segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

The Revenant

THE REVENANT
de Alejandro González Iñárritu
com: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson,
Will Poulter e Forrest Goodluck
Iñárritu não consegue fazer um mau filme. Aliás, não consegue mesmo fazer um filme que não seja, no mínimo, bom. Começou logo com o visceral Amor Cão, seguiram-se os curiosos 21 Gramas e Babel para completar a Trilogia da Morte, regressou com impacto aos filmes de língua espanhola em Biutiful e, no ano passado, atingiu o ponto alto da carreira com o infinitamente premiado Birdman. A carreira nem é longa, e os filmes por ele assinado são ainda escassos, mas parece natural aguardar com elevadas expetativas os seus trabalhos.

É precisamente com essas elevadas expetativas que estreia hoje nas nossas salas The Revenant, a sua mais recente obra. À sua já conhecida mestria na cadeira de realizador (com os planos sequência como imagem de marca) voltou-se a juntar o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki e um elenco de luxo, onde figuram alguns dos nomes mais sonantes do panorama atual do cinema, com Leonardo DiCaprio e Tom Hardy à cabeça. Adaptação do livro com o mesmo título de Michael Punke, a narrativa desenrola-se no início do século XIX, em plena época de luta entre americanos e índios. Hugh Glass é o seu protagonista: um osso duro de roer que ajuda a fação militar liderada pelo Capitão Andrew Henry a caçar peles de animais. Contudo, após lutar contra uma ursa, Glass é gravemente ferido e, de seguida, traído por Fitzgerald, que o deixa entregue a uma morte certa.

O que se segue é a jornada de Glass por florestas e cascatas e precipícios e mais uma série de perigosos caminhos que terá de percorrer para se reunir com os seus companheiros e conseguir a sua vingança. Este percurso dá, felizmente, lugar a poucos diálogos e ao predomínio da mímica e das expressões faciais de DiCaprio. Porquê felizmente? Porque o argumento falado é francamente fraco, ainda para mais em contraste com outros aspetos absolutamente estrondosos que se podem encontrar em The Revenant (e dos quais irei falar mais à frente): é dominado por clichés, por exposição, por conversas que não raras vezes não conseguem passar de um nível banal. As interpretações do elenco, e em especial a de DiCaprio (já que a sua personagem está ora incapacitada de falar devido aos ferimentos causados pelo urso, ora completamente sozinha), são fantásticas, aí sim, nas cenas em que não falam, em que batalham contra índios ou contra a própria natureza, em que os seus pensamentos interiores e sentimentos têm que ser expressados corporalmente. Não que eles não saibam proferir as suas deixas, longe disso, mas porque as mesmas não estão ao nível daqueles que as interpretam.

Não obstante, este é um problema que podemos ignorar facilmente. A força dos atores lá consegue ir disfarçando uma ou outra fala mais fraca e a nossa atenção está longe de estar aí concentrada. Cria-se uma poderosa atmosfera que nos transporta para o centro filme sem nunca nos abandonar. Ver The Revenant é sentirmo-nos arranhados pela ursa, é estarmos gelados no meio da neve, é ter vertigens dos precipícios… é uma grande experiência em sala que muito tem de agradecer a mais um sublime trabalho de fotografia de Lubezki (se há justiça no mundo, vem aí o seu terceiro Oscar consecutivo) e à realização brutal de Iñárritu. Entre a beleza das paisagens naturais (o próprio realizador evitou green screens, caso contrário o filme seria, nas suas palavras, “um pedaço de merda”) e os planos fechados nas personagens, não há como escapar ao pesadíssimo ambiente do filme e, muito tempo depois de rolarem os créditos finais, ainda nos sentimos presos às imagens a que acabámos de assistir.

A simples (e, a dado momento, previsível) história de vingança de Glass torna-se assim numa aventura que nos tira o fôlego e nos coloca com os nervos à flor da pele. Frio, cruel, visceral e não poupando na violência das imagens, o filme transforma em fascinante aquilo que, nas mãos de outro realizador, se poderia tornar saturante. Duas horas e meia a seguir um homem sozinho na neve? Ou se sabe o que se está a fazer ou não demorará muito até que a extensa duração comece a sentir-se. E Iñarritu sabe melhor que ninguém o que está a fazer: não só representando realisticamente tudo aquilo com que Glass se depara na sua viagem, mas também tocando nalguns pontos interessantes daquela fase da história americana e recriando fielmente uma época tensa, caraterizada pela selvajaria do ser humano e pela sua perda de valores éticos e morais, o realizador prende o espectador do início ao fim, levando ao limite as suas personagens (e atores que as interpretam) para que estas ofereçam uma experiência fortíssima. Não se pode dizer que o ritmo se mantenha constante ao longo de toda a fita (os flashbacks à la Malick pouco acrescentam e quebram, por momentos, o tom do filme), mas também é inegável que, a partir de uma narrativa à primeira vista muito escassa em sumo, se consegue espremer muita emoção, muita brutalidade e, acima de tudo, muita qualidade.

E que dizer dos dois atores principais? Sim, porque para além de DiCaprio temos ainda um Tom Hardy brilhante e que talvez até consiga surpreender mais gente (e que, inexplicavelmente, parece não estar a ter o devido reconhecimento nesta award season). DiCaprio tem uma performance impecável, um das melhores da sua carreira, num registo um pouco diferente daquele a que nos habituou, mas Hardy espanta não só por uma interpretação excelente mas também pela forma como nos faz detestar o seu Fitzgerald. Se até agora as suas personagens eram geralmente “gostáveis”, desta vez conseguiu criar um antagonista perfeito. Nos papéis secundários, destaque para Domhnall Gleeson, ator em clara ascensão e que, a cada filme que faz, vai dando mais e mais provas de grande talento e versatilidade.

Afirmando-se, assim, como um dos grandes candidatos a todos os Oscars para os quais está nomeado, servido de uma fabulosa realização e de performances por parte do seu elenco, The Revenant é um das grandes experiências a que temos agora oportunidade de ver no cinema (só as paisagens em ecrã gigante valem cada cêntimo do bilhete). Pode pecar apenas por incluir alguns pormenores que não estão no livro para transformar Glass numa personagem mais relacionável (e nem é por acaso que é daí que nascem as piores fases do argumento), mas, quando um filme deste calibre nos deixa de tal forma abalados e nos acompanha muito depois de sairmos da sala, não são estes pequenos detalhes que lhe retiram todo o valor.

8,5/10

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Um regresso 2.0 e Oscars 2016

Este blogue já não vê textos desde outubro. O último escrito por estas bandas data de setembro, as únicas publicações que se seguiram foram apenas teasers para as críticas que escrevo no Espalha-Factos. Estou há cerca de dois meses e meio sem vir aqui. O tempo escasseia, a inspiração para novos textos também não anda nada famosa e o trabalho quer na universidade quer no EF (entretanto tornei-me, com muito orgulho, editor da secção de cinema do site) vai pondo o blogue cada vez mais de lado. Por isso, algumas coisas vão mudar: neste espaço só se vão escrever críticas e mini textos de opinião, nada de notícias, obituários, etc.; acabou-se a rubrica Os Meus Milímetros Favoritos, se me apetecer escrever sobre um dos meus filmes preferidos, escrevo e pronto, não o vou estar a inserir numa rubrica cujo nome cada vez mais me desagrada; para poupar tempo, não venho aqui fazer os típicos textos que remetem para as críticas que escrevo no Espalha-Factos, em vez disso, faço no final do mês um só post onde ponho todos os links de críticas, reportagens ou o que quer que tenho feito no site. Pode parecer que estou a matar aos poucos o blogue, mas isto serve para reavivá-lo, para lhe voltar a dar identidade própria (cada vez mais isto era um armazém das coisas que redijo no EF) e para me sentir mais leve com isto.

Dito isto, vou falar rapidamente das nomeações para o Oscars. Ainda não vi alguns dos nomeados (incluindo metade dos candidatos a Melhor Filme), por isso o que se segue são apenas comentários aos filmes a que assisti:

- É tão bom ver "The Revenant" nomeado para 12 estatuetas! Mais duas nomeações e passava a ser, juntamente com "All About Eve" e "Titanic", o filme mais indicado de sempre. Parece-me o candidato mais forte a arrecadar as principais categorias como Melhor Filme e Melhor Realizador, e cheira-me que é desta que o DiCaprio ganha o Oscar de Melhor Ator. A maior surpresa nas suas nomeações é, mesmo assim, Tom Hardy: passou a award season a ser desprezado e agora, finalmente, lá está no leque de melhores interpretações secundárias. Mais merecido que isso seria a vitória, mas parece que essa vai para o Stallone (não posso dizer se é justo, já que ainda não vi o "Creed").
- Considero uma perfeita estupidez a nomeação de "Mad Max" a Melhor Filme. Gostei do filme, divertiu-me e entreteve-me q.b., tem uns estrondosos efeitos práticos e foi uma grande lufada de ar fresco no universo dos blockbusters. Mas é só isso. De resto, é uma fita dominada por personagens com as quais não criei grande empatia a desenrolarem uma história básica e previsível. Saí da sala satisfeito mas não com vontade sequer de rever o filme, e estava longe até de imaginá-lo como possível candidato aos Oscars nas principais categorias.
- Onde raio está a nomeação de Melhor Argumento para "Steve Jobs"? O filme vive do argumento do Aaron Sorkin: é rápido, é divertido e não para por um segundo que seja. Sem ele, o filme perdia completamente o ritmo e duvido que tanto o Fassbender como a Winslet (merecidamente nomeados, principalmente a atriz, que nem me importava de ver conquistar o Oscar) conseguissem ter interpretações tão boas sem os incríveis diálogos que tiveram à disposição.
- Rooney Mara nomeada para Melhor Atriz Secundária quando tem tanto tempo de ecrã quanto Cate Blanchett, nomeada para Melhor Atriz. Qual é o sentido disso?
- Felicíssimo por ver "Inside Out" nomeado para Melhor Argumento Original. Só lhe faltou ser nomeado para Melhor Filme (merecia mais que "Mad Max"...)
- "Sicario" foi outro filme que passou o ano a ser ignorado na award season e consegue duas merecidíssimas nomeações para Melhor Fotografia, Melhor Banda Sonora e Melhor Edição de Som. Emily Blunt e Benicio del Toro ainda cabiam bem nas categorias de melhores interpretações do ano.
- "Star Wars: O Despertar da Força" acaba por ser um flop depois de um hype sem precedentes, que fez com que os fãs, ainda antes de verem o filme, andarem a apostar nele como um forte candidato para Melhor Filme. A meu ver, está nomeado onde deve estar: nas categorias técnicas, contando ainda com o bónus de Melhor Montagem, geralmente destinado apenas a candidatos a Melhor Filme.
- "Ex Machina" merecia muito mais do que apenas duas nomeações.

Quando vir todos os filmes nomeados, talvez venha cá atualizar esta lista. Quer-me parecer que vou embirrar, como sempre, com a nomeação de Jennifer Lawrence (quem é que raio ainda tem pachorra para ela?), mas é bom ver que a Academia já não anda a nomear o O'Russell por tudo e por nada. Para os curiosos, dos filmes nomeados para Melhor Filme ainda me faltam ver: "Brooklyn", "Room", "Spotlight" e "The Martian", e devo dizer que estou bastante curioso em vê-los (ao contrário de outros indicados a outras categorias, como é o caso de "A Rapariga Dinamarquesa" e "Joy"). Fica aqui a lista completa de nomeados: http://oscar.go.com/nominees.

Acabo que está o tema dos Oscars, fica a aqui a lista de textos que escrevi no Espalha-Factos e que não vim cá publicar:
Por agora é tudo. Fiquem atentos que agora vou começando a escrever com mais regularidade aqui no blogue, começando já nos próximos dias com críticas aos filmes nomeados.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Os Meus Milímetros Favoritos: NON, OU A VÃ GLÓRIA DE MANDAR (1990)

NON, OU A
VÃ GLÓRIA DE MANDAR

de Manoel de Oliveira
com: Luís Miguel Cintra, Diogo Dória, Miguel Guilherme,
Luís Lucas, Carlos Gomes, Ruy de Carvalho
e Leonor Silveira
Ser português é olhar para trás na nossa História e constatar uma série de triunfos que, num enorme contraste com a situação atual do país, faziam de nós uma das maiores e mais ricas nações do mundo. Seria portanto de supor que um filme como Non, ou a Vã Glória de Mandar, que se propõem a olhar para o nosso passado, fosse recriar no grande ecrã um conjunto de episódios gloriosos do passado de Portugal.

Contudo, o épico de Manoel de Oliveira – que relembramos hoje no Hollywood, tens cá disto? não só em jeito de homenagem ao realizador que este ano nos deixou, mas também para antever o ciclo a que o mestre do cinema português tem direito na Viennale que agora decorre na Áustria –olha antes para Portugal segundo uma perspetiva da derrota. O nosso “guia turístico” por essa série de infortúnios, nascidos de um desejo de expandir o nosso Império, é o tenente Cabrita, que em plena África durante a Guerra Colonial vai partilhando e discutindo com os seus colegas de batalhão visões sobre o nosso passado.

Desde o assassinato de Viriato até à infame Batalha de Alcácer-Quibir, são percorridos séculos de derrotas, ligadas todas elas a uma sede insaciável de alargar o Império Português o mais possível, com resultados sempre trágicos. Os próprios protagonistas que vão narrando os flashabcks vivem naquele que foi o último suspiro do colonialismo nacional, surgindo várias discussões entre soldados (uns a favor do regime salazarista e apoiantes da guerra, outros sentindo-se obrigados a combater por uma causa na qual não se reveem) sobre a Guerra Colonial.

Para além de ser um dos meus filmes favoritos, Non... marca também o regresso da rubrica "Hollywood, Tens Cá Disto?" do Espalha-Factos. É lá que podem encontrar a revisitação completa a este grande título do cinema português.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Crimson Peak: A Colina Vermelha

CRIMSON PEAK
de Guillermo Del Toro
com: Mia Wasikowska, Tom Hiddleston, Jessica Chastain,
Charlie Hunnam e Jim Beaver
Guillermo del Toro está de regresso ao mundo da fantasia e dos fantasmas com Crimson Peak: A Colina Vermelha, uma produção repleta de grandes cenários gótico-românticos do século XIX onde decorre uma sinistra história de amor e mentiras. A antestreia teve lugar no Cinema São Jorge na passada quarta-feira, onde várias celebridades e membros da imprensa se juntaram para assistirem a um desfile dos criadores Storytailors alusivo ao tema do filme.

O desfile contou, para além de uns poucos convidados que seguiram o dress code proposto, com alguns figurantes, pintados de vermelho e de preto, segurando velas e ostentando um vestuário magnífico. Por momentos, o São Jorge  tornou-se num fantástico palco de figuras tão belas quanto misteriosas, estando por isso o grupo Storytailors de parabéns por ter criado o ambiente indicado para a visualização de Crimson Peak.

Mas vamos ao que realmente interessa: o filme. A história gira em torno de um trio de personagens: Edith Cushing, filha de um rico homem de negócios, aspirante escritora e assombrada desde criança pelo fantasma da sua mãe; Thomas Sharpe, um aristocrata britânico à procura de investidores para extrair argila com uma nova invenção; e Lucille Sharpe, irmã de Thomas. Quando o pai de Edith morre acidentalmente, a jovem casa com Thomas e muda-se para Inglaterra com os dois irmãos para começar uma nova vida. Só que aquilo que pareceria um novo começo rapidamente se torna num pesadelo, à medida que ela vai descobrindo as verdadeiras intenções do marido e da cunhada.

Para lerem a crítica e verem algumas das fotos da antestreia, só têm que ir ao Espalha-Factos

À Procura de Uma Estrela Parece

BURNT
de John Wells
com: Bradley Cooper, Sienna Miller, Daniel Brühl,
Riccardo Scamarcio, Omar Sy, Sam Keeley,
Matthew Rhys e Emma Thompson
Passo um: escolher meia dúzia de ingredientes e temperá-los o mínimo possível. Passo dois: juntá-los num tacho a lume brando e ir mexendo lentamente sem deixá-los ganhar muito sabor. Passo três: empratá-los de forma cuidada e bonita para deixar os clientes a salivar, sem que estes notem tão nitidamente o quão insípido é o que estão a degustar. Se À Procura de Uma Estrela Parece fosse um cozinhado, esta seria a sua receita. Mas não, trata-se antes do novo drama de Bradley Cooper dirigido por John Wells que hoje chega a Portugal.

Conta a típica história do “herói caído em desgraçada que quer a todo o custo voltar à ribalta”, desta vez servida no mundo da cozinha. Adam Jones é o protagonista, o ex-protégé de um dos maiores chefes de Paris que, há três anos, foi engolido pelo inferno da droga e da bebida. Agora, recomposto e livre dos vícios do passado, está pronto para voltar ao topo, e com um novo restaurante ao seu comando o único objetivo é alcançar a sua terceira estrela Michelin.

Lida a sinopse, o que se pode esperar de À Procura de Uma Estrela? Com certeza ninguém irá à sala com expectativas de encontrar grandes surpresas no desenvolvimento da narrativa, ou um desfecho que contrarie o happy ending inerente a este tipo de produções ou até personagens de grande profundidade. O filme segue todos os contornos que parecem já pré-definidos quando se pega numa história destas. Há o herói com problemas do passado já superados, embora se desconfie que mais tarde ou mais cedo volta a eles; há o pequeno romance entre dois sujeitos que de início não se suportam um ao outro mas que rapidamente vão descobrir que foram feitos um para o outro; há uma moral que Adam terá de aprender sobre confiar nas pessoas e não fazer tudo sozinho; etc…

A crítica completa encontra-se no Espalha-Factos

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Sicario – Infiltrado

SICARIO
de Denis Villeneuve
com: Emily Blunt, Benicio Del Toro, Josh Brolin
e Daniel Kaluuya
Desde que o seu Incendies – A Mulher que Canta foi nomeado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010, o canadiano Denis Villeneuve tem-se vindo a afirmar como um dos mais interessantes realizadores do panorama do cinema actual. Sicario – Infiltrado, que estreia hoje nas salas nacionais, é o seu mais recente trabalho e leva-nos até ao México para assistirmos à war on drugs entre EUA e os cartéis mexicanos.

Os protagonistas da narrativa são Kate Macer e Alejandro Gillick. Ela é uma agente do FBI destacada para ir até ao México como parte de uma equipa de elite selecionada para apanhar os responsáveis de um atentado que matou dois agentes federais. Ele é o parceiro do líder da equipa e está ligado à missão (e em especial a um dos maiores traficantes de droga mexicanos) de uma forma muito mais pessoal, mas recusa-se a explicar a Kate as suas verdadeiras intensões, criando um clima de desconfiança entre os dois.

O que mais se sente logo à partida é o tom pesadíssimo do filme. Desde a cena de abertura (que nos dá um murro no estômago logo a abrir com muita tensão, violência e uma grande quantidade de imagens fortíssimas) até ao último plano, está sempre presente um clima sombrio que acompanha todos os momentos da narrativa e que assombra cada passo que as personagens dão.

Leiam a crítica completa no Espalha-Factos

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A Visita

THE VISIT
de M. Night Shyamalan
com: Olivia DeJonge, Ed Oxenbould, Deanna Dunagan,
Peter McRobbie e Kathryn Hahn
NOTA: A Visita foi o filme de abertura do MOTELx e já falei sobre ele no Espalha-Factos, já que é pelo site que estou a cobrir o festival. Esta trata-se, por isso, de uma segunda crítica onde expresso a exata mesma opinião mas onde pude alargá-la. O resultado não foi grande coisa (o cansaço de escrever todos os dias três pequenas críticas já se faz sentir) e por isso, caso não fiquem satisfeitos com o que se segue, convido-vos a lerem a reportagem do primeiro dia do MOTELx aqui.

Decorria o ano de 1999 quando estreou O Sexto Sentido. Embora este não fosse o primeiro filme que realizava, M. Night Shyamalan era um novato nestas andanças da sétima arte, com apenas dois e discretos títulos no currículo. Porém, foi com o lançamento deste thriller que ganhou logo uma grande base de fãs e o apreço dos críticos, e O Sexto Sentido acabou, entre tantas outras nomeações, indicado a seis Oscars. Mas a carreira promissora que se avistava no horizonte (chegou a ser tido como “o novo Spielberg”) cedo começou a desenvolver-se ao ritmo de uma estrela cadente…

Estamos hoje em 2015 e podemos afirmar que Shyamalan é um fascinante case study. Como é possível que o homem por detrás de O Sexto Sentido (e já agora de O Protegido e Sinais, as duas longas que se seguiram e que são até bastante interessantes) tenha batido no fundo tão rápido? Um fundo que ora dá pelo nome de O Acontecimento, ora se chama A Senhora da Água, ora se apelida de O Último Airbender. O seu último filme, Depois da Terra, foi até uma desilusão na box-office e a produtora tentou esconder o seu nome nas campanhas de promoção. Shyamalan tornou-se, em década e meia, sinónimo de fracasso.

Eis então que nos chega A Visita, o seu mais recente trabalho que marca um regresso às origens e ao género do terror/thriller. Adotando agora o estilo found footage, Shyamalan narra a semana que os irmãos Becca e Tyler passam com os seus avós, que nunca conheceram, numa vila pacata e isolada. Só que uns dias que se previam calmos e tranquilos afinal tornam-se num inferno quando os dois jovens testemunham vários comportamentos sinistros dos seus familiares.

Esta é a sinopse típica de uma fita deste género. E A Visita de facto não se diferencia muito de tantas outras coisas de terror que por aí estreiam: oferece um par de bons jump scares mas 90% dos sustos acabam por ser previsíveis; nada de grandes atores nem grandes diálogos; uma grande quantidade de clichés irritantes daqueles que na “vida real” dificilmente aconteceriam, desde a câmara que nunca cai direita no chão às personagens que, assustadas e/ou atacadas pelos avós, não deixam nunca cair os seus dispositivos de filmagem (que convenientemente nunca os para de focar); e a inclusão de momentos “fofinhos” que destoa o tom do filme nalgumas cenas.

Há, claro, alguns momentos mais bem conseguidos aqui e acolá. Por exemplo, a personagem, Becca parece representar o pretensiosismo que alguns documentaristas possuem e vai oferecendo umas falas que bem podiam sair da boca de alguns realizadores. O plot twist, indispensável num Shyamalan, embora ponha em causa algumas situações anteriores no filme, não deixa de ser interessante e aumenta a tensão nos instantes finais passados em casa dos avós dos dois jovens protagonistas. A Visita não é assim um filme mau; postos os prós e os contras nos pratos de uma balança, esta ficaria equilibrada.

Contudo, há algo que joga e muito a favor do filme e que o põe uns furos acima do mediano: não se leva muito a sério. Quantos de nós já estão fartos daqueles realizadores presunçosos, com a mania que os seus trabalhos significam um passo em frente no género do terror, quando não passam de um carnaval de lugares comuns sem pingo de genuinidade? O próprio Shyamalan tem feito filmes anedóticos que se tornam insuportáveis porque ele acredita que são, de facto, bons. Desta vez, vemos o ambiente sombrio quebrado não pela bazófia de um cineasta mas sim por umas quantas tiradas cómicas. Por vezes estas são meio parvas, especialmente porque acontecem num contexto onde as personagens estariam demasiado assustadas para se lembrarem de uma piada, mas ao menos tornam o visionamento da fita muito mais divertido, oferecendo umas boas gargalhadas.

Portanto, este não é o filme que marca o regresso em grande de M. Night Shyamalan que alguns esperavam. Mas, tendo em consideração estarmo-nos a rir pela primeira vez em muitos anos com ele e não dele, dá a impressão de que o realizador já aprendeu a lição e se apercebeu dos quão idiotas foram os seus anteriores projetos. Daí até voltar a oferecer-nos uma obra de elevada qualidade pode ser uma questão de tempo… Até lá, temos em sala A Visita, que satisfará os menos exigentes com um bom par de sustos e os entreterá durante uma horita e meia.

6/10

PS.: Entretanto li algures que o Shyamalan está a preparar-se para fazer a sequela d'O Último Airbender. O último parágrafo fica um bocadinho sem efeito, mas vou deixá-lo como está porque, primeiro, não tenho tempo para reescrevê-lo e, segundo, tenho esperanças que o realizador, por milagre, mude de ideias até lá.

sábado, 5 de setembro de 2015

A Ovelha Choné – O Filme

SHAUN THE SHEEP MOVIE
de Mark Burton e Richard Starzak
A Ovelha Choné tornou-se nos últimos anos uma das personagens mais adoradas e carismáticas dos estúdios Aardman, e o salto do pequeno ecrã para a grande tela do cinema já se adivinhava, e parecia até lógico, dado o sucesso que teve junto de miúdos e graúdos. Esse salto concretizou-se este ano e, após a estreia na última edição do MONSTRA, A Ovelha Choné – O Filme chegou finalmente ao circuito comercial.

Esta primeira incursão da simpática ovelha e companhia no cinema leva as personagens ovinas, o simpático cão de guarda e o seu dono a abandonarem a quinta onde a série televisiva decorre para se aventurarem pela grande cidade, onde todos vão viver uma sucessão de acontecimentos insólitos.

Não se pense, contudo, que um novo palco de aventuras alterará a essência dos protagonistas. Apesar desta mudança de cenário, o humor caraterístico do programa e a criatividade na construção das várias peripécias dos nossos protagonistas continua patente. Aliás, com a ação a decorrer agora numa grande metrópole, há muitos mais sítios e oportunidades para se criarem novos episódios hilariantes. Desde logo aparecem novas personagens que nunca encontraríamos numa quinta, desde o tenebroso caçador do canil, que funcionará como o vilão do filme, até a um cão rafeiro que se juntará à Ovelha Choné para resolverem todas as situações com que se deparam.

Leiam a crítica completa no Espalha-Factos

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Um regresso


Quase cinco meses após a minha decisão de fazer uma pausa do Espalha-Factos e aqui do blog (tenho indo escrevendo por estas bandas, mas muito raramente), eis que anuncio o meu regresso. Foram uns bons meses para, em primeiro lugar, estudar para os exames e, em segundo, descansar, sem deixar de parte os muito filmes que vi nestas noites de verão. Agora, estou mais que preparado para voltar.

É uma excelente altura para este meu regresso ao activo. O Espalha-Factos está de parabéns: comemorou ontem uma década de vida e renovou o seu visual (já foram espreitar?). Daqui a uns dias inicia-se também o MotelX 2015, onde vou estar, espero eu, com acreditação e pronto para fazer uma boa cobertura do festival. Aqui no blog, visto que críticas e outros textos serão escritos maioritariamente no EF, tentarei dar continuidade aos Meus Milímetros Favoritos (vi tantas obras-primas em Agosto que não me faltam títulos para inserir na rubrica) e pensar noutras coisas giras que possam dar vida a este recanto da blogosfera.

Por agora estas são as únicas novidades. Entretanto já me pus a escrever no Espalha-Factos, naquela que é uma notícia muito importante para o cinema chinês. Podem ainda notar-se alguns sinais de ferrugem (tanto tempo parado tem as suas consequências), mas podem crer que foi escrito com muita felicidade e já depois de matar saudades dos meus companheiros do site. É só uma questão de tempo até atingir um nível mais alto, por isso stay tuned!

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

LUX

LUX
de Bernardo Lopes e Inês Malveiro
com: Sérgio Moura Afonso, José Pimentão e Anna Carvalho
Quantos de nós já se depararam com problemas no nosso processo criativo e com um grande conflito de ideias? Para Pedro, protagonista da excelente curta-metragem LUX (vencedor do prémio de Melhor Filme no Over&Out 2015), estes são problemas constantes que o atormentam enquanto, isolado em sua casa, tenta escrever o seu novo romance.

Como o sabemos? Não é através de diálogos entre personagens nem com o auxílio de uma narração em voice over dos pensamentos de Pedro. Em vez disso, os 10 minutos da curta são silenciosos e as dificuldades em ter e conciliar ideias do escritor são apresentadas através de lâmpadas. Sim, lâmpadas, uma que se acende aqui, outra que se apaga acolá, muitas que se vão fabricando e outras tantas que se partem por todo o lado. Esta metáfora que se sugere é extremamente eficaz e delicada, oferecendo uma nova e interessante perspetiva sobre a crise criativa daqueles cuja profissão depende diretamente da criatividade e não só.

Bernardo Lopes (que também assina o argumento) e Inês Malveiro, a dupla de realizadores, constroem em torno desta simples narrativa um conjunto de imagens muito bem estruturadas. É notório o empenho em construir cada plano com muita atenção ao detalhe e com o desejo de tornar LUX extremamente apelativo visualmente. Desejo esse alcançado e para o qual contribui ainda a escolha de filmá-lo em 35mm. Já a performance de Sérgio Moura Afonso como Pedro é discreta, contudo não deixa de dar profundidade a um homem que vive uma frustrante crise criativa.

LUX é assim uma curta-metragem de alta qualidade. Um conceito bastante curioso e otimamente ilustrado dá origem a um filme que espelha o interior da mente de todos através de uma excelente simbologia visual. A não perder.

8,5/10

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Um Rapaz Chamado Jaime

UM RAPAZ CHAMADO JAIME
de André Marques
com: Henrique de Carvalho, Sérgio Mendes
e Pedro ó Parente
Após se ter estreado no universo das curtas-metragens com O Anjo em 2013, André Marques apresenta agora Um Rapaz Chamado Jaime, um filme intenso e violento, mas que merece sem dúvida alguma uma vista de olhos.

A nova curta apresenta-nos Jaime, um jovem rapaz que todos os dias sofre de violência doméstica pela mão do seu pai. É com esta história forte que André Marques elabora um filme interessantíssimo, superior ao seu anterior trabalho. Com uma realização consistente e um trio de atores igualmente talentosos, de onde se destaca Henrique de Carvalho no papel principal, Um Rapaz Chamado Jaime é assim uma fita pertinente numa altura em que todos os dias surgem novas notícias sobre violência doméstica, sendo que a sua narrativa ficcional não estará com certeza muito distante de outras tantas situações verídicas.

Com apenas 15 minutos de duração, o filme demonstra o tópico da violência doméstica a partir da perspetiva de uma vítima. No entanto, Jaime nunca é um “coitadinho”, um rapaz que não se sabe defender e que existe como personagem apenas para que o público tenha pena dele. Em vez disso, ele é a personificação dos efeitos e sequelas que os maus tratos provocam, sendo que os seus próprios comportamentos, influenciados sobretudo pela forma como o seu pai o (mal) trata, o levarão aos extremos.

Em suma, Um Rapaz Chamado Jaime é uma curta-metragem que merece ser vista não só pela sua qualidade técnica mas também pelo seu conteúdo, naquele que é um olhar forte sobre um assunto que, de uma maneira ou de outra, toca a muitos… infelizmente.

8/10

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

(des)ligado

(DES)LIGADO
de Diogo Simão
com: Diogo Simão
Selecionado para a próxima edição do FARCUME (Festival de Curtas-Metragens de Faro), (des)ligado marca a estreia de Diogo Simão (meu caríssimo amigo da blogosfera com o seu Está Um Buraco Lá Embaixo e colega de trabalho no Espalha-Factos) na cadeira de realizador, na escrita de um argumento e ainda como protagonista de uma pequena fila. E sai-se muitíssimo bem nestas suas três funções.

Pegando na sinopse disponível no seu trailer (se se contar mais do que ela revela-se a curta quase toda): (des)ligado segue um movie geek que, sofrendo de uma doença psicológica que o leva a cometer homicídios e a fim de manter a sua sanidade, vive a vida como se esta se tratasse de um filme. Mais interessante do que isto é difícil, mas se acham que a fita se fica por mostrar um par de segmentos mais fortes misturadas com o quotidiano da personagem principal, estão muito enganados. Há um interessantíssimo trabalho de montagem que coloca excertos de alguns filmes e imagens de ícones do cinema por entre os episódios mais psicopáticos de (des)ligado, enquanto que nos momentos em que o nosso protagonista vai imaginando o seu dia-a-dia como uma película somos bombardeados com toda uma atmosfera cheia de estilo e badassness.

Apesar de tratar-se de um filme feito com poucos meios e praticamente amador (à semelhança de 99% das curtas produzidas em Portugal), há espaço para Diogo Simão mostrar algumas ideias visuais curiosas e criar um ritmo e estilo cativantes, que beneficiam ainda da sua narração off screen e de uma performance cheia de pequenos detalhes. E engraçado ainda constatar como em todos os minutos encontramos pequenas referências e homenagens  Por isso, se este verão estiverem no Algarve entre 26 a 29 de agosto, tem aqui uma boa razão para passarem pelo FARCUME. (des)ligado é uma curta metragem bem elaborada, onde as referências ao cinema estão de mãos dadas com uma história tanto psicopática como aprazível.

7/10

sábado, 27 de junho de 2015

Divertida-mente

INSIDE OUT
de Pete Docter
com as vozes de (V.P.): Carla Garcia, Custódia Gallego,
Bárbara Lourenço, Nuno Pardal, João Baião e Nuno Markl
Ir ao cinema ver filmes da Pixar é sempre a mesma coisa: vejo-os depois de ouvir maravilhas sobre eles e na maioria das vezes (quando não se trata de uma sequela do Carros ou de uma prequela dos Monstros e Companhia) até me deparo com discussões do tipo: “este é o melhor trabalho que o estúdio já nos deu!”. Lembro-me de quando saiu o Wall-E, quando depois estreou o Up e logo a seguir quando chegou o Toy Story 3. Em todas as ocasiões muita gente exclamava a bons pulmões que a Pixar tinha chegado à perfeição. Eu adoro praticamente tudo o que os estúdios já ofereceram, mas nunca tomei um como o melhor: na minha cabeça há uns três ou quatro títulos que rivalizam para chegarem ao topo do pódio, sem nunca conseguirem, ficando sempre “à bulha” num ringue de perfeição de onde nenhum sairá vencedor.

Por isso quando vi, li e ouvi por todo lado que Divertida-mente era a nova obra-prima da Pixar e que era este o seu melhor filme, não elevei, como é habitual, as expectativas. Pensei que ia desfrutar e bem da coisa e que regressaria a casa com mais um concorrente na luta pelo título de melhor animação de sempre dos estúdios. Mas neste momento a única luta que estou a ver é comigo mesmo, porque não sei se tenho coragem para admitir que há, de facto, algo melhor que Toy Story, que Wall-E, que Up, ect... Mas bolas, quando tem de ser, tem de ser: Divertida-mente é o MELHOR FILME QUE A PIXAR JÁ FEZ! Está apenas uns microscópicos pontos acima dos atrás referidos, mas é o que basta para ganhar a competição.

E não é só dentro do universo da animação que Divertida-mente abafa a concorrência. Até agora só falei dele dentro do contexto do estúdio do candeeiro, mas podia ter falado dele noutro contexto qualquer. É pura e simplesmente brilhante! Uma aventura colorida e visualmente original, repleta de personagens inesquecíveis e momentos onde o adjectivo comovente parece insignificante junto daquilo que eles nos fazem sentir. É também um dos trabalhos mais ambiciosos que me lembro e que até tinha tudo para correr mal. Aliás, quando vi o primeiro trailer (onde aparecem fragmentos de uma das cenas mais divertidas do filme), pensei que era uma ideia gira para uma curta-metragem, mas que muito dificilmente resultaria em algo que se conseguisse estender por hora e meia. Oh, mas como se consegue estender, desenrolar, voar durante toda a duração do filme sem nunca tremer!

Como muitos já devem saber, a história tem como protagonista Riley, ou melhor, as sus emoções: Alegria, Tristeza, Raiva, Repulsa e Medo, os cinco elementos que controlam a pré-adolescente de 11 anos. A narrativa começa (depois de uma fascinante preâmbulo narrado pela obviamente jovial Alegria) num período de grandes mudanças na vida de Riley: uma mudança do Minesota, palco de todas as suas memórias de infância, para São Francisco, onde não conhece nada nem ninguém. É com isto que as cinco emoções têm que lidar, até acontecer um grande acidente: a Alegria e a Tristeza são atiradas para fora do quartel-general e vêem-se sozinhas no meio do subconsciente da rapariga, onde se deparam com as suas memórias, os estúdios dos sonhos, o reino da imaginação e até o sítio de entrada proibida onde se dá o pensamento abstracto (coisas que todos sabemos que existem mas que só a Pixar se atreveria a explorar tão inovadoramente).

Esta é a parte do filme destinada essencialmente às crianças. O visual de Divertida-mente oferece imagens criativas e originais que farão as delícias dos mais novos (e dos mais velhos também, embora para eles esteja destinada uma outra vertente da fita – mas já lá vamos), desde a aparência das cinco emoções (cada uma desenhada numa forma muito mais cartoonesca em relação ao que a Pixar tem vindo a fazer) e do amigo imaginário Bing Bong até aos cenários onde decorre toda a jornada da Alegria e da Tristeza de retorno ao quartel-general. E claro, não podia a faltar o humor, bastante inteligente quer a nível visual quer de diálogos, que não toma as crianças como criaturas parvas que só se riem de anedotas de flatulência e afins, a ideia que muitos outros produtos destinados à pequenada tem.

Mas enquanto os miúdos lá se vão entretendo com a colorida história, nós, os mais velhos, vamos levando murros no estômago constantemente. Sim, também nos divertimos por todo o filme (há anos que não via uma sala de cinema maioritariamente composta por adolescentes e jovens adultos a rir tanto), mas, claro, a Pixar não nos podia deixar sem algo para choramingar. Ver as constantes mudanças de comportamento de Riley e a forma como a sua memória se vai alterando e moldando a sua personalidade é tocante a vários níveis (não é por ela ser rapariga que as suas vivências não são universais). É este um dos principais trunfos de Divertida-mente: o seu trabalho intenso de pesquisa sobre psicologia oferece uma perspectiva nunca antes vista sobre a mente humana, dando assim a possibilidade de ilustrar aspectos da nossa vida que dificilmente conseguimos verbalizar (desde os pilares sobre os quais se eleva a nossa personalidade até pequenos mas importantes sentimentos como a nostalgia, que no filme tem uma simples mas belíssima representação visual). Vemos o porquê de nos esquecermos de certas coisas, o como um mero episódio em família vai no futuro continuar a ter influência em nós e, por fim, como a vida é um constante misto de emoções, sem as quais não podemos viver.

Mesmo analisando a história do filme sem todo este deslumbramento (acontece ocasionalmente deixarmos passar alguns elementos menos conseguidos enquanto somos distraídos pela manipulação de sentimentos de algumas fitas) é difícil encontrar algum erro. A ligação entre os actos das cinco emoções e os comportamentos de Riley são sempre bem executados e mesmo quando entremos em várias cabeças diferentes ao mesmo tempo (como acontece na já referida cena que serviu de trailer) nada se torna confuso. Não há um momento aborrecido, havendo sempre muita acção ou humor, nem plot holes, embora se deixem algumas pontas soltas, se bem que trabalhar nelas seria desperdiçar tempo.

Divertida-mente é, portanto, mais que uma mera animação. É um espelho e ao mesmo tempo um raio-X, uma história contada não só para nós mas principalmente a partir de nós. Tal como todas as grandes obras, põe-nos a pensar mesmo depois de sairmos da sala. E enquanto lá estamos dentro, experienciamos um verdadeiro turbilhão de sentimentos, desde a mais pura diversão até à comoção agridoce. Uma obra-prima universal, original em praticamente todas as camadas visuais e emotivas, que há-de pôr os cinco “comandantes” da nossa cabecinha mais vivos que nunca.

10/10

Lava

LAVA
de James Ford Murphy
Como já é tradição, a Pixar apresentou antes do seu mais recente trabalho uma curta-metragem. Este ano, Lava foi o pequeno filme que os estúdios produziram para anteceder a Divertida-mente. É uma história bastante interessante, sobre um vulcão (com olhos e boca) chamado Uku que passa os dias a ver golfinhos, baleias, tartarugas, etc., aos pares, enquanto vai cantando uma música sobre o quão quer ter um vulcão para amar (dando origem a trocadilhos mauzinhos que brincam com as palavras love e lava). Porém, nenhum vulcão aparece e a sua lava começa a tornar-se em pedra, fazendo com que Uku se vá afundando lentamente. O que ele não sabe é que, ainda no fundo do mar, está uma vulcana de nome Lele a ouvir a música... Não conto mais nada porque isto trata-se de uma curta e mais um bocado e já tinha falado do filme inteiro. Mas dá para perceber que a ideia é muito gira. O visual é fantástico, com ilustrações muito bonitas da natureza e uma humanização dos dois vulcões bastante bem conseguida, e a história é uma montanha russa de emoções de apenas sete minutos, quase um aquecimento para Divertida-mente. O problema de Lava reside essencialmente em duas coisas: primeiro, toda o enredo é contado numa canção que se começa a tornar chata ao fim de um bocado; e segundo, há um factor desagradável que consiste em a Pixar não admitir que se baseou (descaradamente...) na música e na figura de Israel "IZ" Kamakawiwoʻole para construir o vulcão Uku, fazendo assim com que uma curta que poderia servir de homenagem se torne num rip-off fácil e embaraçoso para os estúdios. Em suma, Lava é uma bonita história de amor que peca por não ser construída com o encanto e a delicadeza presentes nos outros pequenos filmes da Pixar.

6/10

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Os Meus Milímetros Favoritos: NINOTCHKA (1939)

NINOTCHKA
de Ernst Lubitsch
com: Greta Garbo, Melvyn Douglas, Ina Claire,
Sig Ruman, Felix Bressart e Alexander Granach
Ninotchka é uma deliciosa comédia romântica realizada por Ernst Lubitsch em 1939. A narrativa decorre, num entanto, uns anos antes, numa Paris onde “uma sirene ("siren" em inglês, que também significa “mulher sedutora”) era uma morena e não um alarme – e se um francês apagasse a luz não era devido a um raid aéreo.” É nessa Paris pré-II guerra que conhecemos Iranoff, Buljanoff e Kopalski, três simpáticos russos que viajaram à capital francesa ao serviço do estado, com a missão de vender joias confiscadas durante a Revolução de 1917. No entanto, atraídos pelo modo de vida capitalista e influenciados pelo Conde Leon d’Algout (representante da Grande Duquesa Swana, a quem pertencem as joias), os três acabam por se instalar em Paris na suite real de um luxuoso hotel, enquanto a venda que deveriam estar a efectuar para angariar dinheiro para o estado soviético é deixada de lado para dar lugar à diversão e ao luxo.

Até aqui nada parece indicar que o filme se trata de uma comédia romântica. Sim, os três russos andam todos babados com as ideologias capitalistas e em especial com as meninas dos cigarros do hotel; e sim, entre o Conde Leon e a Duquesa Swana há mais que uma relação meramente política. Mas falta algo, uma personagem ou acontecimento que venham dar dinâmica a uma história, até agora, simples e engraçada, porém sem especial encanto. É então que, acabada de chegar da União Soviética, que a destacou após se aperceber que os seus três primeiros enviados nada fizeram para avançar com a venda das joias, conhecemos Nina Ivanovna Yakushova, um verdadeiro Manifesto Comunista andante, tão fria como a Rússia e tão severa quão as políticas soviéticas. Deparando-se com a ineficácia de Iranoff, Buljanoff e Kopalski em desempenhar em condições a sua missão, é Ninotchka (assim é a sua alcunha) quem assume as negociações.

Uma das primeiras decisões que toma com objectivo de avançar com a venda das joias é que não irá sequer entrar em contacto com a Duquesa Swana ou com qualquer dos seus representantes. Contudo, nessa mesma noite acaba por conhecer Conde Leon, sem saber quem ele é e ele também sem qualquer conhecimento do porquê daquela bela russa estar em Paris. Habituado a namoriscos, Leon ajuda Ninotchka a encontrar a Torre Eiffel no seu mapa e segue-a até lá, pois não quer deixar escapar uma mulher tão bela. Inicia-se assim o lado romântico do filme, sem nunca deixar a comédia de parte. As diferenças abismais entre as duas personagens vão levar primeiro a um choque de personalidades e logo a seguir a um confronto de ideologias, estando assim juntos os ingredientes para uma série de episódios hilariantes que servirão para Lubitsch e o seu trio de argumentistas, Billy Wilder, Charles Brackett e Walter Reisch, construírem uma divertida e mordaz sátira ao modelo político e económico da União Soviética.

Ora bem, depois de muito tentar encantar com o seu charme Ninotchka (que se mostra sempre desencantada, chegando a dizer não existirem homens assim no seu país, daí ela estar tão confiante no futuro da nação), Leon lá consegue convencê-la a ir a sua casa (não porque ela não mais resistiu ao seu encanto, mas por considerar o Conde um bom sujeito de estudo). É lá que se dá, depois de nova luta entre palavras poeticamente sedutoras e respostas frias, o primeiro beijo entre os protagonistas. Entramos neste momento na primeira surpresa da narrativa. Em vez de, como é mais comum, seguir com um romance onde as duas partes do casal não sabem que são, à partida, inimigos e só o descobrem numa parte já muito avançada da sua relação, Lubitsch faz com que meros segundos após o primeiro beijo Ninotchka e Leon se apercebam que são rivais nas negociações das joias da Duquesa Swana. Profissional como sempre, a russa decide sair de casa e esquecer que tudo aconteceu, mas o coração que opera acima da lógica do Conde leva-o a continuar a persegui-la, levando-nos até uma das cenas mais engraçadas e não menos bonitas de fita: Leon tentando, num restaurante, fazer a sua amada rir enquanto lhe conta uma série de anedotas, sempre sem sucesso, até que, acidentalmente, cai no chão e vê pela primeira vez Ninotchka a rir às gargalhadas.

É este o ponto de viragem da narrativa. Tal como havia acontecido aos seus três camaradas, a bela russa cede aos encantos da vida ocidental, ainda que continuem a persistir nela algumas das ideologias comunistas que serão mais evidentes quando é confrontada pela Duquesa Swana, esta com medo de perder o Conde e por isso desejosa de terminar o negócio das joias (a seu favor, obviamente) para que o vértice soviético deste triângulo amoroso parta de regresso à sua terra natal. Entre as duas irá existir também uma colisão de ideais, agora entre as duas mentalidades russas, a pré e pós Revolução de 1917. Embora este conflicto esteja presente apenas numa cena, não deixa de ser interessante constatar como, no meio das divertidas piadas e de uma bela história de amor, o filme quer também olhar para vários pontos da então recente história da Europa.

Ninotchka, agora deixando toda a sua beleza (ou melhor dizendo: a beleza dessa musa sueca de nome Greta Garbo) fazer esquecer a sua frieza e desdém inicial e libertando a sua personalidade mais festiva e sentimental, dá por fim a mão e o coração a Leon e os dois, esquecendo que com os negócios que os opunham estão prestes a findar e que o regresso dela à Rússia está para breve, vão vivendo a sua paixão por entre os encantos de Paris. Obstáculos vão aparecendo, como é óbvio, e embora o final feliz seja certo (como o é em 99% dos filmes deste género nesta época) algumas situações ainda nos fazem interrogar, não se a conclusão da película será assim tão alegre, mas como é que os dois protagonistas vão dar a volta às situações mais adversas, fazendo-nos assim estar de olhos fixos no ecrã até ao último minuto.

Durante toda a duração da obra a câmara de Lubitsch vai-se movendo com suavidade pelos cenários e consegue inúmeras vezes captar brilhantemente os sentimentos de cada personagem, especialmente os de Ninotchka, através de planos fechados da sempre expressiva face de Garbo, ela que é a estrela mais brilhante do elenco, sem tirar qualquer mérito aos outros membros. Melvyn Douglas (Conde Leon) apresenta-se inicialmente como um ingénuo romântico mas consegue no final destacar a forte personalidade da sua personagem, enquanto que Ina Claire (Duquesa Swana) apresenta-se sempre má como às cobras. E depois temos o maravilhoso trio Sig Ruman, Felix Bressart e Alexander Granach (os três primeiros enviados da URRS a Paris), que oferecem constantemente gargalhadas à narrativa.

E há sempre um alternar magistral entre a comédia da fita (por vezes até bastante atrevido e a roçar o humor negro, como quando Ninotchka afirma que “os últimos julgamentos em massa [na Rússia] foram um sucesso: vai haver menos mas melhores russos”) e a sua faceta mais comovente. Uma não tira lugar há outra; em vez disso, dão ambas as mãos e fazem de cada momento de Ninotchka uma regalo para os olhos e para o coração. Não vale a pena, aliás, contar o número de diálogos e cenas inesquecíveis: Ninotchka, como um todo, é um pedaço único de verdadeiro espírito cinematográfico.

terça-feira, 23 de junho de 2015

[TAG] Viciado em Séries

Mal acabei os exames de secundário e já tenho que voltar a dar trabalho aos dedos e teclar mais umas coisas (mas apre!, fosse o trabalho sempre assim e não tinha andando todo stressado nestes últimos dias de estudo). A minha caríssima amiga e colega de blogosfera Inês Moreira Santos, do Hoje vi(vi) um filme, nomeou-me para este desafio: responder a perguntas acerca das nossas séries favoritas. Por isso, e embora o meu blog se chame Milímetro a Milímetro e não Polegada a Polegada, aqui ficam as resposta.

Ah, e não vou nomear ninguém para este desafio, não porque quero quebrar a corrente mas porque todas poucas pessoas que conheço na blogosfera já participaram.

[SEGUEM-SE ALGUNS SPOILERS!!!!!!!]

1) Qual a tua série favorita?
Sem qualquer sombra de dúvida: Friends. Eu que não sou nada maluco por séries e muito raramente acompanho uma do início ao fim, papei todos os episódios de Friends desde a sexta à última temporada quando apanhei pela primeira vez o Chandler, a Monica, o Ross, a Phoebe, o Joey e a Rachel na RTP2 em, se não estou em erro, 2008. Depois os meus pais compraram as dez temporadas completas em DVD e toca a ver de uma assentada os episódios que tinha perdido (e, mesmo sabendo que aquela personagem ia dali por uns anos namorar com aqueloutra personagem, a experiência foi sempre entusiasmante). E os DVDs cá continuam em todo o seu esplendor na estante da sala. E ainda vemos uns quantos episódios de vez em quando. E os resultados são os mesmos: gargalhadas, gargalhadas, uma lágrimazita e depois mais gargalhadas. Porque todas as gags de todos os episódios são intemporais, as personagens são fantásticas e extremamente divertidas de maneiras muito diferentes e, no meio de todo este humor, há sempre a sensação de estarmos a acompanhar ao longo de 10 anos aqueles seis amigalhaços como se fossem nossos compinchas.


2) Qual a série que recomendarias a qualquer pessoa?
Basta lerem o que disse acima para perceberem que aconselho Friends a qualquer pessoa. Mas há outras boas séries que muito prezo e que recomendo de igual agrado. Seinfeld (para os que querem sarcasmo do bom); Sherlock (para os que conseguem esperar mais de um ano por novas temporadas constituídas por apenas três episódios, que tanto compensam a espera como nos deixam ainda mais sedentes e impacientes para vermos novas investigações do melhor detective do mundo); Dexter (para os que gostam de um bom psicopata a fazer-nos companhia - evitem apenas o último episódio...); e Louie (para quem gostar de um grande humor negro misturado com momentos íntimos de partir o coração).

3) Qual a série com o melhor elenco?
Hum... boa pergunta. Sherlock tem um grande elenco, desde os seus dois protagonistas (Benedict Cumberbatch e Martin Freeman) aos actores secundários que vão aparecendo e não lhes ficam atrás. Dentro do universo das minhas séries favoritas, é talvez aquela que tem o melhor casting. Mas de todas as coisas que já vi, independentemente de gostar ou não da série em questão, o elenco de Breaking Bad é qualquer coisa de sublime. Não sou, ao contrário de aparentemente todas as outras pessoas do mundo, fã da série (gosto, mas aquela primeira temporada é horrível e todas as personagens femininas são umas grandes c*bras, por isso não me tocou tanto como a outros tantos), no entanto tenho que admitir que no que toca a actores, poucos chegam, no pequeno ecrã, aos pés de Bryan Cranston, Aaron Paul, Dean Norris, Bob Odenkirk, ect...


4) Qual foi a última série que viste?
Last Man on Earth. Depois de ler a crítica do Nuno Markl no seu site fiquem com grande curiosidade em ver esta nova série. Gostei muito do primeiro episódio duplo (humor inteligente, um bom actor principal e uma fuga quase total aos clichés das histórias de extermínio da população e o(s) seu(s) último(s) sobrevivente(s)). Mas depois apareceu uma mulher e de repente Phil (a personagem principal) já não era propriamente o "último homem há face da terra". Mas pronto, o título da série é Last Man e não Last Human. E a entrada dessa nova protagonista feminina até criou mais linhas de humor bem eficazes. Só que depois apareceu um nova moça, mais bonita e mais loira, trazendo à tona uns quantos lugares comuns... e depois surgiu mais um homem, e o Phil parou de ser, oficialmente, o Last Man on Earth. A história começou a ser mais aborrecida, previsível e desinteressante e entretanto acabei por parar de acompanhar a série.

5) Já ficaste triste com o final de alguma série?
Sim: Dexter, Seinfeld e How I Met Your Mother. A primeira porque raios!, aquilo só pode ser o final mais preguiçoso e desleixado que uma série sobre um psicopata pode ter. A segunda porque terminou mais em forma de best-of das temporadas passadas do que em forma de concluir uma sit-com (embora terminar uma série como Seinfeld, onde nunca existiu uma narrativa propriamente dita, seja uma tarefa lixada). Já em relação a HIMYM, aquilo que começou como uma mero (mas engraçadinho) wanna-be Friends tornou-se numa salganhada de piadas parvas e estupidificação das personagens e concluiu-se com um dos piores e mais incompreensíveis finais dos últimos anos da TV.

6) Que personagem gostavas de ser?
Chandler Muriel Bing, o guru do sarcasmo e rei (no meio de muitos príncipes) de Friends.


7) Que série tens vontade de ver?
Better Call Saul, porque pega numa das minhas personagens favoritas de Breaking Bad; Sopranos, The Wire e Twin Peaks, que já estou farto de ver tidas como melhores séries de sempre mas que, qual pecador que sou qual quê, nunca vi; e regressar a True Detective, House of Cards e Orange is the New Black, que parei de ver muito no início.

8) Que série não tens vontade de ver?
Glee (ouvi alguns covers de lá saídos e eram péssimos, nem quero saber como é a série em si) e qualquer mariquice com vampiros e/ou lobisomens adolescentes.

9) Já viste alguma série só porque sim? Se sim, qual?
The Walking Dead. Comecei a ver de bom grado, como qualquer pessoa faria perante uma primeira temporada tão magistral, mas depois a coisa começou a descambar e a ficar chata como tudo. A meio da segunda série acho que já estava a vê-la só porque sim, mesmo sabendo que aquilo já não prestava para nada. E às vezes ainda perco tempo precioso a ver alguns episódios mais recentes para acompanhar a história que já não me interessa para nada. Mas os zombies continuam nojentos, num bom sentido.

10) Pensa em alguém. Diz quem é e que série gostam de ver juntos?
Qualquer amigo meu, a vermos os Friends e a darmos umas belas gargalhadas. Se bem que a série é tão engraçada que se vê bem sozinho.

domingo, 17 de maio de 2015

Os Vingadores: A Era de Ultron

AVENGERS: AGE OF ULTRON
de Joss Whedon
com: Robert Downey Jr., Chris Hemsworth, Mark Ruffalo,
Chris Evans, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Elizabeth
Olsen, Aaron Taylor-Johnson e Samuel L. Jackson
O banquete de super-heróis que a Marvel apresentou em 2012 (sem antes não dar a quase todos os seus pratos principais um filme a solo) volta a ser servido depois de uma campanha de marketing ao nível de aperitivos de hotéis de 5 estrelas que, como é óbvio, abriu e de que maneira o apetite para a nova aventura d'Os Vingadores no grande ecrã. E perguntam vocês caríssimos leitores: Sebastião, valeu então a pena teres aproveitado os descontos da Festa do Cinema para ires ver o filme? Ao que eu vos respondo com toda a convicção: não!

Os Vingadores: A Era de Ultron é intragável, uma saladinha de frutas com utilização excessiva de açúcar para esconder a sua falta de sabor. Por saladinha de fruta entenda-se um conjunto de super-heróis visualmente muito coloridos mas que quando chega a altura de se desenvolverem como personagens se tornam bonecos de cera unicolor. E por açúcar entenda-se efeitos especiais e avalanches de humor (ineficaz). E por sabor entenda-se diversão e entretimento.

E por intragável... bem, entenda-se isso mesmo, porque é o melhor adjectivo a utilizar nesta sequela que, mesmo dentro do género dos blockbusters, é uma tamanha desilusão e uma experiência cinematográfica inócua. Não há um pingo de originalidade (para onde quer que olhemos, há sempre a sensação de que já vimos isto nalgum lado, tal como tinha acontecido no primeiro capítulo quando, na batalha final, de repente nos lembrámos dos Transformers), uma qualquer vontade de trazer algo de novo ao universo dos Vingadores e, olhando para as duas mais recentes produções da Marvel, ambas surpreendentes e mais que conseguidas (Capitão América: O Soldado do Inverno e Guardiões da Galáxia), é triste ver que os estúdios deram um enorme passo atrás. Juntem a isto ainda os cenários de uma pobreza extrema, cenas de acção que não satisfazem e problemas enormes de ritmo e sentido narrativo, e o caldo está entornado pelo chão.

É-nos apresentado um novo vilão, Ultron, uma forma de inteligência artificial que é criada para ajudar a manter a paz até que, surpresa das surpresas, descobre que os humanos são maus e por isso decide combater os Vingadores. Terá a ajuda dos gémeos mutantes Scarlet Witch e Quicksilver, duas interessantes personagens que ainda proporcionam alguns dos poucos momentos de verdadeiro relevo, embora acabem por ser vítimas do argumento demasiado preocupado em fazer do filme uma sit-com (já volta a este ponto). Ora bem, Ultron aparece pela primeira vez numa cena excelente: vê-mo-lo nascer do nada, sem corpo, apenas com uma voz electrónica e percorrendo rios de informação. Depois desta introdução visualmente inteligente, o antagonista vai-se tornando básico e mais básico, chato até mais não e, entretanto, fácil de derrotar (numa luta final igual à d'Os Vingadores de 2012, desta vez com direito a umas quantas cheesy lines).

Porque é que ainda demora algum tempo até ao mau da fita perder esta batalha. Porque os protagonistas super-heróicos vão passar metade do filme às turras uns com os outros, em lutas de testosterona e birras de criancinhas da cresce. Com isto não há uma única personagem com quem cheguemos a criar qualquer tipo de empatia: Tony Stark continua um teimoso convencido (o ar arrogante de Robert Downey Jr. também não ajuda); Thor continua um deus chato como tudo (como raio é que ainda vai ter um terceiro filme a solo!?) e é ainda figura principal numa das cenas mais confusas do filme; Capitão América volta a ser um adereço oco que continua com a história do "andei adormecido mais de meio século..."; já Hulk e Viúva Negra protagonizam um romance que ninguém previa mas que acaba por tomar caminhos absolutamente cliché.

No meio disto tudo surge um Hawkeye completamente renovado. Ao contrário da insipidez que o caracterizava no primeiro filme (era de longe o mais fraco e desinteressante herói), o arqueiro interpretado por Jeremy Renner é agora uma personagem digna da nossa atenção, visto ser a única que evolui ao longo da narrativa, a única a ter uma personalidade relativamente carismática e aquela por quem realmente torcemos, tais são as novidades apresentadas em relação à sua vida pessoal (ao invés dos seus companheiros, que têm a espessura de um cabelo e a personalidade de uma cabeleira postiça).

Espaço agora para a espinha, ou neste caso, o caroço que me ficou mesmo atravessado na garganta no final desta salada de fruta. Sim, tudo o mencionado acima é extremamente irritante, mas nada chega aos calcanhares do maior mal de toda a fita: o humor da mesma. Não tenho nada contra uma pitada de comédia neste tipo de filmes, antes pelo contrário: sou fã do sarcasmo da Marvel e um comic relief calha sempre bem quando somos bombardeados com acção e jargão científico-tecnológico. Agora, o que se fez em Os Vingadores: A Era de Ultron não é comic relief, não é sarcasmo e não é, decididamente, humor. É apenas preencher lacunas nos diálogos (já em si fracos como tudo) com one liners escusadas cujo resultado é matar momentos que se queriam sérios e sombrios. Pode parecer atitude de hater gonna hate dizer que o pior de um filme é a sua quantidade excessiva de piadas, mas façam vocês a experiência, tentem ver uma aventura de super-heróis de quase duas horas e meia onde de meio em meio minuto (não cronometrei, mas a média há de andar à volta destes valores), independentemente do que se esteja a passar no ecrã seja uma cena comovente ou de pancadaria, tem de surgir uma graçola. Ao menos podiam fazê-las eficazes, mas bolas!, o quão difícil é rir com 90% delas.

Ao menos ainda dei uma gargalhada. Foi quando saí da sala e me apercebi que tinha acabado de queimar um bilhetes a €2,5 num blockbuster vazio e falhado. Só me consegui rir de mim mesmo. Mais valia ter ido rever o Capitão Falcão: contribuía para uma produção nacional que bem merece (e que, infelizmente, não está a ter o devido sucesso) e deixava Os Vingadores: A Era de Ultron para quando passasse nas tardes de sábado na SIC, o lugar perfeito para um filme intragável como este. Que venha a sequela dos Guardiões da Galáxia para esquecer rapidamente este passo em falso da Marvel.

3/10

sábado, 9 de maio de 2015

Cobain: Montage of Heck

COBAIN: MONTAGE OF HECK
de Brett Morgen
com: Courtney Love, Wendy O'Connor, Krist Novoselic,
Kim Cobain, Don Cobain, Jenny Cobain e Tracey Marander
Ainda há uns tempos andava a ver a programação dos canais que tenho na box da Cabovisão cá em casa e apanhei no Odisseia (ou lá onde era) um documentário dos Nirvana. A julgar pela sinopse não era aquele que tinha visto há uns dois anos no canal História nem um outro que apanhei já quase nos créditos finais há ainda mais tempo. Decidi então ir mas é fazer o download de Cobain: Montage of Heck (ainda sem saber se as legendas que circulavam na altura pela internet seriam para este mais recente trabalho de Brett Morgen ou só ainda para About a Son de 2006), mas como a ligação ao modem cá de casa estava lenta até dizer chega, decidi ir ler uma pequena biografia dos Nirvana que comprei numa feira de velharias no ano passado.

Serve esta introdução desleixada para mostrar que, no que toca a biografias, programas televisivos e documentários sobre a banda de grunge mais famosa de sempre e, principalmente, sobre o seu líder, temos material para nos entretermos durante meses. A missão de Cobain: Montage of Heck era, portanto, distanciar-se e ir mais fundo do que os estudos anteriormente feitos focados em Kurt Cobain. Para isso, Brett Morgen, com a devida autorização da família, mergulhou em cadernos, gravações, fotos, desenhos e tudo o que de mais pessoal o guitarrista/vocalista/letrista dos Nirvana deixou ao mundo antes de cometer suicídio, dando assim início à construção de um filme que entra na cabeça do músico como poucos documentários biográficos conseguem fazer.

Os testemunhos das pessoas (desde os óbvios Krist Novoselic e Courtney Love até à sua praticamente desconhecida primeira namorada) que de mais perto assistiram à auto-destruição de Cobain juntam-se também ao material escrito e sonoro e fica assim completo o quadro que irá ilustrar a vida do ícone musical dos anos 90 desde o seu nascimento até à sua morte. Há um grande trabalho técnico em torno da exibição da pesquisa de Morgen, como alguns momentos da vida adolescente do músico em formato desenho animado ou a maneira perturbadora como se dá vida aos desenhos e pequenos rascunhos dos cadernos de Kurt Cobain, e há que louvar como o realizador nunca se perde no meio de tanto material recolhido, conseguindo-o montar cronologicamente e interligá-lo logicamente com as entrevistas de amigos e familiares.

E, como disse no segundo parágrafo, Cobain: Montage of Heck entra e de que maneira na cabeça de Kurt, conduzindo-nos desde a sua ingenuidade de criança até ao líder de um geração que nunca quis ser. É interessante ver como, à medida que o documentário avança, os testemunhos de familiares e amigos começam a desaparecer para dar lugar a vídeos caseiros e a imagens dos concertos dados já quase no final da sua vida. Vemos tudo do ponto de vista do músico, e por isso vamos perdendo contacto com os seus entes queridos para nos vermos rodeados apenas pelas suas angústias, cansaço e desagrado com tudo o que o rodeava. Por isso Morgen pára de entrevistar e de nos mostrar aqueles com quem Kurt cortou relações a determinada altura; por isso ele não perde tempo a perguntar à mãe ou a Courtney Love (que, diga-se de passagem, continua irritantemente a "lavar as mãos" em relação à decadência do marido, quando todos sabem que, mesmo não tendo sido ela a pressionar no gatilho, foi uma das pessoas que carregou a arma) como elas se sentiram quando receberam a notícia da morte do seu filho e marido: Cobain não o soube, então nós, que vemos tudo a partir do seu "estômago dorido", também não o vamos saber.

Isto eleva o nível de intimidade do documentário quase ao máximo. E por isso a sua visualização é tão difícil e, ao mesmo tempo, extremamente comovente. Porque a forma como nos aproximamos da personalidade "cobainiana" põe-nos a sentir desolados com os maus caminhos que o rapazote louro e brincalhão que conhecemos nos primeiros minutos do filme nos vídeos da sua mãe toma. É como se estivéssemos a assistir à morte lenta de um filho, de uma amigo, de um tipo porreiro e sensível que podia muito bem ter sido um habitante normal da pequena cidade de Aberdeen mas que se aventurou pelo sonho de ser um rebelde agarrado à guitarra para acabar a viver um pesadelo do qual dificilmente poderia alguma vez acordar. Daí o surgimento dos mil e um arrepios que nos percorrem a espinha quando nos deparamos com um qualquer desabafo escrito ou sonoro que Cobain profere...

Mas pontos negativos também os encontramos pelo filme. Um deles, não sendo propriamente um ponto negativo, apenas um inconveniente para o próprio documentário, é o facto de este estar dirigido exclusivamente para os fãs dos Nirvana (e quando digo fãs não incluo aqueles que pensam que a banda se resume a Nevermind - ou à música de abertura do dito álbum - nem os que acham um piadão usar uma t-shirt com um smile tremido sem saberem o significado desse mesmo logótipo). Alguém que goste de ouvir apenas a música da banda mas que nunca se deu ao trabalho de pesquisar sobre os seus "bastidores" ou que pura e simplesmente queira descobrir pela primeira vez um pouco sobre a última grande personalidade de culto da música há de andar meio perdido nas mais de duas horas de duração da longa-metragem. Tirando um ou outro excerto de notícias televisivas e páginas de jornais, não existe um narrador a contextualizar os registos visuais e sonoros de Cobain, não há uma única legenda a dizer "em mil novecentos e noventa e qualquer coisa os Nirvana fizeram isto ou aquilo", a única coisa que nos conduz pela vida do artista é o seu próprio ponto de vista, e, a não ser que se tenha o "trabalho de casa" feito, um ou outro momento do filme pode perder o interesse.

Eu próprio sendo fã incondicional dos Nirvana e já tendo lido a auto-biografia de Kurt Cobain não pude deixar de ficar meio desiludido com alguns aspectos da fita. Sente-se que Cobain: Montage of Heck seja demasiado longo. Mostram-se inúmeros minutos de vídeos caseiros (quantos mais terão ficado de fora?) para representar a vida banal e familiar do músico com a sua mulher e, nos últimos momentos, com a sua filha, quando muitos deles são desnecessários. Gravações de concertos que já todos vimos, rabiscos em cadernos que repetem ideias já mais que transmitidas... Há um exagero despropositado de Morgen em desenhar o estado mental de Kurt com a utilização de demasiados exemplos do mesmo, quando seria facilmente representado com metade da matéria prima existente.

Contudo, poucos serão os admiradores desse ícone do mundo da música que não perdoarão alguns excessos do realizador para trazer de volta todo o espírito do homem com o qual uma geração inteira se identificou. E, se a palavra definitivo é muitas vezes usada em vão, ela pode e bem ser aplicada para descrever Cobain: Montage of Heck, o documentário que leva o público ao encontro de Kurt Cobain, apresentando-se como um retrato cativante, íntimo e igualmente assustador.

8/10

domingo, 19 de abril de 2015

Uma pausa


Serve este texto para anunciar que vou fazer uma pequena pausa da escrita. Porquê? Porque nos últimos tempos tenho vindo a perder muita vontade e prazer em opinar sobre os filmes que vou vendo. Ter que estar sempre atento ao que vai estrear na semana X e na semana Y, ver uma fita com a cabeça constantemente a pensar quantas estrelas lhe vou dar e outros aspectos de ordem pessoal cansaram-me muito, e sinto que o melhor que tenho a fazer é passar os próximos meses em celibato de escrita.

Esta decisão levou-me, com muita tristeza, a abandonar o Espalha-Factos por tempo indefinido, e o mesmo se vai passar com o blog. A não ser que veja um filme excepcional e tenha os dedos ansiosos por teclar sobre ele, nenhum artigo será publicado no Milímetro a Milímetro até pelo menos Setembro. Até lá muitas mudanças irão acontecer na minha vida de estudante e não só, e vou precisar de muito mais tempo para me organizar "cá fora", o que me leva, consequentemente, a ter cada vez menos disponibilidade para continuar "cá dentro", na blogosfera.

Para além disto, vou neste meu hiato restabelecer hábitos. Apetece-me voltar a ser aquele rapaz que chegava a casa todo contente porque tinha dois filmes novos gravados na box da Cabovisão, que à noite lia uns cinco ou seis capítulos de uma coisita que encontrava nas estantes dos pais, que se deitava na cama e ouvia uma playlist qualquer no iPod... Mal acabem os exames vou "papar" todas as referências que me faltam (se me quiserem sugerir nomes e títulos, não só relativos ao cinema mas também a outras artes, deixem nos comentários) e ver se começo a desenvolver mais a minha escrita, que ultimamente anda muitos furos abaixo do nível que por breves momentos consegui atingir.

Peço por isso aos leitores e seguidores do blog que me desculpem não por esta pausa mas por ter andado a escrever críticas sem vontade e sem qualquer prazer (e espero que isso não se tenha notado tanto quanto penso). Em relação a este intervalo, peço apenas compreensão. Estarei de volta depois do Verão, com muita mais qualidade e alegria em opinar sobre cinema.

Até à próxima.