segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Os Maias

OS MAIAS
de João Botelho
com: Graciano Dias, Maria Flor, Pedro Inês,
João Perry, Hugo Mestre Amaro, Maria João Pinho,
Adriano Luz, Marcello Urgeghe, João Pedro Vaz,
Sandra Santos e Pedro Lacerda
Crítica feita à versão curta de 135 minutos. Quando tiver a oportunidade de ver a versão de 3 horas ou a adaptação ao pequeno ecrã na RTP actualizarei a crítica.

João Botelho está de volta às adaptações de grandes obras literárias da língua portuguesa. Depois de Livro do Desassossego e Frei Luís de Sousa, o realizador pegou em Os Maias de Eça de Queirós e transportou-o para o grande ecrã sem alterar um único detalhe ou diálogo da história.

Não é preciso explicar muito o enredo de Os Maias. Percorrendo três gerações da família Maia, desde Afonso, o seu filho Pedro e o neto Carlos (o protagonista principal), a obra vai fazendo uma crítica à sociedade portuguesa através das personagens e das suas vivências.

É claramente a melhor adaptação literária de João Botelho ao cinema. Mas temos que ter em conta que tanto Filme do Desassossego (a partir da obra de Fernando Pessoa) e Quem És Tu (de Almeida Garrett) são filmes que não conseguiram captar a essência do material original e que se tornaram algo aborrecidos. Agora em Os Maias o cineasta português não tocou no livro de Eça de Queirós e toda a intriga está presente na sua longa-metragem. Continua a haver muito toque de João Botelho na coisa, mas ao menos conseguem-se salvar muitos bons aspectos. Vamos por partes.

Tenho que, em primeiro lugar, admitir que não sou fã da obra de Eça de Queirós, por isso até vinha com algumas expectativas altas para conseguir ver aquilo que me custou a ler. Mas embora seja possível absorver os bons diálogos das personagens sem ter que reter a muita descrição dos espaços, a forma (demasiado) teatral e a falta de uma banda sonora faz de Os Maias uma longa-metragem quase tão densa quanto o livro e aborrecida o suficiente para nos pôr impacientemente à espera do seu final. E a forma como se passa de uma cena para a outra às vezes é muito abrupta, muito rápida e desconcertante, não possibilitando que a história flua naturalmente.

Os cenários interiores não parecem ter uma ambiente característico que os diferenciem uns dos outros. Hotel Central, Ramalhete, Casa dos Gouvarinho... Embora a decoração mude ligeiramente, estaríamos sem saber onde as personagens estão se não fossem pelas indicações que o realizador nos oferece. Já os cenários exteriores, como todos os que viram o trailer sabem, são reproduzidos em estúdio através de telas que recriam as ruas de Lisboa do séc. XIX. Mas por muito bonitas que sejam as pinturas, estas falham em dar a impressão de que estamos num espaço exterior. Por exemplo, a cena das corridas de cavalos torna-se idiota quando temos uns 20 figurantes a abanarem-se e a apoiarem os seus cavalos e o resto da multidão são imóveis desenhos de pessoas.

Mas tudo não deixa de ser visualmente apelativo. O trabalho de fotografia de João Ribeiro é excelente, desde a cena inicial a preto e branco (que por acaso até é desnecessária) até ao grande jogo de cores que estabelece nos restantes minutos do filme. É muito interessante ver como a paleta de cores vai escurecendo paralelamente à decadência da família Maia graças aos episódios vividos por Carlos que se vão revelar trágicos, terminando num tom muito acinzentado depois de no início mostrar variadíssimas cores vivas e alegres, muito bem realçadas nos momentos de maior felicidade e animação das personagens.

Personagens essas que contaram com um bom elenco para as desempenhar. Os melhores actores do filme são, curiosamente, aqueles que desempenham dois protagonistas secundários: Pedro Inês e Pedro Lacerda, que encarnaram, respectivamente, João da Ega e Tomás de Alencar de forma sublime. Os dois roubaram totalmente o protagonismo aos actores principais, conseguindo dizer de forma exemplar todos os seus diálogos, desde os mais sarcásticos (os de Ega) até aos mais revoltados (de Alencar). Consegue-se também perceber que Hugo Mestre Amaro, no papel do caricato Dâmaso Salcete, e a doce Maria Flor, a escolhida para ser Maria Eduarda, têm performances muito bem conseguidas. A única nódoa num elenco de luxo é mesmo o actor principal. Graciano Dias esteve encarregue de dar vida a Carlos da Maia, mas o seu desempenho fraquíssimo fez com que o herói passasse completamente despercebido.

Os alunos do secundário encontram aqui, pois então, uma adaptação muito fiel à obra de Eça de Queirós que têm de estudar, e aqueles que quiserem conhecer ou voltar a estabelecer contacto com uma das histórias mais conhecidas da literatura portuguesa têm uma boa oportunidade para o fazer com Os Maias, um filme com enormes interpretações e belíssimas imagens, mas que é vítima do típico tom aborrecido que demarca a filmografia de João Botelho.

6/10

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