sábado, 9 de maio de 2015

Cobain: Montage of Heck

COBAIN: MONTAGE OF HECK
de Brett Morgen
com: Courtney Love, Wendy O'Connor, Krist Novoselic,
Kim Cobain, Don Cobain, Jenny Cobain e Tracey Marander
Ainda há uns tempos andava a ver a programação dos canais que tenho na box da Cabovisão cá em casa e apanhei no Odisseia (ou lá onde era) um documentário dos Nirvana. A julgar pela sinopse não era aquele que tinha visto há uns dois anos no canal História nem um outro que apanhei já quase nos créditos finais há ainda mais tempo. Decidi então ir mas é fazer o download de Cobain: Montage of Heck (ainda sem saber se as legendas que circulavam na altura pela internet seriam para este mais recente trabalho de Brett Morgen ou só ainda para About a Son de 2006), mas como a ligação ao modem cá de casa estava lenta até dizer chega, decidi ir ler uma pequena biografia dos Nirvana que comprei numa feira de velharias no ano passado.

Serve esta introdução desleixada para mostrar que, no que toca a biografias, programas televisivos e documentários sobre a banda de grunge mais famosa de sempre e, principalmente, sobre o seu líder, temos material para nos entretermos durante meses. A missão de Cobain: Montage of Heck era, portanto, distanciar-se e ir mais fundo do que os estudos anteriormente feitos focados em Kurt Cobain. Para isso, Brett Morgen, com a devida autorização da família, mergulhou em cadernos, gravações, fotos, desenhos e tudo o que de mais pessoal o guitarrista/vocalista/letrista dos Nirvana deixou ao mundo antes de cometer suicídio, dando assim início à construção de um filme que entra na cabeça do músico como poucos documentários biográficos conseguem fazer.

Os testemunhos das pessoas (desde os óbvios Krist Novoselic e Courtney Love até à sua praticamente desconhecida primeira namorada) que de mais perto assistiram à auto-destruição de Cobain juntam-se também ao material escrito e sonoro e fica assim completo o quadro que irá ilustrar a vida do ícone musical dos anos 90 desde o seu nascimento até à sua morte. Há um grande trabalho técnico em torno da exibição da pesquisa de Morgen, como alguns momentos da vida adolescente do músico em formato desenho animado ou a maneira perturbadora como se dá vida aos desenhos e pequenos rascunhos dos cadernos de Kurt Cobain, e há que louvar como o realizador nunca se perde no meio de tanto material recolhido, conseguindo-o montar cronologicamente e interligá-lo logicamente com as entrevistas de amigos e familiares.

E, como disse no segundo parágrafo, Cobain: Montage of Heck entra e de que maneira na cabeça de Kurt, conduzindo-nos desde a sua ingenuidade de criança até ao líder de um geração que nunca quis ser. É interessante ver como, à medida que o documentário avança, os testemunhos de familiares e amigos começam a desaparecer para dar lugar a vídeos caseiros e a imagens dos concertos dados já quase no final da sua vida. Vemos tudo do ponto de vista do músico, e por isso vamos perdendo contacto com os seus entes queridos para nos vermos rodeados apenas pelas suas angústias, cansaço e desagrado com tudo o que o rodeava. Por isso Morgen pára de entrevistar e de nos mostrar aqueles com quem Kurt cortou relações a determinada altura; por isso ele não perde tempo a perguntar à mãe ou a Courtney Love (que, diga-se de passagem, continua irritantemente a "lavar as mãos" em relação à decadência do marido, quando todos sabem que, mesmo não tendo sido ela a pressionar no gatilho, foi uma das pessoas que carregou a arma) como elas se sentiram quando receberam a notícia da morte do seu filho e marido: Cobain não o soube, então nós, que vemos tudo a partir do seu "estômago dorido", também não o vamos saber.

Isto eleva o nível de intimidade do documentário quase ao máximo. E por isso a sua visualização é tão difícil e, ao mesmo tempo, extremamente comovente. Porque a forma como nos aproximamos da personalidade "cobainiana" põe-nos a sentir desolados com os maus caminhos que o rapazote louro e brincalhão que conhecemos nos primeiros minutos do filme nos vídeos da sua mãe toma. É como se estivéssemos a assistir à morte lenta de um filho, de uma amigo, de um tipo porreiro e sensível que podia muito bem ter sido um habitante normal da pequena cidade de Aberdeen mas que se aventurou pelo sonho de ser um rebelde agarrado à guitarra para acabar a viver um pesadelo do qual dificilmente poderia alguma vez acordar. Daí o surgimento dos mil e um arrepios que nos percorrem a espinha quando nos deparamos com um qualquer desabafo escrito ou sonoro que Cobain profere...

Mas pontos negativos também os encontramos pelo filme. Um deles, não sendo propriamente um ponto negativo, apenas um inconveniente para o próprio documentário, é o facto de este estar dirigido exclusivamente para os fãs dos Nirvana (e quando digo fãs não incluo aqueles que pensam que a banda se resume a Nevermind - ou à música de abertura do dito álbum - nem os que acham um piadão usar uma t-shirt com um smile tremido sem saberem o significado desse mesmo logótipo). Alguém que goste de ouvir apenas a música da banda mas que nunca se deu ao trabalho de pesquisar sobre os seus "bastidores" ou que pura e simplesmente queira descobrir pela primeira vez um pouco sobre a última grande personalidade de culto da música há de andar meio perdido nas mais de duas horas de duração da longa-metragem. Tirando um ou outro excerto de notícias televisivas e páginas de jornais, não existe um narrador a contextualizar os registos visuais e sonoros de Cobain, não há uma única legenda a dizer "em mil novecentos e noventa e qualquer coisa os Nirvana fizeram isto ou aquilo", a única coisa que nos conduz pela vida do artista é o seu próprio ponto de vista, e, a não ser que se tenha o "trabalho de casa" feito, um ou outro momento do filme pode perder o interesse.

Eu próprio sendo fã incondicional dos Nirvana e já tendo lido a auto-biografia de Kurt Cobain não pude deixar de ficar meio desiludido com alguns aspectos da fita. Sente-se que Cobain: Montage of Heck seja demasiado longo. Mostram-se inúmeros minutos de vídeos caseiros (quantos mais terão ficado de fora?) para representar a vida banal e familiar do músico com a sua mulher e, nos últimos momentos, com a sua filha, quando muitos deles são desnecessários. Gravações de concertos que já todos vimos, rabiscos em cadernos que repetem ideias já mais que transmitidas... Há um exagero despropositado de Morgen em desenhar o estado mental de Kurt com a utilização de demasiados exemplos do mesmo, quando seria facilmente representado com metade da matéria prima existente.

Contudo, poucos serão os admiradores desse ícone do mundo da música que não perdoarão alguns excessos do realizador para trazer de volta todo o espírito do homem com o qual uma geração inteira se identificou. E, se a palavra definitivo é muitas vezes usada em vão, ela pode e bem ser aplicada para descrever Cobain: Montage of Heck, o documentário que leva o público ao encontro de Kurt Cobain, apresentando-se como um retrato cativante, íntimo e igualmente assustador.

8/10

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