quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Selma: A Marcha da Liberdade

SELMA
de Ava DuVernay
com: David Oyelowo, Carmen Ejogo, Tom Wilkinson,
Stephan James, Andre Holland e Tim Roth
Foi o último nomeado ao Oscar de Melhor Filme a chegar às salas portuguesas e aquele que, devido à sua temática e ao seu protagonista, se previa como um dos biopics mais esperados da temporada. E, numa altura onde os prémios da Academia e este género de películas parecem estar a perder credibilidade, Selma: A Marcha Pela Liberdade revela-se uma boa surpresa.

O filme retrata os acontecimentos que antecederam à marcha da cidade que dá título à obra e como Martin Luther King enfrentava os seus opositores. É-nos mostrada a forma como o ativista via e combatia todas as adversidades da comunidade negra dos EUA, numa década de 60 cheia de tensão no tema racial.

Este é, portanto, uma longa-metragem com bastante potencial, ou não tratasse de uma tema que nos dias que correm continua a ser tão discutido e polémico (não esquecer que estreou nos EUA no final de 2014 numa altura onde o racismo voltava às primeiras páginas com o assassinato de jovens negros por polícias brancos). Mas ao contrário de alguns biopics que por terem como base uma incrível história verídica pouco se esforçam para serem bons por mérito próprio, como ainda recentemente se viu em O Jogo da Imitação, Selma procura tornar-se numa experiência diferente, tentando a todo o custo transportar para o espetador o sentimento de revolta e injustiça da comunidade negra e do próprio Martin Luther King.

Consegue? Sem dúvida. Com grande ênfase dado aos acontecimentos mais violentos e não poupando na força visual e psicológica de cada cena, a realizadora Ava DuVernay expõe toda aquela tensão vivida há 50 anos atrás chocando o público e fazendo-nos viver de perto os dramas de cada um dos intervenientes, desde o principal, King, até às personagens mais secundárias com quem rapidamente criamos empatia. A cineasta sabe jogar com slow-motion, música e mais uns quantos detalhes para construir cenas onde não nos podemos sentir senão abalados com a realidade das imagens, que vão certamente arrepiar a espinha a qualquer um.

Porém, quando o foco é dado inteiramente a Martin Luther King, começam a ser evidenciadas maiores caraterísticas do filme biográfico tradicional, como uma realização mais convencional e criação de dramas familiares um pouco cliché. Mas Selma não se deixa consumir totalmente pelos defeitos quase inevitáveis do biopic e vai fugindo inclusivamente de alguns. Não se põe a encher chouriços com flashbacks inúteis ou cenas fofinhas nada plausíveis. Não faz referências idiotas a ícones da época só para dizer “olha para mim, sou um filme dos anos 60!”. Selma é um filme sério e sabe que está a tratar de um tema sensível e que está a transportar para o grande ecrã uma das maiores personalidades do século passado.

É acima de tudo o filme bem ritmado, onde nenhum minuto parece desperdiçado e onde a alternância entre cenas fortes e momentos de maior desenvolvimento da narrativa estão muito bem sincronizados. Nunca se torna desinteressante ou parado, principalmente pelo constante despertar de sentimentos que provoca em nós público, e isso é o essencial quando se trata um tema como o racismo no grande ecrã. E no meio deste tópico tão delicado e trágico, há espaço para aqui e ali surgirem segmentos mais alegres ou, pelo menos, não tão fortes, o que possibilita à audiência “respirar”.

Olhando para o elenco não há muito a apontar. Desde os atores principais aos secundários, é difícil encontrar defeitos (só se lamenta o sotaque do Texas de Tim Roth). As atenções estavam obviamente voltadas para David Oyelowo, a quem coube a tarefa de interpretar Martin Luther King. A sua performance é fabulosa, recriando todos os gestos caraterísticos do ativista e copiando com exatidão o seu discurso (por momentos parece que estamos a ouvir gravações do próprio King) e é sem dúvida uma das melhores do ano.

Selma sabe aproveitar uma grande história para, através de uma realização eficaz, um punhado de grandes atores e uma excelente banda sonora (merecia talvez mais algumas nomeações para os Oscars…), se tornar num filme muito bom, capaz de fazer justiça a Martin Luther King e à época que retrata. Está muitos furos acima do típico biopic, conseguindo até diferenciar-se nalguns aspetos da maioria das obras do género, e tem um impacte assinalável no público. Fazem falta mais biografias cinematográficas como esta.

8/10

1 comentário:

  1. "Selma: A Marcha da Liberdade" é um filme demasiado longo, fazendo que se torne algo enfadonho e aborrecido. O filme é bom, é interessante e tem um bom elenco.
    Mas "Selma" torna-se algo cansativo de ver devido a ser enorme, contudo recomendo que o vejam.
    3*
    Pode ler e/ou comentar a análise completa em: http://osfilmesdefredericodaniel.blogspot.pt/2015/03/selma-marcha-da-liberdade.html
    Cumprimentos, Frederico Daniel.

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