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domingo, 17 de maio de 2015

Os Vingadores: A Era de Ultron

AVENGERS: AGE OF ULTRON
de Joss Whedon
com: Robert Downey Jr., Chris Hemsworth, Mark Ruffalo,
Chris Evans, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Elizabeth
Olsen, Aaron Taylor-Johnson e Samuel L. Jackson
O banquete de super-heróis que a Marvel apresentou em 2012 (sem antes não dar a quase todos os seus pratos principais um filme a solo) volta a ser servido depois de uma campanha de marketing ao nível de aperitivos de hotéis de 5 estrelas que, como é óbvio, abriu e de que maneira o apetite para a nova aventura d'Os Vingadores no grande ecrã. E perguntam vocês caríssimos leitores: Sebastião, valeu então a pena teres aproveitado os descontos da Festa do Cinema para ires ver o filme? Ao que eu vos respondo com toda a convicção: não!

Os Vingadores: A Era de Ultron é intragável, uma saladinha de frutas com utilização excessiva de açúcar para esconder a sua falta de sabor. Por saladinha de fruta entenda-se um conjunto de super-heróis visualmente muito coloridos mas que quando chega a altura de se desenvolverem como personagens se tornam bonecos de cera unicolor. E por açúcar entenda-se efeitos especiais e avalanches de humor (ineficaz). E por sabor entenda-se diversão e entretimento.

E por intragável... bem, entenda-se isso mesmo, porque é o melhor adjectivo a utilizar nesta sequela que, mesmo dentro do género dos blockbusters, é uma tamanha desilusão e uma experiência cinematográfica inócua. Não há um pingo de originalidade (para onde quer que olhemos, há sempre a sensação de que já vimos isto nalgum lado, tal como tinha acontecido no primeiro capítulo quando, na batalha final, de repente nos lembrámos dos Transformers), uma qualquer vontade de trazer algo de novo ao universo dos Vingadores e, olhando para as duas mais recentes produções da Marvel, ambas surpreendentes e mais que conseguidas (Capitão América: O Soldado do Inverno e Guardiões da Galáxia), é triste ver que os estúdios deram um enorme passo atrás. Juntem a isto ainda os cenários de uma pobreza extrema, cenas de acção que não satisfazem e problemas enormes de ritmo e sentido narrativo, e o caldo está entornado pelo chão.

É-nos apresentado um novo vilão, Ultron, uma forma de inteligência artificial que é criada para ajudar a manter a paz até que, surpresa das surpresas, descobre que os humanos são maus e por isso decide combater os Vingadores. Terá a ajuda dos gémeos mutantes Scarlet Witch e Quicksilver, duas interessantes personagens que ainda proporcionam alguns dos poucos momentos de verdadeiro relevo, embora acabem por ser vítimas do argumento demasiado preocupado em fazer do filme uma sit-com (já volta a este ponto). Ora bem, Ultron aparece pela primeira vez numa cena excelente: vê-mo-lo nascer do nada, sem corpo, apenas com uma voz electrónica e percorrendo rios de informação. Depois desta introdução visualmente inteligente, o antagonista vai-se tornando básico e mais básico, chato até mais não e, entretanto, fácil de derrotar (numa luta final igual à d'Os Vingadores de 2012, desta vez com direito a umas quantas cheesy lines).

Porque é que ainda demora algum tempo até ao mau da fita perder esta batalha. Porque os protagonistas super-heróicos vão passar metade do filme às turras uns com os outros, em lutas de testosterona e birras de criancinhas da cresce. Com isto não há uma única personagem com quem cheguemos a criar qualquer tipo de empatia: Tony Stark continua um teimoso convencido (o ar arrogante de Robert Downey Jr. também não ajuda); Thor continua um deus chato como tudo (como raio é que ainda vai ter um terceiro filme a solo!?) e é ainda figura principal numa das cenas mais confusas do filme; Capitão América volta a ser um adereço oco que continua com a história do "andei adormecido mais de meio século..."; já Hulk e Viúva Negra protagonizam um romance que ninguém previa mas que acaba por tomar caminhos absolutamente cliché.

No meio disto tudo surge um Hawkeye completamente renovado. Ao contrário da insipidez que o caracterizava no primeiro filme (era de longe o mais fraco e desinteressante herói), o arqueiro interpretado por Jeremy Renner é agora uma personagem digna da nossa atenção, visto ser a única que evolui ao longo da narrativa, a única a ter uma personalidade relativamente carismática e aquela por quem realmente torcemos, tais são as novidades apresentadas em relação à sua vida pessoal (ao invés dos seus companheiros, que têm a espessura de um cabelo e a personalidade de uma cabeleira postiça).

Espaço agora para a espinha, ou neste caso, o caroço que me ficou mesmo atravessado na garganta no final desta salada de fruta. Sim, tudo o mencionado acima é extremamente irritante, mas nada chega aos calcanhares do maior mal de toda a fita: o humor da mesma. Não tenho nada contra uma pitada de comédia neste tipo de filmes, antes pelo contrário: sou fã do sarcasmo da Marvel e um comic relief calha sempre bem quando somos bombardeados com acção e jargão científico-tecnológico. Agora, o que se fez em Os Vingadores: A Era de Ultron não é comic relief, não é sarcasmo e não é, decididamente, humor. É apenas preencher lacunas nos diálogos (já em si fracos como tudo) com one liners escusadas cujo resultado é matar momentos que se queriam sérios e sombrios. Pode parecer atitude de hater gonna hate dizer que o pior de um filme é a sua quantidade excessiva de piadas, mas façam vocês a experiência, tentem ver uma aventura de super-heróis de quase duas horas e meia onde de meio em meio minuto (não cronometrei, mas a média há de andar à volta destes valores), independentemente do que se esteja a passar no ecrã seja uma cena comovente ou de pancadaria, tem de surgir uma graçola. Ao menos podiam fazê-las eficazes, mas bolas!, o quão difícil é rir com 90% delas.

Ao menos ainda dei uma gargalhada. Foi quando saí da sala e me apercebi que tinha acabado de queimar um bilhetes a €2,5 num blockbuster vazio e falhado. Só me consegui rir de mim mesmo. Mais valia ter ido rever o Capitão Falcão: contribuía para uma produção nacional que bem merece (e que, infelizmente, não está a ter o devido sucesso) e deixava Os Vingadores: A Era de Ultron para quando passasse nas tardes de sábado na SIC, o lugar perfeito para um filme intragável como este. Que venha a sequela dos Guardiões da Galáxia para esquecer rapidamente este passo em falso da Marvel.

3/10

quinta-feira, 24 de julho de 2014

A Imigrante

THE IMMIGRANT
de James Gray
com: Marion Cotillard, Joaquin Phoenix e
Jeremy Renner
Partindo de uma premissa que já foi explorada em muitos filmes, A Imigrante diferencia-se por criar momentos fortes e comoventes sem deixar de mostrar o lado mais negro do sonho americano.

Acabada de chegar da Polónia, Ewa (Marion Cotillard) tem que entrar num cabaret em Nova Iorque de modo a ganhar dinheiro para tirar a irmã de Ellis Island, onde ficou retida por ter tuberculose. Com a ajuda de Bruno (Joaquin Phoenix), Ewa vai conseguindo ganhar alguns dólares, mas a chegada do ilusionista Orlando (Jeremy Renner) à cidade vai por a descoberto os verdadeiros sentimentos das personagens.

Pode não ser a história mais original que serve de base ao novo trabalho de James Gray. O que não falta por aí são filmes que retratam a imigração nos EUA e o verdadeiro lado do sonho americano. Mas A Imigrante não se reduziu a apenas mais um filmezeco sobre esta temática, pois a carga emocional que contém vai certamente marcar o espectador mais do que seria de esperar.

As personagens criadas por Gray apresentam um nível de complexidade surpreendente. Não que possam ser recordadas como das melhores já criadas na história do cinema, longe disso. Mas tendo em conta os filmes que têm chegado do outro lado do Atlântico e os protagonistas fracos que trazem consigo há que louvar a boa construção dos anti-heróis d'A Imigrante. São pessoas normais, que não se reduzem ao estereotipo do bonzinho, da coitadinha ou do mauzão, mas que em vez disso apresentam quase uma ambiguidade dentro delas que por vezes nos enganam e que jogam com a nossa perspectiva dos acontecimentos. Por vezes estamos a torcer por uma personagem, mas num piscar de olhos já podemos estar contra ela.

São os protagonistas o verdadeiro combustível do filme de Gray. Há vários temas que o realizador quer questionar, como a religião, a moral, a ética, e é através dos diálogos e das vivências de cada protagonista que ele vai construindo uma história envolvente que reflecte sobre estes assuntos. Ewa é o espelho desta reflexão, pois, para conseguir alcançar os seus objectivos, terá que entrar numa vida que muitos condenam. Tal como o enredo do filme, não é a primeira vez que vemos algo assim, mas desta vez há uma maior afeição à personagem em causa e isso vai levar o espectador a viver mais de perto os seus problemas, devido principalmente à interpretação de Marion Cotillard aliada ao bom argumento e seriedade com que Gray aborda as experiências da imigrante polaca.

Isto vai criar momentos fortes e comoventes em A Imigrante que não deixarão ninguém indiferente. São várias as cenas que vão mexer com o público, não por serem violentas visualmente (a realização convencional de James Gray é politicamente correcta nesse sentido) mas por terem uma forte carga emocional. A já referida complexidade das personagens contribui para isso, bem como a forma inteligente com que o realizador vai construindo algumas surpresas ao longo da sua história, o que faz com que nunca o filme seja previsível e apanhando por vezes o público de surpresa. E nunca nesta longa-metragem deixamos de ver o lado obscuro do sonho americano, aquele que é escondido pelas histórias de sucesso de quem emigra para os EUA e consegue alcançar êxito.

O elenco de A Imigrante é incrível. Marion Cotillard, principalmente, está soberba no papel de Ewa e alguém que nunca tenha visto outros filmes da actriz irá pensar que se trata mesmo de uma polaca devido ao fantástico trabalho que esta teve em aprender a língua. Joaquin Phoenix, embora tenha por vezes caído em overacting, não deixou de oferecer uma performance arrepiante de uma personagem que demonstra num só filme variadíssimos sentimentos, enquanto que Jeremy Renner continua a provar que é melhor actor que os blockbusters onde entrou ultimamente querem deixar parecer. A juntar-se a isto, há ainda uma boa fotografia, que salienta os castanhos amarelados, e um guarda-roupa muito interessantes que nos levam até aos anos 20 do século XX.

Mas o filme tem alguns problemas. A história é um pouco lenta e a verdade é que não avança muito desde o momento em que começa, tornando-se um pouco repetitiva a certo ponto. Algumas cenas parecem até desnecessárias pois não trazem nada de novo. Depois falta um pouco mais de violência ou pelo menos uma maior realidade no que toca aos cenários para dar mais plausibilidade a A Imigrante. Gray mostra uma Nova Iorque "limpinha" (o que contradiz com a realidade dos anos 20) onde Ewa conseguiu ir facilmente desde Manhattan até Brooklyn sem correr muito perigo e onde chegam imigrantes que, passadas muitos horas enfiados num barco depois de terem escapado à guerra, nem parecem muito sujos ou feridos.

Não obstante, A Imigrante é um título bastante curioso. O grande elenco, a afeição que ganhamos às personagens e a reflexão que James Gray possibilita sobre vários temas acaba por esconder certas incoerências que encontramos na história. Pode não ser o mais original nem o mais espectacular dos filmes que abordam o outro lado do sonho americano, mas merecer claramente uma vista de olhos.

8/10

sábado, 25 de janeiro de 2014

Golpada Americana

Demasiado longo e com muito exibicionismo por parte de O. Russell, Golpada Americana acaba por ser um desilusão

File:American Hustle 2013 poster.jpg
AMERICAN HUSTLE
de David O. Russell
com: Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper,
Jeremy Renner, Louis C.K. e Jennifer Lawrence
Irving Rosenfeld (Christian Bale) e Sydney Prosser (Amy Adams) são um casal de vigaristas que aceitam ajudar o agente do FBI Richie DiMaso (Bradley Cooper) a desmascarar uma rede de corrupção que envolve alguns dos mais poderosos senadores e congressistas da América, nomeadamente Carmine Polito (Jeremy Renner), o mayor de Camden.

Golpada Americana tem um início muito aborrecido. Depois de uma cena inicial bastante engraçada, o filme entra num flashback excessivamente longo, onde os acontecimentos que levaram Irving, Sydney e Richie à sala onde se encontra Polito são narrados. O. Russell precisou de muito tempo para colocar as cartas na mesa e apresentar as personagens (algumas delas que acabam por não ter muita relevância no resto do filme), isto porque a sua tentativa de dar um toque de Tudo Bons Rapazes ao seu filme saiu completamente ao lado (e as tentativas de 'scorsesiar' Golpada Americana não param aí).

A voz de Irving Rosenfeld em voice-over faz uma descrição dele antes e depois de conhecer a sexy e provocadora Sydney Prosser. O. Russell e o seu argumentista Eric Singer tentam começar a suscitar alguma simpatia pelas personagens através da história de amor do tipo A Bela e o Monstro, mas, inexplicavelmente, nunca me consegui afeiçoar às personagens. Ambas contam com enormes performances por parte de Christian Bale e Amy Adams e têm a seu dispor uma caracterização cool e ridícula (num bom sentido), no caso de Irving, e sensual e muito atractiva, no caso de Sydney. Mas os clichés e falta de originalidade nas suas construções deixam muito a desejar, para não mencionar que Bale e Adams (estranhamente) não parecem ter muita química entre eles.

Entretanto, e depois de todas as personagens e enredo estarem mais que apresentadas, já passaram quase três quartos de hora de filme. E ainda não houve muito para além de material para se fazer uma sinopse de Golpada Americana. Se se tivesse apenas mostrado o início da relação de Irving/Sidney e o surgimento do agente Richie podíamos seguir em frente para o resto do filme sem termos sido massacrados com demasiados pormenores sem grande importância.

O filme melhora rapidamente no momento em que voltamos a encontrar as quatro personagens numa sala cheia de escutas, prontas a incriminar Polito. É a partir deste momento que a comédia começa a aparecer finalmente, depois de ter andado tanto tempo escondida. Embora não sejam propriamente inovadoras ou inteligentes, as cenas cómicas de David O. Russell acabam por compensar a espera, especialmente aquelas onde entram Bradley Cooper e Louis C.K. (a surpresa maior no elenco), ou não fossem eles já dados naturalmente à comédia.

A realização de David O. Russell segue muitos dos traços de Martin Scorsese. Mas o problema é que este não é um filme que peça muito as técnicas do veterano mestre. O. Russell anda sempre com movimentos rápidos de câmara, steady-cams (que, novamente, tentaram recriar Tudo Bons Rapazes) e outros pormenores característicos de Scorsese. Não há dúvidas que O. Russell é, de facto, um excelente realizador e um dia fará um filme talvez tão grande como os de Scorsese. Mas, sendo Golpada Americana uma suposta comédia, O. Russell deveria estar mais preocupado com as piadas e as situações cómicas do filme em vez de mostrar que tem grandes aptidões atrás das câmaras. Tenho que dizer que houve um certo show-off por parte do realizador.

O. Russell cria igualmente um autêntico festival dos anos 70. Quer com as roupas e penteados das personagens quer com a banda-sonora, o realizador começa a dar mais atenção à recriação dos seus tempos de adolescência do que à história do filme, isto porque por vezes há um maior desejo de dar um '70s style' a Golpada Americana (a entrada de personagens pelo fumo de um holofote estragado ao som de Goodbye Yellow Brick Road de Elton John, por exemplo) do que a desenvolver a história. O. Russell devia ver com mais atenção os filmes de Tarantino ou Thomas Anderson, dois realizadores que conseguem sempre dar estilo aos seus filme e, em simultâneo, contar uma história de forma sublime.

E, num filme destes, é certo que vai haver um plot-twist. A dúvida é: qual será? Quando nos começamos a aproximar do fim do filme, ainda não se pode adivinhar muito bem qual será essa tal cambalhota no enredo, embora já se comece a suspeitar. Mas quando finalmente aconteceu o plot-twist, fiquei desiludido. É certo que não se estaria à espera duma mudança tão radical na história, mas a forma como ela nos é mostrada é bastante fraca, muito rápida, não dando tempo ao filme para este atingir um clímax. Infelizmente...

No que toca às performances dos actores, não há nada a dizer senão que foram todas perfeitas. Os estrondodos e já referidos Christian Bale (um verdadeiro camaleão que ganhou muitos quilinhos para interpretar Irving) e Amy Adams contracenaram com os excelentes Bradley Cooper e Jeremy Renner, ambos com interpretações muito acima das suas médias pessoais. Há ainda a predilecta de O. Russell, Jennifer Lawrence, que interpreta a extrovertida e convencida Rosalyn de maneira talvez demasiado energética mas que até acaba por dar mais piada à sua persongem.

O argumento escrito por Eric Singer e David O. Russell é bom, mas com algumas falhas e por vezes desinteressante. Aquando das descrições dos golpes que se preparam o argumento começa a ficar muito específico, muito pormenorizado e confuso, e foram várias as vezes em que me perdi no raciocínio das personagens. Singer e O. Russell começam também a exagerar na mudança de papéis entre as personagens, que numa só cena podem passar de manipuladores a manipulados, e cada vez que isto acontece Golpada Americana fica apenas mais cansativo e repetitivo. Há, para compensar, momentos de divinal comédia negra, como se pode ver na cena em que Irving e Richie descobrem que o seu xeque árabe é, na verdade, um emigrante vindo do México (isso, sim, teve muita piada).

David O. Russell quer levar a sua comédia demasiado longe e é isso que acaba por não o deixar ir além de um filme mediano. Demasiado preocupado com a apresentação das personagens e com o estilo à anos 70, o realizador faz de Golpada Americana um filme demasiado longo, graças à sua primeira parte muito maçadora, compensado pela comédia bem presente em algumas cenas e pelo seu potente elenco.

6/10