sábado, 28 de fevereiro de 2015

Relatos Selvagens

RELATOS SALVAJES
de Damián Szifrón
com: Darío Grandinetti, Rita Cortese, Julieta Zylberberg,
Leonardo Sbaraglia, Walter Donado, Ricardo Darín,
Oscar Martínez, Osmar Núñez, Germán de Silva,
Érica Rivas e Diego Gentile
O representante argentino dos Oscars é a prova viva de que o humor negro ainda está bem presente no cinema contemporâneo. Relatos Selvagens é uma comédia contada em seis pequenas histórias, todas elas satirizando a natureza mais negra e selvagem do ser humano ao levar ao extremo situações do quotidiano.

Ao invés de algumas obras cuja narrativa é dividida em segmentos protagonizados por diferentes personagens, Relatos Selvagens não cria um ponto de relação entra a sua meia dúzia de peripécias, funcionando todas independentemente umas das outras. Isto acaba por fazer a tarefa de Damián Szifrón, cineasta argentino mais conhecido no seu país pela série de televisão que criou em 2002, Los Simuladores, mais complicada, dado que a passagem de um episódio para o outro sem qualquer elo de ligação faz com que a sua fita pareça, à primeira vista, um simples conjunto de sketches engraçadinhos e não um filme "a sério".

O que o realizador e argumentista faz é aplicar um conjunto de técnicas às histórias que conta e dar-lhe ares de verdadeiro cinema. O visual que aplica ao filme é melhor que o de algumas outras obras que estreiam aos montes e enchem as nossas salas de produtos desinteressantes e a mestria com que roda cada segmento é assinalável. Szifrón consegue criar desde cenas de enorme dinamismo (como se pode ver principalmente na terceira parte intitulada El más fuerte) até momentos mais calmos que servem para construir lentamente uma intriga que irá sempre culminar num final irónico e igualmente hilariante (Bombita, o quarto mosaico, é o exemplo máximo disso mesmo).

A grande preocupação estética e o empenho em construir as seis pequenas histórias da maneira mais inteligente, cómica e imprevisível possível faz com que cada uma se assemelhe não a um simples sketch humorístico mas sim a excelentes curtas-metragens. Relatos Selvagens é assim um filme antologia do melhor que se pode imaginar, que não só coloca qualquer um a rir mas também mostra como funciona o comportamento humano quando levado ao extremo. De certa forma, rimo-nos das imagens e dos episódios da fita porque nos estamos a ver ali estampados e a imaginar que naquelas mesmas (ou em parecidas) situações também nos apeteceu "explodir" como as personagens.

Analisar a meia dúzia de histórias uma a uma não vale muito a pena, pois são todas extremamente bem elaboradas, mas vamos a isso. A primeira e mais curta que antecede os créditos iniciais, chamada Pasternak, é uma bela entrada e amostra daquilo que todo o filme irá ser daqui para a frente. Embora não se possa dizer que seja original (parece ser mais uma adaptação de uma pequena anedota) é sem dúvida um aviso de que não vai cá haver politicamente correctos nas restantes duas horas.

E assim será. O humor negro é rei numa sátira aguçada e hilariante. Segue-se Las Ratas, que nos primeiros minutos parece ser um drama sobre os fantasmas do passado de uma empregada de restaurante, mas mal a cozinheira, uma das personagens mais memoráveis da fita, abre a boca, entramos numa atmosfera de suspense, violência tarantinesca e, como não podia deixar de ser, divertimento. Já El más fuerte, a terceira parte, é a mais fraca. Demora muito a chegar ao que interessa, ou seja, aos risos, e por mais ridiculamente hilariante que sejam os seus últimos segundos, não compensam o tempo morto que lhes antecede (mas há que dar valor ao thriller e acção que Szifrón aqui elabora).

A partir daqui é sempre a subir. Bombita é o episódio mais delicado, explorando a vertente dramática do seu protagonista mais que em qualquer outra parte mas oferecendo um final igualmente (e literalmente) explosivo. A seguir temos La Propuesta, o meu favorito de todos, que mistura e transforma a corrupção, a avareza e a ganância numa enorme gargalhada. A história final dá pelo nome de La Propuesta, sobre um casamento que se transforma num pesadelo psicológico (e para alguns físicos) estupendo.

Em todos os segmentos há magníficas prestações por parte de todo o elenco, um grande trabalho de fotografia e excelentes técnicas de filmagem assinadas por Szifrón. Relatos Selvagens é por isso uma das grandes e mais completas comédias do ano e uma das mais negras (no verdadeiro sentido da palavra) que têm chegado às salas. Tem, como seria de esperar, alguns problemas na passagem de uma história para a outra (só mesmo uma montagem sem quaisquer imperfeições o impossibilitaria), mas cada gargalhada vai compensar e muito os maiores problemas da fita. Até porque nenhum riso compensa mais que um que damos a olhar para nós próprios, qual selvagens que somos qual quê.

8,5/10

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