sexta-feira, 26 de junho de 2015

Os Meus Milímetros Favoritos: NINOTCHKA (1939)

NINOTCHKA
de Ernst Lubitsch
com: Greta Garbo, Melvyn Douglas, Ina Claire,
Sig Ruman, Felix Bressart e Alexander Granach
Ninotchka é uma deliciosa comédia romântica realizada por Ernst Lubitsch em 1939. A narrativa decorre, num entanto, uns anos antes, numa Paris onde “uma sirene ("siren" em inglês, que também significa “mulher sedutora”) era uma morena e não um alarme – e se um francês apagasse a luz não era devido a um raid aéreo.” É nessa Paris pré-II guerra que conhecemos Iranoff, Buljanoff e Kopalski, três simpáticos russos que viajaram à capital francesa ao serviço do estado, com a missão de vender joias confiscadas durante a Revolução de 1917. No entanto, atraídos pelo modo de vida capitalista e influenciados pelo Conde Leon d’Algout (representante da Grande Duquesa Swana, a quem pertencem as joias), os três acabam por se instalar em Paris na suite real de um luxuoso hotel, enquanto a venda que deveriam estar a efectuar para angariar dinheiro para o estado soviético é deixada de lado para dar lugar à diversão e ao luxo.

Até aqui nada parece indicar que o filme se trata de uma comédia romântica. Sim, os três russos andam todos babados com as ideologias capitalistas e em especial com as meninas dos cigarros do hotel; e sim, entre o Conde Leon e a Duquesa Swana há mais que uma relação meramente política. Mas falta algo, uma personagem ou acontecimento que venham dar dinâmica a uma história, até agora, simples e engraçada, porém sem especial encanto. É então que, acabada de chegar da União Soviética, que a destacou após se aperceber que os seus três primeiros enviados nada fizeram para avançar com a venda das joias, conhecemos Nina Ivanovna Yakushova, um verdadeiro Manifesto Comunista andante, tão fria como a Rússia e tão severa quão as políticas soviéticas. Deparando-se com a ineficácia de Iranoff, Buljanoff e Kopalski em desempenhar em condições a sua missão, é Ninotchka (assim é a sua alcunha) quem assume as negociações.

Uma das primeiras decisões que toma com objectivo de avançar com a venda das joias é que não irá sequer entrar em contacto com a Duquesa Swana ou com qualquer dos seus representantes. Contudo, nessa mesma noite acaba por conhecer Conde Leon, sem saber quem ele é e ele também sem qualquer conhecimento do porquê daquela bela russa estar em Paris. Habituado a namoriscos, Leon ajuda Ninotchka a encontrar a Torre Eiffel no seu mapa e segue-a até lá, pois não quer deixar escapar uma mulher tão bela. Inicia-se assim o lado romântico do filme, sem nunca deixar a comédia de parte. As diferenças abismais entre as duas personagens vão levar primeiro a um choque de personalidades e logo a seguir a um confronto de ideologias, estando assim juntos os ingredientes para uma série de episódios hilariantes que servirão para Lubitsch e o seu trio de argumentistas, Billy Wilder, Charles Brackett e Walter Reisch, construírem uma divertida e mordaz sátira ao modelo político e económico da União Soviética.

Ora bem, depois de muito tentar encantar com o seu charme Ninotchka (que se mostra sempre desencantada, chegando a dizer não existirem homens assim no seu país, daí ela estar tão confiante no futuro da nação), Leon lá consegue convencê-la a ir a sua casa (não porque ela não mais resistiu ao seu encanto, mas por considerar o Conde um bom sujeito de estudo). É lá que se dá, depois de nova luta entre palavras poeticamente sedutoras e respostas frias, o primeiro beijo entre os protagonistas. Entramos neste momento na primeira surpresa da narrativa. Em vez de, como é mais comum, seguir com um romance onde as duas partes do casal não sabem que são, à partida, inimigos e só o descobrem numa parte já muito avançada da sua relação, Lubitsch faz com que meros segundos após o primeiro beijo Ninotchka e Leon se apercebam que são rivais nas negociações das joias da Duquesa Swana. Profissional como sempre, a russa decide sair de casa e esquecer que tudo aconteceu, mas o coração que opera acima da lógica do Conde leva-o a continuar a persegui-la, levando-nos até uma das cenas mais engraçadas e não menos bonitas de fita: Leon tentando, num restaurante, fazer a sua amada rir enquanto lhe conta uma série de anedotas, sempre sem sucesso, até que, acidentalmente, cai no chão e vê pela primeira vez Ninotchka a rir às gargalhadas.

É este o ponto de viragem da narrativa. Tal como havia acontecido aos seus três camaradas, a bela russa cede aos encantos da vida ocidental, ainda que continuem a persistir nela algumas das ideologias comunistas que serão mais evidentes quando é confrontada pela Duquesa Swana, esta com medo de perder o Conde e por isso desejosa de terminar o negócio das joias (a seu favor, obviamente) para que o vértice soviético deste triângulo amoroso parta de regresso à sua terra natal. Entre as duas irá existir também uma colisão de ideais, agora entre as duas mentalidades russas, a pré e pós Revolução de 1917. Embora este conflicto esteja presente apenas numa cena, não deixa de ser interessante constatar como, no meio das divertidas piadas e de uma bela história de amor, o filme quer também olhar para vários pontos da então recente história da Europa.

Ninotchka, agora deixando toda a sua beleza (ou melhor dizendo: a beleza dessa musa sueca de nome Greta Garbo) fazer esquecer a sua frieza e desdém inicial e libertando a sua personalidade mais festiva e sentimental, dá por fim a mão e o coração a Leon e os dois, esquecendo que com os negócios que os opunham estão prestes a findar e que o regresso dela à Rússia está para breve, vão vivendo a sua paixão por entre os encantos de Paris. Obstáculos vão aparecendo, como é óbvio, e embora o final feliz seja certo (como o é em 99% dos filmes deste género nesta época) algumas situações ainda nos fazem interrogar, não se a conclusão da película será assim tão alegre, mas como é que os dois protagonistas vão dar a volta às situações mais adversas, fazendo-nos assim estar de olhos fixos no ecrã até ao último minuto.

Durante toda a duração da obra a câmara de Lubitsch vai-se movendo com suavidade pelos cenários e consegue inúmeras vezes captar brilhantemente os sentimentos de cada personagem, especialmente os de Ninotchka, através de planos fechados da sempre expressiva face de Garbo, ela que é a estrela mais brilhante do elenco, sem tirar qualquer mérito aos outros membros. Melvyn Douglas (Conde Leon) apresenta-se inicialmente como um ingénuo romântico mas consegue no final destacar a forte personalidade da sua personagem, enquanto que Ina Claire (Duquesa Swana) apresenta-se sempre má como às cobras. E depois temos o maravilhoso trio Sig Ruman, Felix Bressart e Alexander Granach (os três primeiros enviados da URRS a Paris), que oferecem constantemente gargalhadas à narrativa.

E há sempre um alternar magistral entre a comédia da fita (por vezes até bastante atrevido e a roçar o humor negro, como quando Ninotchka afirma que “os últimos julgamentos em massa [na Rússia] foram um sucesso: vai haver menos mas melhores russos”) e a sua faceta mais comovente. Uma não tira lugar há outra; em vez disso, dão ambas as mãos e fazem de cada momento de Ninotchka uma regalo para os olhos e para o coração. Não vale a pena, aliás, contar o número de diálogos e cenas inesquecíveis: Ninotchka, como um todo, é um pedaço único de verdadeiro espírito cinematográfico.

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