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segunda-feira, 23 de março de 2015

Focus

FOCUS
de Glenn Ficarra e John Requa
com: Will Smith, Margot Robbie, Rodrigo Santoro,
Adrian Martinez e Gerald McRaney
Crime. Mentiras. Sensualidade. Vilões. Plot twists. É isto e pouco mais que Focus, o mais recente trabalho da dupla Glenn Ficarra e John Requa, oferece aos espectadores que se quiserem aventurar por "mais um" filme de... de... boa pergunta. Em que género mesmo se insere esta obra?

Focus é uma misturada de comédia, crime, thriller e drama. Géneros completamente diferentes uns dos outros mas que não são impossíveis de se juntarem e darem numa obra de relativo entretenimento. O que não falta por aí são híbridos que provam que até os tipos de filmes mais afastados podem dar as mãos e criar algo de bastante interessante (basta recuar ao mês passado e relembrar o excelente Relatos Selvagens, que tão bem temperou intrigas cheias de tensão com um ácido humor negro). Só que a dupla que assina Focus não faz ideia de como conjugar os diferentes géneros da sua história e a narrativa torna-se atrapalhada e com muitos problemas de ritmo.

Felizmente (ou infelizmente, se virmos a coisa de uma perspectivava "eles enganaram-nos bem!") os primeiros minutos são muito engraçados. Resumem-se basicamente a esquemas de vigaristas do tipo Ocean's Eleven e à apresentação dos dois protagonistas que vamos acompanhar para o resto do filme: Nicky e Jess. Ele é o típico con man e tem mil e um truques na manga; ela é uma novata nestas andanças mas já tem os looks de uma Bond Girl, ou não fosse interpretada por Margot Robbie (que muitos homens, e quiçá mulheres, ainda têm bem presente na cabeça depois de O Lobo de Wall Street). Este primeiro acto conta com linhas de diálogo básicas, clichés e algumas falhas na montagem (a sequência em que o grupo de Nick testa Jess para ver se a rapariga serve para entrar no esquema é ligeiramente confusa de tão rápida que é filmada), mas prima pelo divertimento constante que provoca, quer pelo bom trabalho dos actores quer pelo humor ridiculamente eficaz que tem como clímax a cena de apostas em pleno jogo de futebol americano.

Fosse Focus ser uma curta-metragem e acabasse por aqui e ficávamos nós bem servidos. Porque o que se segue é algo de tão pobre e rasca que parece ignorar os bons momentos que até aí tinha proporcionado. Entramos por esta altura na verdadeira sinopse do filme: Nick, três anos depois do seu maior golpe e após se ter dado com os pés a Jess, é contratado por Garriga, milionário e dono de uma equipa de Fórmula 1, para arruinar a equipa adversária com mais um dos seus brilhantes esquemas. O protagonista concorda mas hesita assim que descobre que o homem que lhe encomendou este novo trabalho é o novo parceiro de Jess. O que se segue? Nada de especial. As diferentes vertentes do filme começam a ser trabalhadas em separado, como se Ficarra dissesse a Requa "tu tratas do thriller e do drama e eu fico aqui a avançar com a comédia e o crime", e quando se tenta saltar de uma para a outra há graves quebras de ritmo e tudo cai assim na mediocridade de outras obras deste tipo.

Desesperados para chegar a um final decorado de plot twists, os realizadores apressam a história. Vão simplesmente misturando os ingredientes para as suas cambalhotas narrativas, nem que para isso tenham que transformar personagens outrora interessantes em marionetas do seu desejo de baralhar a cabeça ao espectador. Nick passa de um vigarista de primeira classe para um homem facilmente influenciável e desesperado em reconquistar o amor da sua vida; Jess, dantes uma rapariga sensual e talentosa na arte do roubo, é agora a típica "loira burra" e passa a ser a protagonista mais fraca de toda a lista de intervenientes do filme; Adrian Martinez, o divertido Farhad e único sobrevivente secundário do primeiro acto, ainda vai aparecendo no ecrã mas para pouca coisa. E as novas personagens também não são flor que se cheire, não por serem os típicos maus da fita, mas porque são tão mal construídos que mete dó.

Com a qualidade das personagens vai-se também embora o humor que tanto nos divertiu nos primeiros momentos de Focus. Os supostos comic reliefs não têm nada de cómico e não nos aliviam de nada, pois para que tal acontecesse, tínhamos que estar nervosos de alguma coisa. Ora, se os esquemas criminosos são parvos (e mal explicados), o thriller construído é anedótico e os segmentos dramáticos entre um Nick à procura de redenção para voltar a ter Jess nos seus braços são traduzíveis na palavra aborrecido, então não nos tínhamos que aliviar de nada: já nos estávamos a rir (para não chorar) da palhaçada que se vê. O que ainda nos mantém minimamente pregados ao ecrã é a expectativa do plot twist final, que justificaria com certeza as idiotices que acabávamos de ver. Mas em vez disso... este é apenas a cereja no topo de um bolo amargo. E não é só um: são pelo menos uns dois ou três twists muitíssimo preguiçosos e com muita pouca criatividade que preenchem os últimos minutos da intriga.

A única boa constante de Focus acaba por ser o seu visual apelativo. Se o empenho em fazer do filme uma boa e interessante história de vigaristas com um lado cómico foi por água abaixo, o trabalho em presentear os nossos olhos com imagens cativantes foi mais que cumprindo (embora se denote uma descida de qualidade das mesmas mais para o final). As ideias visuais são bem aplicadas, como uns jogos engraçados de espelhos, e a fotografia e cenários electrizantes nas cenas de grandes festas são extravagantes (num bom sentido). Há todo um glamour que rodeia as vestimentas, os carros, as casas e tudo o demais das personagens que, juntamente com uma escolha acertada de banda-sonora, ajuda a dar um estilo assinalável ao filme, não por ser original ou brilhante, mas por se querer afastar da banalidade de outras produções semelhantes e adquirir um ar próprio.

Infelizmente, quem sai mesmo entretido da sala após o término do filme acabam por ser apenas os olhos. Se as cenas iniciais prometiam e muito, Focus começa a desequilibrar-se na sua própria narrativa e acaba por entrar numa curva descendente de qualidade demasiado rápido. E se nem o sex-appeal de Margot Robbie nem o carisma de Will Smith (de volta a um bom nível após o desastre que foi Depois da Terra) conseguem salvar a história, então o seu baixo nível está mais que comprovado.

4/10

sábado, 11 de janeiro de 2014

O Lobo de Wall Street

Tirando os excessivos exageros de Martin Scorsese, O Lobo de Wall Street é um bom filme com estrondosas interpretações, especialmente a de Leonardo DiCaprio, e um muito bom argumento de Terence Winter

File:WallStreet2013poster.jpg
THE WOLF
OF WALL STREET

de Martin Scorsese
com: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill e Margot
Robbie
Martin Scorsese é o homem que consegue transformar baixos orçamentos em excelentes filmes (Os Cavaleiros do Asfalto, Taxi Driver, Alice Já Não Mora Aqui). Aumentem-lhe um bocadinho esse orçamento e ele continua bem (Touro Enraivecido, Tudo Bons Rapazes). Mas agora dêem-lhe 100 milhões de dólares e, tal como Jordan Belfort, Scorsese perde a cabeça. Exemplo? O Lobo de Wall Street.

Adaptado do livro de memórias de Jordan Belfort, O Lobo de Wall Street conta a sua história, a de um jovem que chega com tenra idade a Wall Street e com vontade de enriquecer de forma minimamente honesta. Mas com o passar do tempo, e a partir do momento em que o dinheiro fácil começa a acenar-lhe à frente do nariz, Belfort cria a sua própria empresa de correctores de bolsa e cria milhões de dólares em horas, de forma ilegal.

O Lobo de Wall Street é um típico Scorsese em certos momentos, com diálogos que não poupam nos 'fucks', 'shits' ou 'cunts', e uma realização consistente, bem melhor as de A Invenção de Hugo ou Entre Inimigos. Mas o problema maior deste filme é a forma como o realizador conta a história. Leonardo DiCaprio, numa performance muito bem conseguida que prova que é um dos 5 melhores actores da actualidade, interpreta Belfort, o homem que representa toda a ganância e desespero pelo dinheiro, e faz de O Lobo de Wall Street uma metáfora de toda a maluquice dentro do imoral mundo do dinheiro. Mas, devido aos demasiados exageros de Scorsese, nunca consegui levar essa metáfora a sério.

Tal como Woody Allen tinha feito em Vicky Cristina Barcelona, Scorsese parece usar este filme para satisfazer todas as suas fantasias sexuais. Orgias em aviões, snifar coca das mamas de uma loiraça, sado-masoquismo, snifar coca do rabo de uma prostituta... Para quê? Nada disto ajudou a história. Depois disso, há inúmeras cenas que mais fazem lembrar aquelas comédias parvas de Adam Sandler. Tiro ao alvo com anões? Masturbação em público? Como disse, Scorsese não sabe o que fazer a tanto dinheiro (nem a tanta liberdade...).

Claro que há também violência e momentos soberbos de comédia negra. A cena em que Belfort, sob o efeito de drogas fora do prazo, tenta chegar ao carro para impedir o seu sócio de o denunciar ao FBI é um dos poucos momentos em que me consegui rir onde era suposto. Um plano simples sem qualquer movimento de câmara, a esparregada de DiCaprio e sua impossibilidade de articular qualquer palavra, o sotaque nova-iorquino da sua mulher do outro lado do telefone. Isso sim, é comédia simples, sem necessidade de anões ou consumo de droga a partir de órgãos genitais femininos.

E depois, está claro, a comédia não é nem nunca será a praia de Martin Scorsese. Percebemos isso quando praticamente todos os momentos de suposta comédia do filme nos passam ao lado (à excepção da já referida cena do anterior parágrafo). Scorsese é o mestre dos dramas dos anti-heróis. E é isso mesmo que acabamos por ter em certas partes d'O Lobo de Wall Street, como quando Belfort é confrontado com os seus problemas de drogas.

O argumento de Terence Winter, que até agora havia escrito para séries como Os Sopranos ou Boardwalk Empire, acaba por ser uma das melhores coisas d'O Lobo de Wall Street. Os diálogos das personagens são soberbos. Prova disso é quando Belfort fala com Mark Hanna (Matthew McConaughey), o seu primeiro tutor, durante um almoço. Sexo, drogas, dinheiro, tudo aquilo que Scorsese não conseguiu mostrar de forma séria durante o filme é abordado com maturidade (e uma pitada de comédia negra) no diálogo entre as duas personagens. Os monólogos de Belfort são igualmente excelentes, contando com muito sarcasmo e aquele 'toque' que DiCaprio lhes oferece.

E já que falo de DiCaprio, volto a salientar a sua brilhante interpretação de Jordan Belfort. Desde os momentos mais dramáticos até aos clímaxes do consumo de substâncias ilegais, o actor não falha. Já lhe há-de estar reservada uma nomeação para os Óscares. Jonah Hill, no papel de Donnie Azoff, deu também provas de que é muito melhor actor do que os filmes onde por vezes entra querem fazer parecer. E depois temos Margot Robbie, no papel da femme fatale Naomi, que é a nova Scarlett Johansson, provocadora e sexy, talvez a razão pela qual Scorsese quis tantas cenas de sexo e obscenidade. Robbie quase que justifica essa tal perversidade do realizador. Quase...

Voltando aos aspectos negativos do filme, é necessário salientar os maus efeitos especiais d'O Lobo de Wall Street. Mesmo com o tal orçamento de 100 milhões, o CGI é muito básico e irrealista. E as cenas que foram filmadas com um pano verde de fundo tiraram qualquer credibilidade a certos momentos do filme. Quando Belfort vai à Suiça em negócios e nos é apresentada a paisagem de Genebra por uma enorme janela, não nos podemos sentir em mais nenhum lado senão num estúdio de Hollywood.

Nunca esperei dizer isto, mas o principal problema de um filme de Martin Scorsese é... Martin Scorsese. O Lobo de Wall Street é uma orgia de ideias vindas da mente de um dos melhores realizadores da história mas que parece agora estar numa fase algo descendente (e perversa). Se não fosse pelas estrondosas interpretações do seu talentoso elenco e o bom argumento de Terence Winter, os seus coletes salva-vida, o realizador tinha-se afundado bem fundo.

7/10