sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A Visita

THE VISIT
de M. Night Shyamalan
com: Olivia DeJonge, Ed Oxenbould, Deanna Dunagan,
Peter McRobbie e Kathryn Hahn
NOTA: A Visita foi o filme de abertura do MOTELx e já falei sobre ele no Espalha-Factos, já que é pelo site que estou a cobrir o festival. Esta trata-se, por isso, de uma segunda crítica onde expresso a exata mesma opinião mas onde pude alargá-la. O resultado não foi grande coisa (o cansaço de escrever todos os dias três pequenas críticas já se faz sentir) e por isso, caso não fiquem satisfeitos com o que se segue, convido-vos a lerem a reportagem do primeiro dia do MOTELx aqui.

Decorria o ano de 1999 quando estreou O Sexto Sentido. Embora este não fosse o primeiro filme que realizava, M. Night Shyamalan era um novato nestas andanças da sétima arte, com apenas dois e discretos títulos no currículo. Porém, foi com o lançamento deste thriller que ganhou logo uma grande base de fãs e o apreço dos críticos, e O Sexto Sentido acabou, entre tantas outras nomeações, indicado a seis Oscars. Mas a carreira promissora que se avistava no horizonte (chegou a ser tido como “o novo Spielberg”) cedo começou a desenvolver-se ao ritmo de uma estrela cadente…

Estamos hoje em 2015 e podemos afirmar que Shyamalan é um fascinante case study. Como é possível que o homem por detrás de O Sexto Sentido (e já agora de O Protegido e Sinais, as duas longas que se seguiram e que são até bastante interessantes) tenha batido no fundo tão rápido? Um fundo que ora dá pelo nome de O Acontecimento, ora se chama A Senhora da Água, ora se apelida de O Último Airbender. O seu último filme, Depois da Terra, foi até uma desilusão na box-office e a produtora tentou esconder o seu nome nas campanhas de promoção. Shyamalan tornou-se, em década e meia, sinónimo de fracasso.

Eis então que nos chega A Visita, o seu mais recente trabalho que marca um regresso às origens e ao género do terror/thriller. Adotando agora o estilo found footage, Shyamalan narra a semana que os irmãos Becca e Tyler passam com os seus avós, que nunca conheceram, numa vila pacata e isolada. Só que uns dias que se previam calmos e tranquilos afinal tornam-se num inferno quando os dois jovens testemunham vários comportamentos sinistros dos seus familiares.

Esta é a sinopse típica de uma fita deste género. E A Visita de facto não se diferencia muito de tantas outras coisas de terror que por aí estreiam: oferece um par de bons jump scares mas 90% dos sustos acabam por ser previsíveis; nada de grandes atores nem grandes diálogos; uma grande quantidade de clichés irritantes daqueles que na “vida real” dificilmente aconteceriam, desde a câmara que nunca cai direita no chão às personagens que, assustadas e/ou atacadas pelos avós, não deixam nunca cair os seus dispositivos de filmagem (que convenientemente nunca os para de focar); e a inclusão de momentos “fofinhos” que destoa o tom do filme nalgumas cenas.

Há, claro, alguns momentos mais bem conseguidos aqui e acolá. Por exemplo, a personagem, Becca parece representar o pretensiosismo que alguns documentaristas possuem e vai oferecendo umas falas que bem podiam sair da boca de alguns realizadores. O plot twist, indispensável num Shyamalan, embora ponha em causa algumas situações anteriores no filme, não deixa de ser interessante e aumenta a tensão nos instantes finais passados em casa dos avós dos dois jovens protagonistas. A Visita não é assim um filme mau; postos os prós e os contras nos pratos de uma balança, esta ficaria equilibrada.

Contudo, há algo que joga e muito a favor do filme e que o põe uns furos acima do mediano: não se leva muito a sério. Quantos de nós já estão fartos daqueles realizadores presunçosos, com a mania que os seus trabalhos significam um passo em frente no género do terror, quando não passam de um carnaval de lugares comuns sem pingo de genuinidade? O próprio Shyamalan tem feito filmes anedóticos que se tornam insuportáveis porque ele acredita que são, de facto, bons. Desta vez, vemos o ambiente sombrio quebrado não pela bazófia de um cineasta mas sim por umas quantas tiradas cómicas. Por vezes estas são meio parvas, especialmente porque acontecem num contexto onde as personagens estariam demasiado assustadas para se lembrarem de uma piada, mas ao menos tornam o visionamento da fita muito mais divertido, oferecendo umas boas gargalhadas.

Portanto, este não é o filme que marca o regresso em grande de M. Night Shyamalan que alguns esperavam. Mas, tendo em consideração estarmo-nos a rir pela primeira vez em muitos anos com ele e não dele, dá a impressão de que o realizador já aprendeu a lição e se apercebeu dos quão idiotas foram os seus anteriores projetos. Daí até voltar a oferecer-nos uma obra de elevada qualidade pode ser uma questão de tempo… Até lá, temos em sala A Visita, que satisfará os menos exigentes com um bom par de sustos e os entreterá durante uma horita e meia.

6/10

PS.: Entretanto li algures que o Shyamalan está a preparar-se para fazer a sequela d'O Último Airbender. O último parágrafo fica um bocadinho sem efeito, mas vou deixá-lo como está porque, primeiro, não tenho tempo para reescrevê-lo e, segundo, tenho esperanças que o realizador, por milagre, mude de ideias até lá.

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