sábado, 15 de novembro de 2014

Os Meus Milímetros Favoritos: Em Paris (2006)

DANS PARIS
de Christophe Honoré
com: Romain Duris e Louis Garrel
Quando peguei no DVD de Em Paris pela primeira vez e li a sinopse pensei que ia ser uma filmezeco normal, mais um daqueles dramas franceses que por vezes acabam por ser extremamente chatos. Mas mal carreguei no botão do play e entrei pela casa dos irmãos Paul e Jonathan adentro comecei a perceber que não estava perante um filme qualquer.

E de facto não estava. Em Paris foi uma das maiores surpresas que tive e é e continuará a ser um dos meus filmes mais queridos. Com uma narrativa muito simples, que decorre num dia só (exceptuando o flashback inicial) e protagonizada apenas por duas personagens principais, Christophe Honoré contou uma história tocante e comovente sobre a depressão, a família e a vida em si, num dos dramas mais bem construídos dos últimos anos, repleto de cenas e diálogos marcantes, e muitas são as cenas com as quais o mais frio e indiferente dos espectadores se poderá identificar.

Paul é o espelho deste lado mais profundo e sentimental de Em Paris. Acabou de deixar a sua mulher e o seu filho e regressou a casa do seu pai para se tentar recompor, mas a verdade é que, mesmo rodeado pelos seus pais e irmão, a depressão começa a tomar conta dele. A delicadeza com que Honoré retrata esta face mais negra da vida da personagem é de partir o coração, um character study impressionante capaz de cativar e comover tudo e todos, graças também à estupenda interpretação de Romain Duris.

Já Jonathan, o híper-activo irmão de Paul, é o comic relief em pessoa, protagonista dos momentos mais hilariantes do filme, representante do lado mais alegre da vida, mulherengo de primeira categoria e hipster a 100% (isto numa altura em que a expressão "hipster" não era tão usada como é actualmente). Jonathan é também o narrador de Em Paris, através de um discurso que se inicia com um monólogo magnífico e se vai prolongando deliciosamente pelo resto da fita. E, tal como Paul, Jonathan é encarnado por um actor do outro mundo: Louis Garrel.

A relação que estas duas personagens mantêm entre si é uma das mais plausíveis e genuínas que já vi no cinema, tal como a química de Duris e Garrel. E quando juntamos Guy Marchand e Marie-France Pisier nos papéis de pais dos dois irmãos, fica então completo o quadro perfeito de uma família disfuncional, onde todos têm que enfrentar passados do passado e conviver com os dramas do presente.

Em Paris tem ainda uma das melhores e mais marcantes cenas que já vi num filme: o momento musical de Romain Duris com Joana Preiss, que no filme desempenha a ex-mulher de Paul, Anna. Quando digo musical não pensem que é um segmento com coreografias muito trabalhadas, com explosões de cor e luz e roupas pomposas (antes pelo contrário, até porque Paul está de pijama nesta cena). Aliás, os três minutos e meio deste momento são simples, delicados, ambientados por um simples piano e uma letra magnífica, mas conseguem ser melhores do que muitos outros filmes por inteiro.

Não me consigo alargar muito mais acerca do filme, até porque não há muito mais para dizer. A sua simplicidade é de assinalar, pois é a prova de que basta um bom argumento e um punhado de grandes actores para contar uma história comovente, que nos prenda com vários momentos memoráveis, como o que referi no parágrafo anterior. Em Paris faz-nos chorar e faz-nos sorrir, mas sobretudo oferece-nos um retrato humano e sincero da vida.

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