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sábado, 25 de outubro de 2014

Frank

FRANK
de Lenny Abrahamson
com: Domhnall Gleeson, Michael Fassbender,
Maggie Gyllenhaal e Scoot McNairy
Um dos títulos mais curiosos e interessantes do ano tem o nome de uma das personagem mais originais dos últimos tempos: Frank.

Quem é Frank? É um músico extremamente talentoso com uma particularidade: usa uma máscara de cartão (semelhante à do músico  Frank Sidebottom) que se recusa a tirar. Mas mesmo sem lhe vermos a cara, é impossível não nos revermos na suas acções. Frank é uma das personagens mais bem construídas e universais do cinema actual, reunindo tantas características do ser humano que poucos serão os que não se irão identificar com ele, tanto nos momentos mais cómicos e animados como nos mais dramáticos e profundos.

A ele se juntam mais meia dúzia de personagens bastante peculiares mas também elas incrivelmente genuínas. Jon é uma delas, um rapaz aspirante a música que entra na banda de Frank, os Soronprfbs, e com ele vai iniciar uma jornada absolutamente maluca e bizarra, começando a ter um papel fundamental no caminho da banda até ao sucesso. É através de Jon que o realizador Lenny Abrahamson demonstra ainda o poder das redes sociais, arma essencial para levar os Soronprfbs até às luzes da ribalta.

Mais que um grande retrato do comportamento e das relações humanas, Frank é também uma grande obra de entretenimento, repleta de momentos recheados de humor negro passados num ambiente muito característico. O argumento, para além de conseguir ser sensível e em algumas partes bastante comovente, tem também passagens hilariantes. Já os cenários decorados com muitos objectos bizarros (que por vezes são demasiados...) e a simples caracterização de cada personagem fazem com que cada cena seja única. A isto junta-se uma banda sonora peculiar, cheia de sons, melodias e letras particulares que originam temas fantásticos.

Michael Fassbender, mesmo sem mostrar a sua cara durante 95% do filme, consegue transmitir com a sua mímica e maneira de falar uma panóplia de emoções, naquela que é uma das performances mais interessantes da sua carreira. Domhnall Gleeson não lhe fica nada atrás, e ao dar vida a Jon oferece uma prestação excelente e delicada. Maggie Gyllenhaal e Scoot McNairy, em papéis mais secundários, também dão provas do seu talento e são protagonistas de algumas das cenas mais memoráveis da película.

É o próximo filme de culto, dado que a sua história e personagens invulgares não conseguirão ser do agrado do grande público. Mas aqueles que conseguirem apanhar a mensagem desta obra e perceberem que consegue entreter mais que tantas outras longas-metragens que por aí aparecem sem qualquer originalidade ou autenticidade, irão certamente adorar Frank, uma das maiores surpresas do ano.

8/10

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

12 Anos Escravo

Não há como ficar indiferente a 12 Anos Escravo e, depois de passarmos o choque inicial, percebemos que estamos diante de um excelente filme

File:12 Years a Slave film poster.jpg
12 YEARS A SLAVE
de Steve McQueen
com: Chiwetel Wjiofor, Lupita Nyong'o, Michael
Fassbender, Benedict Cumberbatch e Adepero
Oduve
São poucos os filmes sobre a escravatura que conseguem realmente transmitir o sofrimento e a humilhação que os escravos sofreram nos EUA no século XIX. 12 Anos Escravo entra nessa escassa lista de filmes.

Partindo da auto-biografia de Solomon Northup, o filme narra a sua história: a de um afro-americano (Chiwetel Ejiofor) que vive livremente em Nova Iorque até ao dia em que é atraído em negócios até Washington DC. Aí, Solomon é drogado e vendido como escravo, acabando por ir parar a uma plantação de algodão no Louisiana.

Não há como ficar indiferente à terceira longa-metragem de Steve McQueen. Há ao longo do filme há várias cenas que não serão fáceis de digerir por parte do público mais sensível (e para estes aconselho uma caixa de lenços) quer pela sua violência psicológica, como o momento da separação de uma mãe dos seus filhos depois de ser comprada, quer pela violência física, como a soberba cena do chicoteamento de Patsey (Lupita Nyong'o).

Tudo isto é possível devido à mestria de Steve McQueen atrás das câmaras. Depois de Vergonha e Fome, o realizador de 44 anos superou-se num filme que põe em evidência todo o seu talento como relizador. McQueen consegue jogar com a luz, com as paisagens e com os sons (12 Anos Escravo terá também muitas nomeações nos Óscares a níveis técnicos) enquanto usa diversos e diferentes meios de filmagem, quer com steadicams quer com planos parados de grande foco e muita atenção ao detalhe. É verdade que por momentos o filme parece ser algo maçador (algumas cenas são excessivamente longas), mas mesmo assim penso que não se poderia excluir nenhuma parte das duas horas que compõe 12 Anos Escravo.

O que acaba também por chocar imenso neste filme é o facto de ser verídico. A história de Solomon Northup, embora seja muito pouco conhecida, é tragicamente incrível. Steve McQueen, juntamente com Chiwetel Ejiofor e o excelente argumento de John Ridley, acaba por fazer justiça ao grande, embora desconhecido, homem que foi Solomon. E, ao contrário de muitas adaptações de auto-biografias, McQueen não se limita apenas a passar para o ecrã a história Solomon, mas julga também todos aqueles que massacraram e violaram as condições humanas dos escravos e que acabaram por sair impunes aos olhos da justiça, como é referido na nota final do filme. O público acaba por também se sentir injustiçado, no final.

Chiwetel Ejiofor está pura e simplesmente soberbo no papel de Solomon Northup. O actor cujas capacidades até agora pouco se haviam evidenciado teve uma performance que dificilmente repetirá e conseguiu passar eficazmente todo o sofrimento, solidão e tantas outras emoções que Solomon terá vivido. Lupita Nyong'o e Adepero Oduye (duas actrizes perfeitamente desconhecidas e inexperientes), na pele de Patsey e Eliza, respectivamente, ofereceram também grandes prestações, dando vida a personagens massacradas até dizer chega. No resto do elenco destacam-se ainda Michael Fassbender (o actor predilecto de McQueen), que me fez lembrar um pouco Daniel Day-Lewis.

Outra das coisas que mais gostei em 12 Anos Escravo foi o facto de actores como Benedict Cumberbatch e Brad Pitt (igualmente productor do filme), dois dos preferidos do público feminino, terem desempenhado papéis muitíssimo secundários (Brad Pitt não há de ter estado mais de 10 minutos no ecrã), não tendo existido uma exploração por parte da produtora destes actores para atrair mais público às salas. O argumento de John Ridley está também muito bom, embora por vezes tenha caído na tentação de fazer algumas falas mais como uma punch line ('eu quero viver, não sobrviver' é um bom exemplo), que não fica muito bem neste tipo de filme.

12 Anos Escravo não é fácil de digerir. Mas quando finalmente passamos o choque e o interiorizamos, percebemos que é um excelente filme. Há-de certamente consagrar Steve McQueen e Chiwetel Ejiofor e ninguém o irá tirar da cabeça tão facilmente.

9/10