quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Olhos Grandes

BIG EYES
de Tim Burton
com: Amy Adams, Christoph Waltz, Danny Huston,
Jason Schwartzman, Krysten Ritter, Delaney Raye
e Madeleine Arthur
O regresso de Tim Burton às salas é feito através de uma história verídica. O resultado é uma agradável surpresa, quer por voltar a provar as qualidades de um realizador que nos últimos anos tem vindo a assinar obras medíocres quer por oferecer um biopic fora do normal.

A protagonista é Margaret Keane, jovem mulher que nos anos 50, depois de se divorciar, conhece o simpático Walter, com quem inicia uma relação. Os quadros de Margaret, distinguíveis pelos grandes olhos que pinta nas caras de crianças esfomeadas, cedo fazem sucesso em São Francisco, mas é Walter que se afirma como o autor das obras, remetendo a sua mulher para o anonimato e ganhando todos os louros.

Este é o primeiro filme em 12 anos onde Burton não convidou Johnny Depp para o seu elenco, se não contarmos com as suas animações. E é também a primeira vez em muito tempo que Burton voltou a mostrar-se a um bom nível, num tom muito mais colorido e afastado do seu estilo sombrio. Coincidência? Talvez. Mas tendo em conta que só o facto de não ter um actor a fazer constantemente a mesma personagem dá logo uma lufada de ar fresco neste Olhos Grandes é meio caminho andado para concluirmos que o actor que outrora era um dos trunfos dos trabalhos do cineasta (quem pode esquecê-lo como Eduardo Mãos de Tesoura?) não passava agora de material corrosivo.

Depara-mo-nos então com um Burton renovado logo a começar no elenco. A história que decidiu contar, verídica e bastante interessante, leva-o a recriar uma São Francisco solarenga e bem colorida, onde vai reinar uma nostalgia resultado dos muitos adereços típicos das décadas de 50/60, os penteados e a maneira de vestir, a música, etc. Há um grande trabalho de fotografia e de criação de cenários tão empolgantes quanto aquela época, culminando com imagens incrivelmente cativantes ao longo de todo o filme.

Mas Olhos Grandes não é apenas visualmente apelativo. Todo o desenvolver da narrativa é feito a um bom ritmo, com muitos momentos de humor inteligente e por vezes negro e uma boa exploração da componente mais sentimental da história. Burton e os seus argumentistas (a dupla Scott Alexander e Larry Karaszewski, que já haviam escrito Ed Wood) sabem como pegar nos diferentes pontos de interesse da vida de Margaret e transformá-los não em "mais um" biopic mas sim numa agradável fita de entretenimento, que nunca se torna entediante ao conseguir captar a atenção do espectador durante todos os seus 106 minutos (que, diga-se de passagem, passam a correr). E, melhor que tudo, o realizador consegue conter-se, não ultrapassando a linha, como tem feito ultimamente, entre a comédia aceitável e aquela que é apenas parva e infantil.

O divertimento e os bons momentos que oferece acabam por esconder alguns defeitos que, pouco depois de rolarem os créditos, começam a vir a superfície. Há algumas pontas soltas no enredo (como é que Walter, um artista de rua/vendedor de imóveis, consegue pagar uma lua de mel no Havai?), consequência de por vezes a passagem temporal de uma cena para a outra ser feita tão repentinamente, deixando por revelar alguns acontecimentos que, entre momento X e momento Y, poderiam explicar melhor como é que isto ou aquilo se passou. E a construção de Margaret como personagem faz dela uma protagonista muito fraca.

Aqui entra em acção Amy Adams, que com a sua excelente performance (uma das melhores da sua carreira) lá consegue disfarçar as fraquezas da sua personagem e puxar um bocadinho mais por ela. Ao seu lado tem um Christoph Waltz como sempre incrível mas, tal como Adams, tem um papel algo inconsistente (Walter assim o era na realidade, mas no filme a sua personalidade contraditória e mentirosa é recriada exageradamente) e dá a sensação de que podia desta dupla de brilhantes actores sair algo melhor.

Ou seja, Olhos Grandes não é um filme perfeito. Mas nem tinha de o ser. É uma fita muito divertida e animada, que promete entreter aqueles que quiserem ver um Tim Burton de volta aos trabalhos de qualidade. O seu excelente visual e as grandes interpretações do elenco conseguem esconder algumas das suas falhas e dá-nos a conhecer a história de Margaret Keane de forma cativante, tornando-se assim num dos títulos mais curiosos da temporada.

7,5/10

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