segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

The Revenant

THE REVENANT
de Alejandro González Iñárritu
com: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson,
Will Poulter e Forrest Goodluck
Iñárritu não consegue fazer um mau filme. Aliás, não consegue mesmo fazer um filme que não seja, no mínimo, bom. Começou logo com o visceral Amor Cão, seguiram-se os curiosos 21 Gramas e Babel para completar a Trilogia da Morte, regressou com impacto aos filmes de língua espanhola em Biutiful e, no ano passado, atingiu o ponto alto da carreira com o infinitamente premiado Birdman. A carreira nem é longa, e os filmes por ele assinado são ainda escassos, mas parece natural aguardar com elevadas expetativas os seus trabalhos.

É precisamente com essas elevadas expetativas que estreia hoje nas nossas salas The Revenant, a sua mais recente obra. À sua já conhecida mestria na cadeira de realizador (com os planos sequência como imagem de marca) voltou-se a juntar o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki e um elenco de luxo, onde figuram alguns dos nomes mais sonantes do panorama atual do cinema, com Leonardo DiCaprio e Tom Hardy à cabeça. Adaptação do livro com o mesmo título de Michael Punke, a narrativa desenrola-se no início do século XIX, em plena época de luta entre americanos e índios. Hugh Glass é o seu protagonista: um osso duro de roer que ajuda a fação militar liderada pelo Capitão Andrew Henry a caçar peles de animais. Contudo, após lutar contra uma ursa, Glass é gravemente ferido e, de seguida, traído por Fitzgerald, que o deixa entregue a uma morte certa.

O que se segue é a jornada de Glass por florestas e cascatas e precipícios e mais uma série de perigosos caminhos que terá de percorrer para se reunir com os seus companheiros e conseguir a sua vingança. Este percurso dá, felizmente, lugar a poucos diálogos e ao predomínio da mímica e das expressões faciais de DiCaprio. Porquê felizmente? Porque o argumento falado é francamente fraco, ainda para mais em contraste com outros aspetos absolutamente estrondosos que se podem encontrar em The Revenant (e dos quais irei falar mais à frente): é dominado por clichés, por exposição, por conversas que não raras vezes não conseguem passar de um nível banal. As interpretações do elenco, e em especial a de DiCaprio (já que a sua personagem está ora incapacitada de falar devido aos ferimentos causados pelo urso, ora completamente sozinha), são fantásticas, aí sim, nas cenas em que não falam, em que batalham contra índios ou contra a própria natureza, em que os seus pensamentos interiores e sentimentos têm que ser expressados corporalmente. Não que eles não saibam proferir as suas deixas, longe disso, mas porque as mesmas não estão ao nível daqueles que as interpretam.

Não obstante, este é um problema que podemos ignorar facilmente. A força dos atores lá consegue ir disfarçando uma ou outra fala mais fraca e a nossa atenção está longe de estar aí concentrada. Cria-se uma poderosa atmosfera que nos transporta para o centro filme sem nunca nos abandonar. Ver The Revenant é sentirmo-nos arranhados pela ursa, é estarmos gelados no meio da neve, é ter vertigens dos precipícios… é uma grande experiência em sala que muito tem de agradecer a mais um sublime trabalho de fotografia de Lubezki (se há justiça no mundo, vem aí o seu terceiro Oscar consecutivo) e à realização brutal de Iñárritu. Entre a beleza das paisagens naturais (o próprio realizador evitou green screens, caso contrário o filme seria, nas suas palavras, “um pedaço de merda”) e os planos fechados nas personagens, não há como escapar ao pesadíssimo ambiente do filme e, muito tempo depois de rolarem os créditos finais, ainda nos sentimos presos às imagens a que acabámos de assistir.

A simples (e, a dado momento, previsível) história de vingança de Glass torna-se assim numa aventura que nos tira o fôlego e nos coloca com os nervos à flor da pele. Frio, cruel, visceral e não poupando na violência das imagens, o filme transforma em fascinante aquilo que, nas mãos de outro realizador, se poderia tornar saturante. Duas horas e meia a seguir um homem sozinho na neve? Ou se sabe o que se está a fazer ou não demorará muito até que a extensa duração comece a sentir-se. E Iñarritu sabe melhor que ninguém o que está a fazer: não só representando realisticamente tudo aquilo com que Glass se depara na sua viagem, mas também tocando nalguns pontos interessantes daquela fase da história americana e recriando fielmente uma época tensa, caraterizada pela selvajaria do ser humano e pela sua perda de valores éticos e morais, o realizador prende o espectador do início ao fim, levando ao limite as suas personagens (e atores que as interpretam) para que estas ofereçam uma experiência fortíssima. Não se pode dizer que o ritmo se mantenha constante ao longo de toda a fita (os flashbacks à la Malick pouco acrescentam e quebram, por momentos, o tom do filme), mas também é inegável que, a partir de uma narrativa à primeira vista muito escassa em sumo, se consegue espremer muita emoção, muita brutalidade e, acima de tudo, muita qualidade.

E que dizer dos dois atores principais? Sim, porque para além de DiCaprio temos ainda um Tom Hardy brilhante e que talvez até consiga surpreender mais gente (e que, inexplicavelmente, parece não estar a ter o devido reconhecimento nesta award season). DiCaprio tem uma performance impecável, um das melhores da sua carreira, num registo um pouco diferente daquele a que nos habituou, mas Hardy espanta não só por uma interpretação excelente mas também pela forma como nos faz detestar o seu Fitzgerald. Se até agora as suas personagens eram geralmente “gostáveis”, desta vez conseguiu criar um antagonista perfeito. Nos papéis secundários, destaque para Domhnall Gleeson, ator em clara ascensão e que, a cada filme que faz, vai dando mais e mais provas de grande talento e versatilidade.

Afirmando-se, assim, como um dos grandes candidatos a todos os Oscars para os quais está nomeado, servido de uma fabulosa realização e de performances por parte do seu elenco, The Revenant é um das grandes experiências a que temos agora oportunidade de ver no cinema (só as paisagens em ecrã gigante valem cada cêntimo do bilhete). Pode pecar apenas por incluir alguns pormenores que não estão no livro para transformar Glass numa personagem mais relacionável (e nem é por acaso que é daí que nascem as piores fases do argumento), mas, quando um filme deste calibre nos deixa de tal forma abalados e nos acompanha muito depois de sairmos da sala, não são estes pequenos detalhes que lhe retiram todo o valor.

8,5/10

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