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domingo, 27 de julho de 2014

Snowpiercer: O Expresso do Amanhã

SNOWPIERCER
de Bong Joo-ho
com: Chris Evans, Kang-ho Song, Ed Harris, John Hurt,
Tilda Swinton, Jamie Bell e Octavia Spencer
Ora aqui está um filme bipolar. Snowpiercer: Expresso do Amanhã tem a duração de duas horas, que se dividem entre o mais aborrecido que temos nos blockbusters actuais e o melhor que se pode desejar numa boa metáfora da nossa sociedade.

Para solucionar o problema do aquecimento global, vários países decidem lançar uma substância para as camadas superiores da atmosfera. Mas tudo corre mal e o planeta Terra acaba por ficar congelado e sem condições para a vida humana. Os poucos sobreviventes, para resistirem ao frio, mudam-se para um comboio gigante que anda à volta do mundo sem parar. 17 anos depois, em 2031, Curtis (Chris Evans) e os seus companheiros, vivendo em condições precárias, preparam uma revolução de modo a tirar o poderoso Wilford do controla do comboio.

Este novo trabalho do realizador coreano Bong Joon-ho é a adaptação de uma banda desenhada francesa, de nome Le Transperceneige dos anos 80. É a primeira vez que o cineasta filmou em inglês e que explorou o género de acção e ficção científica e embora tenha sucumbido um pouco ao blockbuster típico, com muitos e idiotas plot holes, deixou uma marca pessoal no filme, com uma violência e um factor surpresa a que não estamos habituados a ver nos filmes de acção dos últimos anos. Para além disso, Joon-ho conseguiu fazer uma boa metáfora da humanidade através do seu comboio.

À primeira vista, Snowpiercer parece ser um filme que alerta para os perigos do aquecimento global, fazendo uma previsão apocalíptica daquilo que vai acontecer se nada fizermos para combatê-lo. Mas é mais do que isso. É claro que há uma pequena crítica à desatenção que existe atualmente, mas apenas durante breves instantes, na cena inicial, naquele que começa a ser já um cliché irritante nos filmes de acção e ficção científica: enquanto vemos os créditos iniciais a passar, temos que ouvir pequenos trechos de reportagens que vão demonstrando o decorrer da situação do planeta.

A verdade é que o comboio Snowpiercer funciona como uma alegoria à sociedade actual. Ainda que não seja uma metáfora muito elaborada (não há uma simbologia escondida em cada plano e não é preciso raciocinar muito para perceber o que cada secção do comboio representa), são mostradas as discrepâncias que vivemos no nosso mundo de uma forma interessante, enquanto se salientam também vários assuntos controversos da nossa história. À medida que Curtis e os seus companheiros vão passando pelas várias carruagens com o objectivo de chegar à parte principal do Snowpiercer, são mostradas imagens incríveis e momentos muito curiosos. 

Salta logo à vista a diferença de cores entre cada cenário. Começamos o filme num ambiente escuro, sujo e claustrofóbico. Depois vamos saltando para tons mais claros, de seguida somos bombardeados por paletas de cores impressionantes e assim sucessivamente. Paralelamente ao aumento da espectacularidade de cada carruagem, as personagens que conhecendo à medida que vamos percorrendo o comboio demonstram as várias camadas da sociedade. Temos na cauda do Snowpiercer os mais pobres, os que sabem das atrocidades que acontecem todos os dias mas que pouco ou nada podem fazer. Encontramos logo a seguir partes com plantas e animais aquáticos, que alertam para os cuidados a ter para manter os ecossistemas em funcionamento. Na carruagem onde nos deparamos com um jardim-escola, é exposta a lavagem cerebral a que certas comunidades são submetidas.

É pena que todos estes bons momentos tenham chegado apenas na segunda hora do filme. Nada de interessante se passa nos primeiros 60 minutos de Snowpiercer, onde o filme anda a arrastar a história até se tornar aborrecido. O argumento durante este período da fita é paupérrimo: nada de memorável é dito pelas personagens e os diálogos não exploram nem mostram muito do interior de cada protagonista (e tendo em conta que visualmente não ganhamos afeição por nenhum, até dava jeito gostar-se do que eles dizem). As cenas de luta não são nada de especial, talvez também por culpa da fotografia escura que às vezes nem deixa perceber quem está a lutar com quem, o que é grave, pois estamos a ver um filme que quer entrar na categoria de Acção. No fundo pode dizer-se que a essência do filme reside nos segundos 60 minutos, já que nos primeiros, nada de jeito acontece.

Os efeitos especiais são muito amadores, comparáveis a um jogo de PlayStation. Quando são mostrados planos do mundo exterior, que deveriam fazer estremecer o público com uma visão apocalíptica do nosso planeta, não ficamos senão indiferentes, tal o nível de mediocridade do CGI. O que acaba por compensar é o elenco, liderado por um surpreendente Chris Evans, que se descolou das personagens que o tornaram famosos (Tocha Humana e Capitão América) e ofereceu uma excelente performance. Kang-ho Song foi igualmente um dos melhores elementos do elenco e os momentos em que contracenou com Chris Evans foram espantosos. Todos os outros actores estiveram impecáveis, destacando-se John Hurt e Tilda Swinton.

É difícil dizer se Snowpiercer: O Expresso do Amanhã é bom ou mau, porque consegue ser os dois. O melhor mesmo é começar a ver o filme a partir da segunda hora, onde Joon-ho Bong critica a humanidade através de uma excelente metáfora, porque na primeira vemos apenas o que já se vê noutros blockbusters: argumento pobre, cenas de acção fracas e uma narrativa que não vai a lado nenhum, tornando-se entediante.

5/10

sábado, 15 de março de 2014

Fruitvale Station: A Última Paragem

Uma surpreendente estreia de Ryan Coogler e um bom tributo a Oscar Grant

File:Fruitvale Station poster.jpg
FRUITVALE STATION
de Ryan Coogler
com: Michael B. Jordan, Melonie Diaz e Octavia
Spencer
Este é o filme de estreia de Ryan Coogler, um perfeito desconhecido no mundo do cinema até ao momento em que levou o seu Fruitvale Station até ao Festival de Sundance 2013. A verdade é que quem se estreia assim só eleva expectativas para o seu próximo projecto.

Fruitvale Station: A Última Paragem narra os acontecimentos que conduziram à morte de Oscar Grant (no filme interpretado por Michael B. Jordan) na noite de Ano Novo de 2009, naquele que foi um dos acontecimentos mais marcantes dos últimos anos nos EUA envolvendo questões raciais.

Ryan Coogler conseguiu como estreante fazer um filme muito bom. Abordar um tema destes e retratar os acontecimentos de 1 de Janeiro de 2009 é sempre uma tarefa arriscada, mas o jovem realizador saiu-se muito bem. Através de um constante uso de hand-camera, Coogler fez o filme parecer quase como que um documentário e a forma crua como mostrou os bairros e as casas das personagens foi crucial para dar mais veracidade a Fruitvale Station.

No entanto, houve uma falha na construção das personagens. Oscar Grant é, no filme, alguém amável e fácil de gostar. Mas ninguém pode realmente acreditar que Oscar era assim na vida real: esteve na prisão, vendia droga e andava metido em confrontos de gangs. E nem é preciso pesquisar nada disto pois Coogler mostra-nos todo este lado negro da sua personagem principal, mas não da forma exagerada como quer passar-nos o seu lado de bom samaritano. Parece que o realizador quis negar o facto de Oscar não ser 100% perfeito.

E são estas tentativas de fazer de Oscar uma personagem boazinha que tiram grande parte do interesse a Fruitvale Station na sua primeira metade. Não se passa muito durante os primeiros instantes do filme senão uma montra de boas acções (algumas delas até forçadas e que parecem não ter existido) realizadas pelo 'herói' que Coogler tenta construir. Seria interessante se se tivesse tomado a decisão de tornar o protagonista do filme num 'anti-herói', de modo a levantar mais algumas questões.

Mas outras questões não deixam de ser levantadas. Breves diálogos entre as personagens e a magistral meia hora final de Fruitvale Station dão que pensar e ninguém lhes pode ficar indiferente. É por vezes demonstrado um certo racismo ou desdém por Oscar, bem como o seu orgulho em ser negro, e é ainda salientada a violência e brutalidade de alguns agentes da lei.

Ryan Coogler mostra ser um excelente realizador quando chega ao momento final do filme, aquele que todos sabem que vai acontecer: o assassinato de Oscar. Coogler havia iniciado o filme com um vídeo amador gravado na altura, onde se pode ver como tudo se passou. Quando voltamos a testemunhar o incidente, parece que estamos a ver exactamente o mesmo mas com um ângulo diferente, pois Coogler reproduziu minuciosamente o que se passou. Os movimentos dos polícias, as reacções das pessoas e os gritos de revolta dos amigos de Oscar estão iguais ao vídeo amador mostrado no início do filme.

Coogler, mesmo assim, não termina aqui o filme, como seria de esperar. O realizador oferece uma espécie de epílogo onde mostra o desespero dos amigos e família de Oscar no hospital onde este fora internado e eleva novamente o carácter sentimental de Fruitvale Station. Até ao último segundo do filme somos bombardeados com a tristeza das personagens e acabamos também por nos deixar levar por ela.

Fruitvale Station ganha ainda com as boas interpretações do seu elenco. Octavia Spencer, no papel de mãe de Oscar, é a maior estrela do filme e acrescentou mais uma excelente e comovente performance ao seu currículo. Michael B. Jordan e Melonie Diaz, que fez de sua namorada, tiveram desempenhos agradáveis, mas a tal tentativa de fazer Oscar mais amável que plausível não deu muita margem de manobra para os actores mostrarem muito senão uns sorrisos, embora quando foi necessário momentos de maior dramatismo tenham estado ambos bem.

Fruitvale Station: A Última Paragem põe o dedo na ferida trazendo à tona várias questões raciais e põe Ryan Coogler na lista dos mais prometedores realizadores americanos da actualidade. Embora peque nalguns momentos, é um retrato fiel das últimas horas de vida de Oscar Grant e não vai deixar ninguém indiferente.

7/10