quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Os Gatos não Têm Vertigens

OS GATOS
NÃO TÊM VERTIGENS

de António-Pedro Vasconcelos
com: Maria do Céu Guerra, João Jesus, Nicolau Breyner
Ricardo Carriço e Fernanda Serrano
Num mês marcado pela estreia de muitos filmes portugueses (E Agora? Lembra-me, Os Maias, Alentejo, Alentejo...) eis que nos chega mais uma longa-metragem produzida no nosso país. Os Gatos não Têm Vertigens é o novo trabalho de António-Pedro Vasconcelos que com ele traz uma história simples mas inteligente.

Segue a improvável relação entre Jó (João Jesus) e Rosa (Maria do Céu Guerra). Ele é um rapaz de 18 anos que saiu de casa do pai e, depois da sua mãe não o aceitar também, vê-se obrigado a dormir na rua. Jó acaba por encontrar um sítio para passar a noite no terraço da casa de Rosa, uma reformada e recentemente viúva, cuja única companhia é o fantasma do seu marido, Joaquim (Nicolau Breyner).

Os Gatos não Têm Vertigens é uma grande surpresa por duas razões. A primeira é que, ao contrário do que o trailer possa parecer, o filme é um drama muito bem feito, que não cai em melodramas nem em tentativas fáceis de criar um relação personagem/público, como fazer dos seus protagonistas umas pessoas fracas cujas vidas vão de mal a pior. Jó e Rosa são personagens muitíssimo bem construídas, que parecem reais e que retratam alguns problemas sociais que se vivem em Portugal.

É com o adolescente e a septuagenária que António-Pedro Vasconcelos vai, aliás, explorando temas que fazem parte do nosso quotidiano: o desemprego, os jovens problemáticos, a violência doméstica, a solidão dos idosos... Mesmo os mais simples tópicos como o casamento ou a relação pais e filhos são apresentados pelo realizador de forma bastante explícita, através de um argumento que, não sendo original, é eficaz nas emoções e nas ideias que quer partilhar. É claro que o que se viu no trailer está presente, como os diálogos cliché e os momentos mais "fofinhos", mas apenas numa pequena percentagem da agradável experiência que é ver o filme.

E é aí que começa a segunda grande surpresa: o entretenimento e a facilidade de se comercializar esta obra. Vasconcelos conta a sua história delicadamente e de uma forma cativante, com alguns bons momentos de humor e outros mais comoventes, que fazem de Os Gatos não Têm Vertigens um filme completo e que vai conseguir chegar a todo o tipo de público, coisa que cada vez mais parece ser impossível de se fazer em Portugal. E por muito convencional que seja a realização de António-Pedro Vasconcelos, é fácil encontrar um ou outro pequeno pormenor que o diferencia de alguns outros cineastas portugueses, como aquele excelente plano sequência inicial.

Mas não se pode, contudo, chamar ao filme original. É mais do que previsível o desfecho de todas as personagens desde o momento em que as conhecemos. Mas até lá é-nos oferecido um conjunto de episódios que nos fazem torcer por uns protagonistas enquanto nos revoltamos contra outros, mesmo já sabendo o seu destino. Contribui para isto a inteligência com que Vasconcelos desenvolve o seu argumento (escrito em conjunto com o seu parceiro Tiago Santos) que nos faz ficar agarrados à história desde o momento em que tem início até aos últimos instantes.

Também o elenco está a um nível fantástico. João Jesus, um verdadeiro estreante no cinema depois de algumas passagens pela TV, foi a grande surpresa com uma performance muito boa de um adolescente cheio de problemas (que nas nossas produções é sempre mal representado, mas graças ao argumento e à prestação de Jesus pareceu finalmente plausível). A química que o jovem actor tem com a sempre espantosa Maria do Céu Guerra é assinalável, e os dois proporcionam cenas deliciosas. Destaque ainda para Fernanda Serrano, actriz que encarnou Luísa, a filha de Rosa, de uma maneira muito bem conseguida.

Se há obra portuguesa com mais possibilidades de se tornar um verdadeiro êxito no nosso país e talvez até lá fora (as bonitas imagens de Lisboa do filme podem servir inclusive para atrair mais uns turistas), é esta. Os Gatos não Têm Vertigens tem drama, comédia, grandes interpretações e ainda uma excelente banda sonora onde a cereja no topo é a canção original de Ana Moura, Clandestinos no Amor. E, para além da história cativante, é um espelho da situação actual de Portugal. Pode não ser nenhuma obra prima nacional, mas é definitivamente uma lufada de ar fresco no nosso cinema.

8/10

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