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domingo, 17 de maio de 2015

Os Vingadores: A Era de Ultron

AVENGERS: AGE OF ULTRON
de Joss Whedon
com: Robert Downey Jr., Chris Hemsworth, Mark Ruffalo,
Chris Evans, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Elizabeth
Olsen, Aaron Taylor-Johnson e Samuel L. Jackson
O banquete de super-heróis que a Marvel apresentou em 2012 (sem antes não dar a quase todos os seus pratos principais um filme a solo) volta a ser servido depois de uma campanha de marketing ao nível de aperitivos de hotéis de 5 estrelas que, como é óbvio, abriu e de que maneira o apetite para a nova aventura d'Os Vingadores no grande ecrã. E perguntam vocês caríssimos leitores: Sebastião, valeu então a pena teres aproveitado os descontos da Festa do Cinema para ires ver o filme? Ao que eu vos respondo com toda a convicção: não!

Os Vingadores: A Era de Ultron é intragável, uma saladinha de frutas com utilização excessiva de açúcar para esconder a sua falta de sabor. Por saladinha de fruta entenda-se um conjunto de super-heróis visualmente muito coloridos mas que quando chega a altura de se desenvolverem como personagens se tornam bonecos de cera unicolor. E por açúcar entenda-se efeitos especiais e avalanches de humor (ineficaz). E por sabor entenda-se diversão e entretimento.

E por intragável... bem, entenda-se isso mesmo, porque é o melhor adjectivo a utilizar nesta sequela que, mesmo dentro do género dos blockbusters, é uma tamanha desilusão e uma experiência cinematográfica inócua. Não há um pingo de originalidade (para onde quer que olhemos, há sempre a sensação de que já vimos isto nalgum lado, tal como tinha acontecido no primeiro capítulo quando, na batalha final, de repente nos lembrámos dos Transformers), uma qualquer vontade de trazer algo de novo ao universo dos Vingadores e, olhando para as duas mais recentes produções da Marvel, ambas surpreendentes e mais que conseguidas (Capitão América: O Soldado do Inverno e Guardiões da Galáxia), é triste ver que os estúdios deram um enorme passo atrás. Juntem a isto ainda os cenários de uma pobreza extrema, cenas de acção que não satisfazem e problemas enormes de ritmo e sentido narrativo, e o caldo está entornado pelo chão.

É-nos apresentado um novo vilão, Ultron, uma forma de inteligência artificial que é criada para ajudar a manter a paz até que, surpresa das surpresas, descobre que os humanos são maus e por isso decide combater os Vingadores. Terá a ajuda dos gémeos mutantes Scarlet Witch e Quicksilver, duas interessantes personagens que ainda proporcionam alguns dos poucos momentos de verdadeiro relevo, embora acabem por ser vítimas do argumento demasiado preocupado em fazer do filme uma sit-com (já volta a este ponto). Ora bem, Ultron aparece pela primeira vez numa cena excelente: vê-mo-lo nascer do nada, sem corpo, apenas com uma voz electrónica e percorrendo rios de informação. Depois desta introdução visualmente inteligente, o antagonista vai-se tornando básico e mais básico, chato até mais não e, entretanto, fácil de derrotar (numa luta final igual à d'Os Vingadores de 2012, desta vez com direito a umas quantas cheesy lines).

Porque é que ainda demora algum tempo até ao mau da fita perder esta batalha. Porque os protagonistas super-heróicos vão passar metade do filme às turras uns com os outros, em lutas de testosterona e birras de criancinhas da cresce. Com isto não há uma única personagem com quem cheguemos a criar qualquer tipo de empatia: Tony Stark continua um teimoso convencido (o ar arrogante de Robert Downey Jr. também não ajuda); Thor continua um deus chato como tudo (como raio é que ainda vai ter um terceiro filme a solo!?) e é ainda figura principal numa das cenas mais confusas do filme; Capitão América volta a ser um adereço oco que continua com a história do "andei adormecido mais de meio século..."; já Hulk e Viúva Negra protagonizam um romance que ninguém previa mas que acaba por tomar caminhos absolutamente cliché.

No meio disto tudo surge um Hawkeye completamente renovado. Ao contrário da insipidez que o caracterizava no primeiro filme (era de longe o mais fraco e desinteressante herói), o arqueiro interpretado por Jeremy Renner é agora uma personagem digna da nossa atenção, visto ser a única que evolui ao longo da narrativa, a única a ter uma personalidade relativamente carismática e aquela por quem realmente torcemos, tais são as novidades apresentadas em relação à sua vida pessoal (ao invés dos seus companheiros, que têm a espessura de um cabelo e a personalidade de uma cabeleira postiça).

Espaço agora para a espinha, ou neste caso, o caroço que me ficou mesmo atravessado na garganta no final desta salada de fruta. Sim, tudo o mencionado acima é extremamente irritante, mas nada chega aos calcanhares do maior mal de toda a fita: o humor da mesma. Não tenho nada contra uma pitada de comédia neste tipo de filmes, antes pelo contrário: sou fã do sarcasmo da Marvel e um comic relief calha sempre bem quando somos bombardeados com acção e jargão científico-tecnológico. Agora, o que se fez em Os Vingadores: A Era de Ultron não é comic relief, não é sarcasmo e não é, decididamente, humor. É apenas preencher lacunas nos diálogos (já em si fracos como tudo) com one liners escusadas cujo resultado é matar momentos que se queriam sérios e sombrios. Pode parecer atitude de hater gonna hate dizer que o pior de um filme é a sua quantidade excessiva de piadas, mas façam vocês a experiência, tentem ver uma aventura de super-heróis de quase duas horas e meia onde de meio em meio minuto (não cronometrei, mas a média há de andar à volta destes valores), independentemente do que se esteja a passar no ecrã seja uma cena comovente ou de pancadaria, tem de surgir uma graçola. Ao menos podiam fazê-las eficazes, mas bolas!, o quão difícil é rir com 90% delas.

Ao menos ainda dei uma gargalhada. Foi quando saí da sala e me apercebi que tinha acabado de queimar um bilhetes a €2,5 num blockbuster vazio e falhado. Só me consegui rir de mim mesmo. Mais valia ter ido rever o Capitão Falcão: contribuía para uma produção nacional que bem merece (e que, infelizmente, não está a ter o devido sucesso) e deixava Os Vingadores: A Era de Ultron para quando passasse nas tardes de sábado na SIC, o lugar perfeito para um filme intragável como este. Que venha a sequela dos Guardiões da Galáxia para esquecer rapidamente este passo em falso da Marvel.

3/10

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Autómata

AUTOMATA
de Gabe Ibáñez
com:Antonio Banderas, Birgitte Hjort Sørensen,
Dylan McDermott, Melanie Griffith, Robert Forster
O primeiro filme de ficção científica do ano chega hoje às salas portuguesas. Autómata tem como base uma história com condições para tornar-se numa obra interessante mas o vazio do seu conteúdo torna-a numa experiência pobre e desaconselhável.

Ao contrário de alguns dos incontáveis filmes que se focam no assunto da dependência dos humanos na tecnologia e de todos os outros debates que desta assunto advêm, Autómata não quer (ou, pelo menos, não parece ser essa a sua intenção) entrar numa discussão do tema, pondo de parte muitas “armas” que algumas obras utilizam para construir um olhar sobre a relação Homem/robôs. Não se colocam questões políticas nem se tece uma crítica à sociedade contemporânea, estando o argumento muito mais apontado às vivências das personagens do que propriamente no ambiente que as envolve.

Mesmo assim o filme não consegue sair da sua mediocridade. O seu tom monótono e um enorme conjunto de personagens inúteis, desinteressantes e mal construídas faz com que a narrativa da fita seja muito pouco cativante. Isto para não falar na fraqueza do argumento e em algumas más performances por parte do elenco, que só ajudam a desaproveitar um enredo à partida com potencial, não pela sua originalidade (algo muito difícil de encontrar aqui) mas pelo entretenimento que poderia proporcionar.

Leiam a crítica completa no Espalha-Factos

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Interstellar

INTERSTELLAR
de Christopher Nolan
com: Matthew McConaughey, Anne Hathaway,
Jessica Chastain, Mackenzie Foy e Michael Caine
Foi com pompa e circunstância que estreou esta semana nas nossas salas Interstellar, o mais recente e ambicioso filme de Christopher Nolan.

Num futuro não muito distante, a Terra é um planeta devastado. Vários cientistas tentam então descobrir mundos paralelos onde a população do nosso planeta possa começar de novo. Uma equipa de exploradores espaciais é assim encarregue de uma missão com o objetivo de encontrar um novo sítio onde as pessoas tenham condições para habitar.

O hype em torno de Interstellar fizeram com que as expectativas estivessem altas. E quando se espera muito de uma longa-metragem, algo que acontece frequentemente com os trabalhos de Christopher Nolan, o público tende a ficar desiludido. Mas o que este novo filme acaba por conseguir fazer é superá-las, indo mais longe do que os típicos blockbusters oferecendo algumas das melhores cenas do ano e imagens absolutamente fabulosas do espaço e de outras galáxias e planetas.

Para isto contribuem não só os fabulosos efeitos especiais mas também o realismo fanático de Nolan. Enquanto que de um lado temos cenários construídos por computador que roçam o perfeito, temos depois as impressionantes cenas filmadas nos glaciares da Islândia ou as simples mas belas paisagens dos campos trigo. E nada melhor do que a excelente fotografia de Hoyte van Hoytema e a magnífica banda sonora de Hans Zimmer de fundo para nos fazer desfrutá-las ainda mais.

Mas não é só a nível visual que Interstellar impressiona. A sua carga dramática é extremamente eficaz, algo que raramente acontece em filmes de ficção científica ou nos blockbusters em geral. A relação que Cooper tem com a sua filha Murph é sem dúvida a mais tocante de toda a película, graças aos excelentes desempenhos de Matthew McConaughey e Jessica Chastain/Mackenzie Foy (que interpretaram as versões adulta e criança de Murph, respectivamente) e ao comovente argumento. E também há lugar a comic reliefs, na sua maioria protagonizados pelos robôs TARS e CASE, que são mesmo muito engraçados e sarcásticos.

Ironicamente, é também no argumento que se encontram as grandes falhas de Interstellar. Os irmãos Nolan conseguiram criar momentos muito emotivos, sim senhor, mas infelizmente também incluíram algumas falas totalmente dispensáveis. Alguns diálogos parecem ter sido escritos pura e simplesmente para dar "estilo" ao filme ou para as pessoas irem postar nas redes sociais, como a cliché, cheesy e desnecessária afirmação da personagem de Anne Hathaway: "O amor é a única coisa que transcende o tempo e o espaço". Soa um bocadinho a Nicholas Sparks...

E por falar em diálogos pobres, também não se podem deixar de referir algumas personagens mal desenvolvidas, como as versões adultas de Murph e do seu irmão mais velho Tom, ou simplesmente desprovidas de qualquer interesse, como o inútil Doyle que embarca na missão espacial só porque sim. Mesmo o Professor Brand, um dos protagonistas mais importantes para a narrativa, é uma das personagens mais fracas e quando é revelada a sua verdadeira personalidade através de um plot twist algo forçado fica mesmo a sensação de que foi criada só para Michael Caine poder figurar em mais um filme de Nolan.

Fique claro, no entanto, de que nada disto retira o interesse a um enredo empolgante, recheado de mistério, intriga e acontecimentos que impossibilitam prever como vai terminar o filme e que durante as suas quase três horas de duração (que se vêem muito bem sem nunca parecerem demasiado longas) nos prendem ao ecrã. E a forma como todas as peças deste complexo puzzle encaixam na perfeição no seu twist final é de nos deixar de boca aberta.

Outros aspectos que se podem destacar é o facto do filme não cair nunca em pretensiosismos ou de possuir aquele ambiente dark já insuportável que virou moda nos blockbusters desde O Cavaleiro das Trevas de... Nolan. E para além de ser uma obra de entretenimento apelativa aos olhos e dotada de uma narrativa impressionaste e cativante, Interstellar consegue também levar o espectador a discutir ou, pelo menos, a perceber melhor algumas teorias científicas, desde as mais conhecidas às mais rebuscadas, enquanto representa visual e assustadoramente a imensidão do espaço, fazendo qualquer um sentir-se minúsculo.

Há também uma certa homenagem de Nolan a 2001: Odisseia no Espaço. Os planos das naves espaciais a orbitarem os gigantes planetas, principalmente, fazem lembrar bastante algumas das cenas mais memoráveis da obra prima de Stanley Kubrick e alguns deles são tão bons ou até melhores (embora seja difícil comparar os filmes de ficção científica da década de 60 com os do século XXI) que os da obra de 1968. E tendo em conta a exactidão do argumento em termos científicos e os vários tópicos que discute, pode-se dizer que Interstellar é nesse aspecto um dos mais inteligentes e provocadores descendente de 2001.

Pelo final do filme, ninguém poderá ficar imune ao poder do mais ambicioso trabalho de Christopher Nolan. Interstellar vai pôr qualquer um a questionar-se sobre mundos paralelos e outras teorias científicas através de uma história muito bem estruturada e imagens magníficas que voltam a afirmar a ficção científica como um dos géneros mais importantes da sétima arte.

9/10

domingo, 27 de julho de 2014

Snowpiercer: O Expresso do Amanhã

SNOWPIERCER
de Bong Joo-ho
com: Chris Evans, Kang-ho Song, Ed Harris, John Hurt,
Tilda Swinton, Jamie Bell e Octavia Spencer
Ora aqui está um filme bipolar. Snowpiercer: Expresso do Amanhã tem a duração de duas horas, que se dividem entre o mais aborrecido que temos nos blockbusters actuais e o melhor que se pode desejar numa boa metáfora da nossa sociedade.

Para solucionar o problema do aquecimento global, vários países decidem lançar uma substância para as camadas superiores da atmosfera. Mas tudo corre mal e o planeta Terra acaba por ficar congelado e sem condições para a vida humana. Os poucos sobreviventes, para resistirem ao frio, mudam-se para um comboio gigante que anda à volta do mundo sem parar. 17 anos depois, em 2031, Curtis (Chris Evans) e os seus companheiros, vivendo em condições precárias, preparam uma revolução de modo a tirar o poderoso Wilford do controla do comboio.

Este novo trabalho do realizador coreano Bong Joon-ho é a adaptação de uma banda desenhada francesa, de nome Le Transperceneige dos anos 80. É a primeira vez que o cineasta filmou em inglês e que explorou o género de acção e ficção científica e embora tenha sucumbido um pouco ao blockbuster típico, com muitos e idiotas plot holes, deixou uma marca pessoal no filme, com uma violência e um factor surpresa a que não estamos habituados a ver nos filmes de acção dos últimos anos. Para além disso, Joon-ho conseguiu fazer uma boa metáfora da humanidade através do seu comboio.

À primeira vista, Snowpiercer parece ser um filme que alerta para os perigos do aquecimento global, fazendo uma previsão apocalíptica daquilo que vai acontecer se nada fizermos para combatê-lo. Mas é mais do que isso. É claro que há uma pequena crítica à desatenção que existe atualmente, mas apenas durante breves instantes, na cena inicial, naquele que começa a ser já um cliché irritante nos filmes de acção e ficção científica: enquanto vemos os créditos iniciais a passar, temos que ouvir pequenos trechos de reportagens que vão demonstrando o decorrer da situação do planeta.

A verdade é que o comboio Snowpiercer funciona como uma alegoria à sociedade actual. Ainda que não seja uma metáfora muito elaborada (não há uma simbologia escondida em cada plano e não é preciso raciocinar muito para perceber o que cada secção do comboio representa), são mostradas as discrepâncias que vivemos no nosso mundo de uma forma interessante, enquanto se salientam também vários assuntos controversos da nossa história. À medida que Curtis e os seus companheiros vão passando pelas várias carruagens com o objectivo de chegar à parte principal do Snowpiercer, são mostradas imagens incríveis e momentos muito curiosos. 

Salta logo à vista a diferença de cores entre cada cenário. Começamos o filme num ambiente escuro, sujo e claustrofóbico. Depois vamos saltando para tons mais claros, de seguida somos bombardeados por paletas de cores impressionantes e assim sucessivamente. Paralelamente ao aumento da espectacularidade de cada carruagem, as personagens que conhecendo à medida que vamos percorrendo o comboio demonstram as várias camadas da sociedade. Temos na cauda do Snowpiercer os mais pobres, os que sabem das atrocidades que acontecem todos os dias mas que pouco ou nada podem fazer. Encontramos logo a seguir partes com plantas e animais aquáticos, que alertam para os cuidados a ter para manter os ecossistemas em funcionamento. Na carruagem onde nos deparamos com um jardim-escola, é exposta a lavagem cerebral a que certas comunidades são submetidas.

É pena que todos estes bons momentos tenham chegado apenas na segunda hora do filme. Nada de interessante se passa nos primeiros 60 minutos de Snowpiercer, onde o filme anda a arrastar a história até se tornar aborrecido. O argumento durante este período da fita é paupérrimo: nada de memorável é dito pelas personagens e os diálogos não exploram nem mostram muito do interior de cada protagonista (e tendo em conta que visualmente não ganhamos afeição por nenhum, até dava jeito gostar-se do que eles dizem). As cenas de luta não são nada de especial, talvez também por culpa da fotografia escura que às vezes nem deixa perceber quem está a lutar com quem, o que é grave, pois estamos a ver um filme que quer entrar na categoria de Acção. No fundo pode dizer-se que a essência do filme reside nos segundos 60 minutos, já que nos primeiros, nada de jeito acontece.

Os efeitos especiais são muito amadores, comparáveis a um jogo de PlayStation. Quando são mostrados planos do mundo exterior, que deveriam fazer estremecer o público com uma visão apocalíptica do nosso planeta, não ficamos senão indiferentes, tal o nível de mediocridade do CGI. O que acaba por compensar é o elenco, liderado por um surpreendente Chris Evans, que se descolou das personagens que o tornaram famosos (Tocha Humana e Capitão América) e ofereceu uma excelente performance. Kang-ho Song foi igualmente um dos melhores elementos do elenco e os momentos em que contracenou com Chris Evans foram espantosos. Todos os outros actores estiveram impecáveis, destacando-se John Hurt e Tilda Swinton.

É difícil dizer se Snowpiercer: O Expresso do Amanhã é bom ou mau, porque consegue ser os dois. O melhor mesmo é começar a ver o filme a partir da segunda hora, onde Joon-ho Bong critica a humanidade através de uma excelente metáfora, porque na primeira vemos apenas o que já se vê noutros blockbusters: argumento pobre, cenas de acção fracas e uma narrativa que não vai a lado nenhum, tornando-se entediante.

5/10

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Planeta dos Macacos: A Revolta

DAWN OF THE
PLANET OF THE APES

de Matt Reeves
com: Andy Serkis, Jason Clarke, Keri Russell,
Gary Oldman, Toby Kebbell
Talvez seja porque chegou com boas críticas a Portugal ou simplesmente porque é a sequela de um dos reboots mais inteligentes de sempre. A verdade é que Planeta dos Macacos: A Revolta é uma enorme desilusão.

Houve várias mudanças em relação ao filme de 2011. Primeiro, o elenco foi quase totalmente renovado, com James Franco a dar lugar a Jason Clarke como personagem principal humana e a entrada de novos atores a dar vida a novas personagens, onde se destaca Gary Oldman na pele de Dreyfus. Matt Reeves sentou-se agora na cadeira de realizador, anteriormente ocupada por Rupert Wyatt, e entrou um novo elemento para a equipa de argumentistas. Todas estas alterações fizeram-se sentir na qualidade de Planeta dos Macacos: A Revolta.

Tudo o que de bom se fez no filme anterior foi deitado por terra. A equipa que criou Planeta dos Macacos: A Origem não fez só um reboot mas sim algo de novo, com momentos emocionantes e até um convite a debater assuntos como a experimentação laboratorial em animais. Mas agora temos apenas uma sequela, um filme que se aproveitou do sucesso do anterior para escalar na box office mas que nada ofereceu de novo. Durante mais de duas horas a sensação é de que não se passa nada e que este filme serviu apenas para construir a história de um terceiro capítulo no franchise.

3/10

Ler crítica completa no site Espalha Factos

sábado, 5 de julho de 2014

Os meus milímetros favoritos: 2001: Odisseia no Espaço (1968)

Dave, stop. Stop, will you? Stop, Dave. Will you stop Dave? Stop, Dave - HAL 9000

2001: A SPACE ODYSSEY
de Stanley Kubrick
com: Keir Dullea, Gary Lockwood, William Sylvester
e Douglas Rain (voz de HAL 9000)
Quando em 1968 Stanley Kubrick lançou para as salas o seu mais ambicioso trabalho, não houve consenso. O público, sedento de uma história muito mais mexida (ou não fosse a década de 60 a mais estática das épocas), saia desiludido dos cinemas e os críticos, ou por estarem confusos ou por simplesmente sofrerem da mesma sede de movimento da restante audiência, foram atacando o filme. Uns meses depois, 2001: Odisseia no Espaço era nomeado para quatro Oscars (ganhou um), mais uns quantos prémios aqui e ali, e agora, quase 50 anos depois, é visto como um dos maiores filmes de sempre.

E poderia ser visto de outra forma? 2001 é daqueles clássicos que é odiado aquando do seu lançamento por estar à frente do seu tempo, por não cumprir os paradigmas do cinema da sua época ou por outras razões que não se explicam. Aconteceu a Hitchcock, a Carpenter, aos realizadores da Nouvelle Vague e... a Kubrick. Não é um filme que conte uma história. As personagens são dispensáveis e servem como adornos. 2001: Odisseia no Espaço é uma análise à evolução humana, à tecnologia e até à vida extraterrestre.

É um retrato assustador do ser humano a partir dos olhos de uma das personalidades mais críticas, controversas e geniais do cinema: Stanley Kubrick. É através de metáforas, de efeitos especiais fascinantes (que passado quase meio século continuam a impressionar) e com um dedo apontado a todos nós que o realizador vai quase que adivinhando o destino da humanidade. Sim senhor, já passámos 2001 há uns anitos e ainda não fomos a Júpiter, não temos naves espaciais très chic e, tanto quanto se saiba, ainda ninguém descobriu um monólito na Lua. Mas a rapidez estonteante com que a tecnologia vai progredindo vai-nos aproximando dessa realidade e já andamos dependentes de aparelhos electrónicos como se fossemos David e Frank na Discovery One escravos do computador HAL 9000

Mesmo sem olhar para 2001: Odisseia no Espaço duma perspectiva actual não restam dúvidas que estamos perante um grande filme. Kubrick redefiniu a ficção científica no cinema, basta ver a diferença das obras deste estilo antes e depois de 2001. É um filme que está dividido em três segmentos: The Dawn of Man, Jupiter Mission e Jupiter and Beyond. A primeira é um espectacular sequência onde vemos duas tribos de macacos a lutarem por um lago de água. Uma das tribos expulsa a outra para longe e esta vê-se obrigada a esconder-se. Isto até encontrar um monólito. O macaco líder descobre, depois de tocar no rectângulo negro, como utilizar um simples osso como um ferramenta/arma e reivindica o lago de água, com sucesso. Feliz pela vitória, o macaco atira o osso ao ar e este transforma-se numa nave espacial, através de um incrível raccord.

É este raccord o primeiro grande exemplo da magnífica realização de Kubrick. Ao entrarmos no novo capítulo do filme, deparamo-nos com cenários incríveis e efeitos especiais que nos deixam a perguntar 'como é que eles fizeram isto?'. Exemplo disso são as cenas dentro da nave espacial em que o Dr. Heywood R. Floyd viaja até à Lua, onde são filmadas canetas voadoras e empregadas a andarem de pernas para o ar. É de relembrar que o filme é do final dos anos 60, CGI ainda não existia e o blue screen era do mais básico que se possa imaginar. Todos os efeitos especiais de 2001: Odisseia no Espaço são feitos com truques de câmara ou técnicas que, embora simples, transformam cada cena em algo fascinante. E este fascínio atinge o seu clímax no início de Jupiter and Beyond, na icónica cena em que David decide explorar sozinho o planeta Júpiter e acaba sugado para um "túnel" de luz. É a melhor cena do filme (é difícil escolher uma só como sendo 'a melhor', mas no que toca a espectacularidade, esta sai vencedora), um verdadeiro espectáculo de luz e cor, que mostra em pequenos cortes a cara de um David em pânico, tornando todos os 10 minutos da cena assustadores e belos ao mesmo tempo. Depois desta viagem pelo "túnel", é feita a conclusão do filme, em mais um segmento incrível.

Outro dos melhores aspectos de 2001: Odisseia no Espaço é a ausência de diálogos. Há alguns, é verdade, mas o filme vive muito mais à base dos silêncio do espaço, onde ouvimos apenas o respirar dos astronautas ou uns apitos aqui e acolá das naves. Há igualmente a excelente banda sonora, que torna 2001 quase como um ópera, através de temas clássicos de Strauss ou dos mais contemporâneos de György Ligeti. É, no entanto, impossível destacar interpretações. Como dito anteriormente, as personagens não são o mais importante do filme, são adornos que servem para Kubrick demonstrar através delas a sua crítica e visão do ser humano. Talvez quem se salienta mais no elenco Douglas Rain, actor que dá a voz ao computador HAL 9000, uma personagem fria, que parece indiferente a tudo o que se passa à sua volta. É claro que se pode destacar em todos os outros actores essa mesma frieza, especialmente em Keir Dullea e Gary Lockwood, mas não é isso que torna as performances em algo extraordinário. Apenas as torna... eficazes.

2001: Odisseia no Espaço coloca muitas questões mas não responde à maioria. Está repleto de metáforas, de simbologia e críticas, e dificilmente se chegará a compreender totalmente esta obra maior de Stanley Kubrick e do cinema. Eu sou o primeiro a admitir: ainda não percebi metade do filme, e o que percebi foi com alguma dificuldade ou com o auxílio a um ou outro vídeo que encontrei por aqui na net (um das melhores e mais rebuscadas explicações pode ser vista aqui). Mas isto não acontece pelo filme ser non-sense ou simplesmente estúpido. 2001 é uma das obras mais inteligentes realizadas até hoje, que necessita de ser analisada segundo a segundo para ser totalmente compreendida. Isso só mostra o empenho que Kubrick pôs neste seu enigma cinematográfico e dá-nos ainda mais vontade de revê-lo mais umas quantas vezes.

Conselho do Editor: se possível vejam o filme numa versão em HD. Façam download das versões em 1080p ou BlueRay, daquelas que têm mais de 2GB, e liguem o computador à televisão ou tentem encontrar aquelas reposições nos cinemas e comprem o bilhete.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Uma História de Amor

Ficção Científica + História Romântica = Melhor Filme do Ano


File:Her2013Poster.jpg
HER
de Spike Jonze
com: Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Amy
Adams e Rooney Mara
Nota: nesta crítica é descrito o final do filme (não porque quero ser desmancha prazeres, mas porque é a melhor cena para frisar uma ideia). Caso ainda não o tenha visto, salte o 5.º parágrafo ou pelo menos as suas últimas frases.

Já se sabe que Spike Jonze é um dos realizadores mais imaginativos dos últimos anos. Se se percorrer a sua curta carreira vemos que ele seguiu sempre uma linha de originalidade combinada com uma delicada qualidade. O seu mais recente filme Uma História de Amor (uma tradução absurda a partir do título original: Her) é recebido, portanto, com enormes expectativas. E Jonze ainda consegue superá-las.

Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) leva uma vida solitária e monótona. Escreve cartas de amor para outros casais por encomenda, está prestes a finalizar o seu divórcio e tem apensa dois amigos próximos, um casal vizinho dele. A sua vida dá uma volta de 180º quando adquire o mais recente sistema operativo (OS). Theodore acaba por estabelecer uma relação peculiar com o OS que se auto-apelida de Samantha (cuja voz é a de Scarlett Johansson) e vê nela mais que um simples computador.

Se no mundo do cinema actual é normal a péssima qualidade dos filmes românticos, Uma História de Amor foge à regra. Nunca entrando em clichés ou diálogos de 'gosto muito de ti', 'eu também', etc., Spike Jonze escreveu a melhor história romântica desde Antes de Amanhecer (e isso já foi há quase 20 anos...). Como não podia deixar de ser, o filme conta com vários diálogos românticos entre Samantha e Theodore, que já por si são bem melhores e mais comoventes que qualquer outro filme cor-de-rosa de Hollywood (o argumento de Jonze chega ao ponto de ser poético a dado momento). A parte realmente interessante do argumento de Uma História de Amor vem com os diálogos espontâneos que o casal tem um com o outro, bem como todos os outros que Theodore acaba por ter com variadíssimas personagens sobre morte, sumo de frutas, compromissos e tantas outros assuntos soltos mas não menos curiosos.

Mesmo com tanta seriedade e profundidade no tema que aborda (o filme deixa até algumas perguntas filosóficas sobre identidade e amor), Jonze não deixa de continuar ingénuo e sarcástico. São vários os momentos de comédia típica, com um humor muito eficaz quer a nível de diálogos quer a níveis visuais, e há ainda muitas cenas que não se podem ver sem sorrir, tal é a alegria e a já referida ingenuidade que o realizador lhes dá.

A realização que Jonze oferece é também ela algo de espectacular. A forma como este realiza Uma História de Amor é tão delicada e original quanto o seu argumento, isto porque ele consegue sempre transmitir algo mais que o esperado com um simples movimento de câmara. Jonze ora utiliza travellings lentos e suaves durante as cenas a só de Theodore ora entra em mexidos e apressados planos subjectivos da nossa personagem principal, que vai tendo vários flashbacks nostálgicos da sua família ou dos seus recentes relacionamentos, muitas vezes mostrados através dos seus olhos. Embora perca um pouco o ritmo numa ou noutra cena, a história que Jonze nos conta chega-nos levemente e nunca conseguimos perder o interesse por ela.

Spike Jonze, para além de criar uma inovadora história de amor, conseguiu ainda fazer um belíssimo pano de fundo, situado num futuro não tão distante. Os cenários são absolutamente atraentes, onde a forma como se dispôs cada peça de cada divisão parece ter sido meticulosamente planeada, e o jogo de cores e luzes que Jonze nos oferece, aliado a uma grande cinematografia de Hoyte Van Hoytema, também não passa despercebido. Para além disso há ainda vários 'brinquedos' futurísticos (jogos de vídeo em 4D, computadores que escrevem o que ditamos, etc.) que, embora muito ficção científica, bem podiam ser criados já em 2014 (lá está a ideia do 'futuro não tão distante').

E são esses 'brinquedos' e o modo como as personagens interagem com elas que faz parte de uma certa sátira de Spike Jonze. A naturalidade com que a maioria das pessoas aceitam a relação que Theodore estabelece com um sistema operativo é um sinal que a dependência do ser humano em relação às máquinas é já uma nova forma de vida, algo do quotidiano. E o assustador de tudo isso é que já não faltará muito para isso acontecer, pois já são muitas as vezes em que nos distrai-mos com telemóveis e iCoisas enquanto há muita beleza à nossa volta. Exemplo disso é a última cena (SPOILER! SPOILER!) onde, após os seus sistemas operativos decidirem partir à procura da sua própria identidade (isto depois de terem moldado a dos seus donos), Theodore e a sua amiga Amy (Amy Adams) vêem-se pela primeira vez no filme sem qualquer tecnologia e é aí que conseguem realmente apreciar o nascer do sol enquanto desfrutam do contacto humano.

Uma das outras coisas de que mais gostei em Uma História de Amor foram as personagens. É difícil desgostar do filme no momento em que todas as personagens têm algo com o qual nos identificamos. Parece que nos vemos ao espelho sempre que os intervenientes falam, pois todos já passamos por aquilo que eles passaram: a solidão de Theodore, o desejo de Samantha em ser algo mais do que já é, as brigas que Amy tem com o seu marido Charles... Toda a gente já viveu algumas destas fases e não pode ficar indiferente quando estas são retratadas no filme. Alguns dos diálogos parecem ser uma cópia a papel milimétrico das nossas próprias conversas ou desabafos, o que torna Uma História de Amor um filme altamente universal.

Para ajudar à relação personagem/público temos também as grandes intervenções dos actores. Joaquin Phoenix interpretou de modo magnífico Theodore, dando-lhe vida própria com as suas expressões faciais e voz de constante tristeza e solidão. Amy Adams confirmou que é uma das mais versáteis actrizes da actualidade (notem-se as diferenças entre as suas personagem em Uma História de Amor e Golpada Americana) e interpretou muito bem a sua homónima personagem que, embora simples e com poucas intervenções, ficou mais carismática e interessante graças à actriz.

E a cereja no topo do bolo, neste caso do elenco, é Scarlett Johansson. Visto que é, a título oficial, a mulher mais sexy do mundo nunca se prestou muita atenção às verdadeiras qualidades da actriz, cujo talento é muitas vezes ofuscado pela sua silhueta. Por isso a oportunidade de dar apenas e só a voz a uma personagem e deixar a sua aparência física à imaginação do espectador podia sair ao lado, pois poderíamos descobrir que, afinal, Johansson é má actriz. Mas não. A actriz conseguiu transmitir variadíssimas emoções apenas com o seu timbre, que tanto era amável e bem humorado como podia chegar aos mais altos picos de sentimentalismos. Conseguimos ver lágrimas a escorrer pela cara de Samantha ou vislumbrar o seu sorriso apenas pela expressividade de Scarlett Johansson. E isso não é tão fácil como parece.

No meio de tanta excelência salienta-se ainda a banda-sonora, uma das peças mais comoventes de Uma História de Amor. Temos algumas faixas com poucos acordes, como a do início do filme, que servem apenas para ambientar a atmosfera, mas depois temos algumas músicas que acompanham o filme como se fossem personagens da história. Muitas delas têm tons nostálgicos que acompanham os flashbacks de Theodore e outras parecem funcionar como uma almofada para o sentimentalismo do argumento de Jonze (que sabe jogar com mestria os sons e as palavras dos actores), acabando por ser todas elas incríveis, sem excepções.

Ainda vamos a meio de Fevereiro, mas é seguro dizer que o filme do ano está aqui. Uma História de Amor utiliza um cenário de ficcção científica para contar uma comovente história de amor e conta com um argumento soberbo de Spike Jonze, bem como espectaculares interpretações de Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson.

9/10