quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Mamã

MOMMY
de Xavier Dolan
com: Anne Dorval, Antoine-Olivier Pilon
e Suzanne Clément
Xavier Dolan, uma das vozes mais talentosas do novo cinema internacional, está de volta às salas com Mamã, um grande drama de emoções fortes.

E atenção que quando aqui se diz "drama de emoções fortes", estou a medir bem a expressão. Mamã não é apenas um filme banal que explora o quotidiano de umas personagens bidimensionais, embora pela sua sinopse tal possa parecer o seu intuito. Os protagonistas são três: Diane, a mãe viúva, Steve, o filho hiperactivo, e Kyla, a vizinha que vai ajudá-los a recuperar a harmonia no seu lar.

O que Dolan faz é pegar neste enredo não muito original e, diga-se, não muito interessante, e explorá-lo com a mestria de um verdadeiro veterano da 7.ª arte (e ele só tem uns meros 25 anos!). Sempre politicamente incorrecto mas com uma sensibilidade assinalável, o realizador conta a sua história incrivelmente bem, infiltrando-se no lar dos seus protagonistas e filmando-os de perto de modo a colocar-nos directamente na tensão e nos problemas que estes vivem a cada dia. É assim que começam a ser despertadas inúmeras emoções que levarão o espectador das gargalhadas mais negras (o humor do filme não é para os mais sensíveis) até à lágrima mais sentida, passando por muitos arrepios na espinha, resultado de linhas de diálogo fortes e imagens duras.

As personagens são utilizadas como marionetas para este despertar de emoções. Nenhum dos três protagonistas assume papéis fixos: se num momento tomamos um deles como o "bonzinho" da narrativa, é-nos de seguida mostrado o seu lado mais negro, nem que passado mais um minuto volta ao de cima a sua fragilidade. Isto mexe com o público, que se reverá certamente em Diane, Steve e Kyla, três pessoas normais que, quando postas em situações extremas, mostram personalidades completamente diferentes. Até porque mais que um Drama com D maiúsculo, Mamã é um retrato arrepiante e honesto sobre o comportamento e as relações humanas.

Desta vez Dolan abandonou os assuntos tabu que marcaram os seus dois últimos títulos e voltou a focar-se na figura maternal, o tema do seu primeiro filme, Como Matei a Minha Mãe. Talvez tenha sido a forma que o realizador encontrou para chegar junto de um público mais vasto. E conseguiu, sem dúvida. A sua história é marcante e tocante para todas as idades e sexos (quem é que não se iria identificar com relações entre uma mãe e um filho), e não acredito que no seu clímax, naquela que é a melhor cena do ano, alguém consiga ficar indiferente ao que vê. Isto é se se superar a difícil tarefe de se aguentar indiferentemente até este momento, antecedido por uma narrativa excelentemente bem construída e pujante, capaz de chocar e enternecer.

Narrativa essa que é conduzida por um trio fantástico de actores. Anne Dorval e Antoine-Olivier Pilon apresentam uma química palpável que recria minuciosamente uma relação mãe/filho. O destaque podia ir facilmente para Pilon, com a sua performance energética e perturbadora de um jovem doce mas violento, mas há que salientar os pequenos detalhes na actuação de Dorval que, embora não tão intensa como a do seu parceiro na maioria das cenas, não deixa de representar maravilhosamente uma mãe numa constante corda bamba. Também Suzanne Clément interpretou primorosamente a sua discreta mas estupenda Kyla, personagem mais complexa do que aparenta ser.

Todo os outros pontos do filme roçam o perfeito. A realização é muito inteligente, desde os seus eficazes POVs até a simplicidade dos planos fixos, sem esquecer um potente plano sequência já na segunda parte da fita. Há uma perspicácia enorme por parte de Dolan na criação de uma beleza distinta em cada segmento da sua obra. Ele sabe aliar como ninguém uma câmara lenta, um jogo de luz, a boa fotografia de André Turpin e até o formato da imagem para criar algo único. E a cereja no topo deste delicioso bolo é a banda sonora, constituída por temas muito conhecidos que assentam que nem uma luva em cada cena.

Mamã é uma montanha russa sentimental. Somos convidados a sentar-nos junto de três pessoas normais para entrarmos numa viagem única, conduzida por uma linha instável de dramas comoventes. E atenção: não há protecções nem redes nesta montanha russa. Xavier Dolan dirige-nos por caminhos duros e cruéis, e ficamos mais que habilitados a descarrilar num mar de lágrimas. E isso sim, é a magia do cinema, como raramente se viu este ano.

10/10

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