domingo, 14 de dezembro de 2014

Os Meus Milímetros Favoritos: A Quimera de Ouro (1925)

THE GOLD RUSH
de Charles Chaplin
com: Charles Chaplin, Mack Swain, Tom Murray
e Georgia Hale
Ao contrário de muitos outros trabalhos de Chaplin, A Quimera de Ouro é um dos meus filmes favoritos não por ser uma grande comédia (na minha opinião até deve ser dos títulos menos divertidos do cineasta) mas por ser um retrato mais realista e menos ingénuo de Charlot.

Charlot esse que parte para o Alasca em busca de ouro, mas que irá enfrentar uma série de obstáculos e conhecer alguém que irão mudar o objectivo da sua viagem. Esses obstáculos são Big Jim e Black Larsen, dois gigantes também sequiosos de encontrar ouro em Klondike e que acabam por se ver reunidos com o vagabundo numa cabana no meio da neve. Aí irão ter lugar as muitas peripécias cómicas deste trio. Mas a verdade é que o sentido de humor de Chaplin aqui não consegue ser tão perspicaz ou, pelo menos, tão engraçado como é costume. Ele prolonga as suas gags por mais tempo que o necessário, dando-lhes minutos suficientes para ficarem sem qualquer efeito, e a comédia do filme acaba por dissipar-se por breves instantes.

Atenção que não se está aqui a desprezar o génio de Chaplin. Encontram-se nesta parte do enredo muitas cenas bem divertidas, como o icónico jantar onde Charlot e Big Jim comem um sapato cozinhado (com os atacadores a fazerem de esparguete e tudo), e exemplos da sua enorme originalidade. Mas há que admitir que algumas das suas decisões na construção da história não são as melhores. O prolongamento das suas anedotas visuais é uma delas. E muitos irão concordar comigo quando digo que a sua narração em voz-off é mais do que inútil.

O melhor de A Quimera de Ouro reside no romance protagonizado pelo adorável Charlot e pela belíssima Georgia. Mas esta não é uma história de amor muito típica daquela ingenuidade do mundo mudo de Chaplin. Georgia não é propriamente a mulher perfeita: é manipuladora e aproveita-se do seu charme para gozar com o pobre apaixonado Charlot. E o nosso herói de bigode e chapéu de coco sofre com isto e fica de coração partido. A melhor e mais comovente cena de todo o filme (acompanhada por um Auld Lang Syne que nunca suou tão triste) vem mesmo quando, depois de sonhar com a passagem de ano na companhia do amor da sua vida, acorda para a realidade e se apercebe que a mulher o deixou pendurado e sozinho.

É precisamente neste lado da narrativa que se encontram, para além da delicadeza de Chaplin em construir um romance, as melhores e mais inteligentes cenas cómicas da fita. Entre os momentos mais emotivos de A Quimera de Ouro somos presenteados com grandes segmentos humorísticos, não tão hilariantes quanto outros filmes do realizador mas sem dúvida muitíssimo divertidos, como o trabalho que Charlot faz para ganhar uns trocos para preparar uma bela ceia para a amada ou a primeira dança que os dois têm. Curiosamente estes são também os segmentos onde o narrador se cala e deixa as imagens (e a incrível banda sonora) falarem por si, o que evidencia mais uma vez o quão desnecessário é para o nível de excelência da obra.

E tal como o nosso herói se aventurou pelo Alasca em busca de riqueza e acabou por descobrir amor, também o espectador que procurar em A Quimera de Ouro vários episódios recheados de gargalhadas se irá deparar com uma inesperada mas não menos magnífica história romântica, provando que Charles Chaplin não é o mestre da apenas comédia mas sim de todos os sentimentos do ser humano.

A Quimera de Ouro está agora de volta aos cinemas, exclusivamente no Cinema Ideal.

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