus sistemas operativos decidirem partir à procura da sua própria identidade (isto depois de terem moldado a dos seus donos), Theodore e a sua amiga Amy (Amy Adams) vêem-se pela primeira vez no filme sem qualquer tecnologia e é aí que conseguem realmente apreciar o nascer do sol enquanto desfrutam do contacto humano.

Uma das outras coisas de que mais gostei em Uma História de Amor foram as personagens. É difícil desgostar do filme no momento em que todas as personagens têm algo com o qual nos identificamos. Parece que nos vemos ao espelho sempre que os intervenientes falam, pois todos já passamos por aquilo que eles passaram: a solidão de Theodore, o desejo de Samantha em ser algo mais do que já é, as brigas que Amy tem com o seu marido Charles... Toda a gente já viveu algumas destas fases e não pode ficar indiferente quando estas são retratadas no filme. Alguns dos diálogos parecem ser uma cópia a papel milimétrico das nossas próprias conversas ou desabafos, o que torna Uma História de Amor um filme altamente universal.

Para ajudar à relação personagem/público temos também as grandes intervenções dos actores. Joaquin Phoenix interpretou de modo magnífico Theodore, dando-lhe vida própria com as suas expressões faciais e voz de constante tristeza e solidão. Amy Adams confirmou que é uma das mais versáteis actrizes da actualidade (notem-se as diferenças entre as suas personagem em Uma História de Amor e Golpada Americana) e interpretou muito bem a sua homónima personagem que, embora simples e com poucas intervenções, ficou mais carismática e interessante graças à actriz.

E a cereja no topo do bolo, neste caso do elenco, é Scarlett Johansson. Visto que é, a título oficial, a mulher mais sexy do mundo nunca se prestou muita atenção às verdadeiras qualidades da actriz, cujo talento é muitas vezes ofuscado pela sua silhueta. Por isso a oportunidade de dar apenas e só a voz a uma personagem e deixar a sua aparência física à imaginação do espectador podia sair ao lado, pois poderíamos descobrir que, afinal, Johansson é má actriz. Mas não. A actriz conseguiu transmitir variadíssimas emoções apenas com o seu timbre, que tanto era amável e bem humorado como podia chegar aos mais altos picos de sentimentalismos. Conseguimos ver lágrimas a escorrer pela cara de Samantha ou vislumbrar o seu sorriso apenas pela expressividade de Scarlett Johansson. E isso não é tão fácil como parece.

No meio de tanta excelência salienta-se ainda a banda-sonora, uma das peças mais comoventes de Uma História de Amor. Temos algumas faixas com poucos acordes, como a do início do filme, que servem apenas para ambientar a atmosfera, mas depois temos algumas músicas que acompanham o filme como se fossem personagens da história. Muitas delas têm tons nostálgicos que acompanham os flashbacks de Theodore e outras parecem funcionar como uma almofada para o sentimentalismo do argumento de Jonze (que sabe jogar com mestria os sons e as palavras dos actores), acabando por ser todas elas incríveis, sem excepções.

Ainda vamos a meio de Fevereiro, mas é seguro dizer que o filme do ano está aqui. Uma História de Amor utiliza um cenário de ficcção científica para contar uma comovente história de amor e conta com um argumento soberbo de Spike Jonze, bem como espectaculares interpretações de Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson.

9/10