quinta-feira, 20 de novembro de 2014

20,000 Dias na Terra

20,000 DAYS ON EARTH
de Iain Forsyth e Jane Pollard
com: Nick Cave
É entre o documentário e a ficção que se desenrola 20,000 Dias na Terra, um testemunho íntimo e por vezes comovente da vida e carreira de Nick Cave, narrado pelo próprio. Estreia hoje em Portugal.

O filme decorre num só dia, o 20,000.º de vida de Nick Cave mais precisamente, e dá-nos a oportunidade de conhecer melhor a infância e as várias fontes de inspiração do músico australiano. Entre entrevistas, sessões de gravação, conversas e algumas cenas que entram no território da ficção e do surreal vamos percebendo melhor os dramas e filosofias do cantor, graças à boa montagem que alterna entre as suas afirmações e as músicas que canta, fazendo-nos perceber onde Cave vai buscar as ideias para as suas composições.

Ao contrário de muitos documentários, 20,000 Dias na Terra consegue ser bastante original na maneira como explora a vida e carreira do seu protagonista. Um dos melhores momentos do filme é a conversa que Nick Cave tem com o psicanalista Darian Leader, onde se abre quase por completo e revela alguns acontecimentos mais marcantes e emotivos da sua infância que depois percebemos terem sido material de inspiração para o seu reportório. Cave também fala dos seus problemas de droga e de situações estranhas e inesperadas ao longo da sua carreira, naqueles que são os segmentos da longa-metragem mais comoventes e chocantes, e também o vemos, nas cenas mais ficcionais, a conversar com as suas alucinações de pessoas que outrora foram tão importantes para ele.

A intimidade do discurso do músico é captada mesmo sem o recurso a vários clichés dos documentários, como a predilecta câmara tremida ou a constante utilização de imagens de arquivo. Iain Forsyth e Jane Pollard, os realizadores, rodam o seu trabalho de uma forma característica das obras ficcionais (planos formais, uma fotografia mais teatral do que realista, etc.), sem deixar de demonstrar eficaz e realisticamente a vida do artista. É possível sentir-mo-nos próximos de Nick Cave sem o observarmos de perto com as câmaras a invadirem o seu personal space mas sim através de cenas simples, que o mostram a ver Scarface com os filhos ou gravar músicas cujas letras sabemos agora de onde provêem.

Também é necessário ter um estômago forte para a visualização do filme, não porque oferece imagens impressionantes, mas porque a narração de Nick Cave vai certamente chocar os mais sensíveis, dado que o seu discurso em tom poético recheado de metáforas e vocábulos bizarramente obscuros não é para todos. Mesmo apreciando as suas palavras em voice over, há que dizer que o facto do músico ser o narrador acaba por ser o aspecto mais fraco do documentário, pois os seus monólogos dão um tom de pretensiosidade não muito agradável e que por vezes se torna irritante.

Não é isso que tira a grande originalidade e qualidade a 20,000 Dias na Terra, um dos documentários mais inovadores do ano, talvez da década. Os fãs de Nick Cave hão de delirar com o filme e os que não o conhecem vão certamente ficar fascinados pela sua personalidade cativante e peculiar. E escusado é dizer que a banda sonora é de arrasar...

8/10

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