sábado, 27 de junho de 2015

Divertida-mente

INSIDE OUT
de Pete Docter
com as vozes de (V.P.): Carla Garcia, Custódia Gallego,
Bárbara Lourenço, Nuno Pardal, João Baião e Nuno Markl
Ir ao cinema ver filmes da Pixar é sempre a mesma coisa: vejo-os depois de ouvir maravilhas sobre eles e na maioria das vezes (quando não se trata de uma sequela do Carros ou de uma prequela dos Monstros e Companhia) até me deparo com discussões do tipo: “este é o melhor trabalho que o estúdio já nos deu!”. Lembro-me de quando saiu o Wall-E, quando depois estreou o Up e logo a seguir quando chegou o Toy Story 3. Em todas as ocasiões muita gente exclamava a bons pulmões que a Pixar tinha chegado à perfeição. Eu adoro praticamente tudo o que os estúdios já ofereceram, mas nunca tomei um como o melhor: na minha cabeça há uns três ou quatro títulos que rivalizam para chegarem ao topo do pódio, sem nunca conseguirem, ficando sempre “à bulha” num ringue de perfeição de onde nenhum sairá vencedor.

Por isso quando vi, li e ouvi por todo lado que Divertida-mente era a nova obra-prima da Pixar e que era este o seu melhor filme, não elevei, como é habitual, as expectativas. Pensei que ia desfrutar e bem da coisa e que regressaria a casa com mais um concorrente na luta pelo título de melhor animação de sempre dos estúdios. Mas neste momento a única luta que estou a ver é comigo mesmo, porque não sei se tenho coragem para admitir que há, de facto, algo melhor que Toy Story, que Wall-E, que Up, ect... Mas bolas, quando tem de ser, tem de ser: Divertida-mente é o MELHOR FILME QUE A PIXAR JÁ FEZ! Está apenas uns microscópicos pontos acima dos atrás referidos, mas é o que basta para ganhar a competição.

E não é só dentro do universo da animação que Divertida-mente abafa a concorrência. Até agora só falei dele dentro do contexto do estúdio do candeeiro, mas podia ter falado dele noutro contexto qualquer. É pura e simplesmente brilhante! Uma aventura colorida e visualmente original, repleta de personagens inesquecíveis e momentos onde o adjectivo comovente parece insignificante junto daquilo que eles nos fazem sentir. É também um dos trabalhos mais ambiciosos que me lembro e que até tinha tudo para correr mal. Aliás, quando vi o primeiro trailer (onde aparecem fragmentos de uma das cenas mais divertidas do filme), pensei que era uma ideia gira para uma curta-metragem, mas que muito dificilmente resultaria em algo que se conseguisse estender por hora e meia. Oh, mas como se consegue estender, desenrolar, voar durante toda a duração do filme sem nunca tremer!

Como muitos já devem saber, a história tem como protagonista Riley, ou melhor, as sus emoções: Alegria, Tristeza, Raiva, Repulsa e Medo, os cinco elementos que controlam a pré-adolescente de 11 anos. A narrativa começa (depois de uma fascinante preâmbulo narrado pela obviamente jovial Alegria) num período de grandes mudanças na vida de Riley: uma mudança do Minesota, palco de todas as suas memórias de infância, para São Francisco, onde não conhece nada nem ninguém. É com isto que as cinco emoções têm que lidar, até acontecer um grande acidente: a Alegria e a Tristeza são atiradas para fora do quartel-general e vêem-se sozinhas no meio do subconsciente da rapariga, onde se deparam com as suas memórias, os estúdios dos sonhos, o reino da imaginação e até o sítio de entrada proibida onde se dá o pensamento abstracto (coisas que todos sabemos que existem mas que só a Pixar se atreveria a explorar tão inovadoramente).

Esta é a parte do filme destinada essencialmente às crianças. O visual de Divertida-mente oferece imagens criativas e originais que farão as delícias dos mais novos (e dos mais velhos também, embora para eles esteja destinada uma outra vertente da fita – mas já lá vamos), desde a aparência das cinco emoções (cada uma desenhada numa forma muito mais cartoonesca em relação ao que a Pixar tem vindo a fazer) e do amigo imaginário Bing Bong até aos cenários onde decorre toda a jornada da Alegria e da Tristeza de retorno ao quartel-general. E claro, não podia a faltar o humor, bastante inteligente quer a nível visual quer de diálogos, que não toma as crianças como criaturas parvas que só se riem de anedotas de flatulência e afins, a ideia que muitos outros produtos destinados à pequenada tem.

Mas enquanto os miúdos lá se vão entretendo com a colorida história, nós, os mais velhos, vamos levando murros no estômago constantemente. Sim, também nos divertimos por todo o filme (há anos que não via uma sala de cinema maioritariamente composta por adolescentes e jovens adultos a rir tanto), mas, claro, a Pixar não nos podia deixar sem algo para choramingar. Ver as constantes mudanças de comportamento de Riley e a forma como a sua memória se vai alterando e moldando a sua personalidade é tocante a vários níveis (não é por ela ser rapariga que as suas vivências não são universais). É este um dos principais trunfos de Divertida-mente: o seu trabalho intenso de pesquisa sobre psicologia oferece uma perspectiva nunca antes vista sobre a mente humana, dando assim a possibilidade de ilustrar aspectos da nossa vida que dificilmente conseguimos verbalizar (desde os pilares sobre os quais se eleva a nossa personalidade até pequenos mas importantes sentimentos como a nostalgia, que no filme tem uma simples mas belíssima representação visual). Vemos o porquê de nos esquecermos de certas coisas, o como um mero episódio em família vai no futuro continuar a ter influência em nós e, por fim, como a vida é um constante misto de emoções, sem as quais não podemos viver.

Mesmo analisando a história do filme sem todo este deslumbramento (acontece ocasionalmente deixarmos passar alguns elementos menos conseguidos enquanto somos distraídos pela manipulação de sentimentos de algumas fitas) é difícil encontrar algum erro. A ligação entre os actos das cinco emoções e os comportamentos de Riley são sempre bem executados e mesmo quando entremos em várias cabeças diferentes ao mesmo tempo (como acontece na já referida cena que serviu de trailer) nada se torna confuso. Não há um momento aborrecido, havendo sempre muita acção ou humor, nem plot holes, embora se deixem algumas pontas soltas, se bem que trabalhar nelas seria desperdiçar tempo.

Divertida-mente é, portanto, mais que uma mera animação. É um espelho e ao mesmo tempo um raio-X, uma história contada não só para nós mas principalmente a partir de nós. Tal como todas as grandes obras, põe-nos a pensar mesmo depois de sairmos da sala. E enquanto lá estamos dentro, experienciamos um verdadeiro turbilhão de sentimentos, desde a mais pura diversão até à comoção agridoce. Uma obra-prima universal, original em praticamente todas as camadas visuais e emotivas, que há-de pôr os cinco “comandantes” da nossa cabecinha mais vivos que nunca.

10/10

1 comentário:

  1. "Divertida-Mente": 5*

    Estava reticente acerca de "Divertida-Mente" pois é um filme de animação e já não sou muito fã, mas surpreendeu-me pela positiva.
    Este filme é fantástico e recomendo que vejam "Inside Out", pois tem uma maravilhosa história e mexe com os nossos sentimentos.

    Cumprimentos, Frederico Daniel.

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