sexta-feira, 25 de julho de 2014

Os meus milímetros favoritos: O Regresso do Mal (1978)

I spent eight years trying to reach him, and then another seven trying to keep him locked up because I realized that what was living behind that boy's eyes was purely and simply... evil - Dr. Sam Loomis

HALLOWEEN
de John Carpenter
com: Jamie Lee Curtis, Donald Pleasence,
P. J. Soles e Nancy Loomis
Halloween (eu sei que em português o título é O Regresso do Mal, mas é assim que eu me vou referir ao filme daqui em diante) é talvez o mais importante filme de terror da segunda metade do século XX. A importância que trouxe ao género e a maneira como o revolucionou são indiscutíveis, ou não fosse este o melhor slasher movie de sempre.

Filmado em 20 dias na California, esta obra-prima de John Carpenter, ainda em início de carreira, fala sobre um grupo de jovens raparigas e como passam a noite no Halloween. Algumas vão fazer de babysitter, outras vão sair com os namorados. Mas o que nenhuma delas está à espera é que Michael Myers regressou à cidade, quinze anos depois de ter assassinado a irmã mais velha quando era ainda uma criança, e que vai agora perseguir uma das adolescentes, Laurie Strode. Porquê?

Bem, isso acaba por tornar-se óbvio a dado momento do filme. Mas talvez não se perceba tão cedo a principal razão do regresso do psicopata porque John Carpenter não nos deixa concentrar. Os sustos que vai pregando ao longo de todo o filme, através de jogos de luz, vultos no escuro e uma montagem composta por cortes rápidos, continuam tão eficazes quanto nos anos setenta e difícil será não se dar pelo menos um salto da cadeira. Talvez seja isso que mais surpreende em Halloween. Ao contrário de muitos thrillers ou filmes de terror dos anos 70 ou 80 como Tubarão ou Pesadelo em Elm Street, todo o seu ambiente continua sinistro, não envelheceu nem um milímetro.

Esta obra veio mudar o panorama dos filmes de terror. O género estava nitidamente em decadência e os grandes sucessos falavam principalmente de coisas que, por muito assustadoras que fossem, não poderiam totalmente perecer reais, dado que os vilões eram monstros ou algo do género (um dos melhores exemplos é O Exorcista: pode até assustara um pouco e não deixa de ser um dos filmes mais populares de sempre, mas uma rapariga possuída não é grande ameaça nem me vai por com medo de ir à rua porque não acredito que ela exista mesmo). Halloween introduziu uma certa plausibilidade no filme de terror, ora seja pelos diálogos que parecem genuínos ora porque o serial killer pode muito bem aparecer na primeira página de um jornal ainda no século XXI.

As personagens são fantásticas. As raparigas não são reduzidas a umas miúdas fracas e parvinhas, elas são corajosas e fortes, em particular Laurie, interpretada por Jamie Lee Curtis. Há ainda o incrível Samuel Loomis, a personagem do espectacular Donald Pleasence, que acompanhou de perto Michael Myers durante o seu crescimento e que vai revelando as verdadeiras intenções do vilão do filme. Michael Myers que é uma das melhores personagens de terror do cinema. É difícil por em palavras o quão sombria é a sua figura, da mesma forma que é difícil descrever o que é o medo. Ele era um rapaz normal, matou a irmã, foi posto numa instituição, fugiu de lá e veio acabar a sua missão. Usa apenas um fato de macaco, uma máscara tão vazia, sem qualquer expressão, que só de a vermos ficamos logo a tremer. Tem quase dois metros, é um verdadeiro monstro invencível que mata sem dó nem piedade. É um psicopata, mas também é humano, é alguém que pode muito bem andar por aí e que nos põe com medo de atravessar a estrada. Isso, sim, é terror: é transportar os nossos receios para o ecrã e fazê-los reais.

Carpenter baseou-se nitidamente em Psico. Logo a começar, foi buscar a filha de Janet Leigh, protagonista do filme de Hitchcock, para encarnar a sua personagem principal, naquele que foi o primeiro papel de Jamie Lee Curtis no cinema. Depois, o nome da personagem de Donald Pleasence (um dos poucos elementos do filme a não ter iniciado a carreira com Halloween) é o mesmo que a de John Gavin: ambas apelidadas de Samuel Loomis. Mesmo no que toca à realização, Psico teve muita influência em Halloween, que utilizou muitos planos subjectivos à la Hitchcock. Mesmo a construção da história, a superiorizarão das protagonistas femininas e outros pequenos detalhes são obviamente inspirados pelo clássico de 1960.

Halloween deve também muito à sua banda sonora. Alguns críticos tiveram a oportunidade de ver o filme sem ela e saíram da sala dizendo que nunca tal longa-metragem iria assustar o público. Quando John Carpenter compôs e sincronizou a soundtrack à sua obra, a opinião de alguns desses mesmo críticos mudaram logo. Aquele tema inicial é de dar um arrepio na espinho e cada pequeno som dá um maior ênfase a cada cena. Não será arriscado dizer que a essência do filme é a sua banda sonora, porque o baixo orçamento que Carpenter teve à sua disposição não permitiu grande loucura em efeitos especiais (sangue, por exemplo, é coisa que não se vê).

Halloween prova que não são precisos litros de sangue, efeito especiais gore e monstros sobrenaturais para assustar. O verdadeiro terror está no seu serial killer realista, na banda sonora creepy, na boa realização de John Carpenter e no elenco jovem mas excelente. Todos estes factores juntos fazem um filme de terror espectacular e intemporal.

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