sábado, 5 de julho de 2014

Os meus milímetros favoritos: 2001: Odisseia no Espaço (1968)

Dave, stop. Stop, will you? Stop, Dave. Will you stop Dave? Stop, Dave - HAL 9000

2001: A SPACE ODYSSEY
de Stanley Kubrick
com: Keir Dullea, Gary Lockwood, William Sylvester
e Douglas Rain (voz de HAL 9000)
Quando em 1968 Stanley Kubrick lançou para as salas o seu mais ambicioso trabalho, não houve consenso. O público, sedento de uma história muito mais mexida (ou não fosse a década de 60 a mais estática das épocas), saia desiludido dos cinemas e os críticos, ou por estarem confusos ou por simplesmente sofrerem da mesma sede de movimento da restante audiência, foram atacando o filme. Uns meses depois, 2001: Odisseia no Espaço era nomeado para quatro Oscars (ganhou um), mais uns quantos prémios aqui e ali, e agora, quase 50 anos depois, é visto como um dos maiores filmes de sempre.

E poderia ser visto de outra forma? 2001 é daqueles clássicos que é odiado aquando do seu lançamento por estar à frente do seu tempo, por não cumprir os paradigmas do cinema da sua época ou por outras razões que não se explicam. Aconteceu a Hitchcock, a Carpenter, aos realizadores da Nouvelle Vague e... a Kubrick. Não é um filme que conte uma história. As personagens são dispensáveis e servem como adornos. 2001: Odisseia no Espaço é uma análise à evolução humana, à tecnologia e até à vida extraterrestre.

É um retrato assustador do ser humano a partir dos olhos de uma das personalidades mais críticas, controversas e geniais do cinema: Stanley Kubrick. É através de metáforas, de efeitos especiais fascinantes (que passado quase meio século continuam a impressionar) e com um dedo apontado a todos nós que o realizador vai quase que adivinhando o destino da humanidade. Sim senhor, já passámos 2001 há uns anitos e ainda não fomos a Júpiter, não temos naves espaciais très chic e, tanto quanto se saiba, ainda ninguém descobriu um monólito na Lua. Mas a rapidez estonteante com que a tecnologia vai progredindo vai-nos aproximando dessa realidade e já andamos dependentes de aparelhos electrónicos como se fossemos David e Frank na Discovery One escravos do computador HAL 9000

Mesmo sem olhar para 2001: Odisseia no Espaço duma perspectiva actual não restam dúvidas que estamos perante um grande filme. Kubrick redefiniu a ficção científica no cinema, basta ver a diferença das obras deste estilo antes e depois de 2001. É um filme que está dividido em três segmentos: The Dawn of Man, Jupiter Mission e Jupiter and Beyond. A primeira é um espectacular sequência onde vemos duas tribos de macacos a lutarem por um lago de água. Uma das tribos expulsa a outra para longe e esta vê-se obrigada a esconder-se. Isto até encontrar um monólito. O macaco líder descobre, depois de tocar no rectângulo negro, como utilizar um simples osso como um ferramenta/arma e reivindica o lago de água, com sucesso. Feliz pela vitória, o macaco atira o osso ao ar e este transforma-se numa nave espacial, através de um incrível raccord.

É este raccord o primeiro grande exemplo da magnífica realização de Kubrick. Ao entrarmos no novo capítulo do filme, deparamo-nos com cenários incríveis e efeitos especiais que nos deixam a perguntar 'como é que eles fizeram isto?'. Exemplo disso são as cenas dentro da nave espacial em que o Dr. Heywood R. Floyd viaja até à Lua, onde são filmadas canetas voadoras e empregadas a andarem de pernas para o ar. É de relembrar que o filme é do final dos anos 60, CGI ainda não existia e o blue screen era do mais básico que se possa imaginar. Todos os efeitos especiais de 2001: Odisseia no Espaço são feitos com truques de câmara ou técnicas que, embora simples, transformam cada cena em algo fascinante. E este fascínio atinge o seu clímax no início de Jupiter and Beyond, na icónica cena em que David decide explorar sozinho o planeta Júpiter e acaba sugado para um "túnel" de luz. É a melhor cena do filme (é difícil escolher uma só como sendo 'a melhor', mas no que toca a espectacularidade, esta sai vencedora), um verdadeiro espectáculo de luz e cor, que mostra em pequenos cortes a cara de um David em pânico, tornando todos os 10 minutos da cena assustadores e belos ao mesmo tempo. Depois desta viagem pelo "túnel", é feita a conclusão do filme, em mais um segmento incrível.

Outro dos melhores aspectos de 2001: Odisseia no Espaço é a ausência de diálogos. Há alguns, é verdade, mas o filme vive muito mais à base dos silêncio do espaço, onde ouvimos apenas o respirar dos astronautas ou uns apitos aqui e acolá das naves. Há igualmente a excelente banda sonora, que torna 2001 quase como um ópera, através de temas clássicos de Strauss ou dos mais contemporâneos de György Ligeti. É, no entanto, impossível destacar interpretações. Como dito anteriormente, as personagens não são o mais importante do filme, são adornos que servem para Kubrick demonstrar através delas a sua crítica e visão do ser humano. Talvez quem se salienta mais no elenco Douglas Rain, actor que dá a voz ao computador HAL 9000, uma personagem fria, que parece indiferente a tudo o que se passa à sua volta. É claro que se pode destacar em todos os outros actores essa mesma frieza, especialmente em Keir Dullea e Gary Lockwood, mas não é isso que torna as performances em algo extraordinário. Apenas as torna... eficazes.

2001: Odisseia no Espaço coloca muitas questões mas não responde à maioria. Está repleto de metáforas, de simbologia e críticas, e dificilmente se chegará a compreender totalmente esta obra maior de Stanley Kubrick e do cinema. Eu sou o primeiro a admitir: ainda não percebi metade do filme, e o que percebi foi com alguma dificuldade ou com o auxílio a um ou outro vídeo que encontrei por aqui na net (um das melhores e mais rebuscadas explicações pode ser vista aqui). Mas isto não acontece pelo filme ser non-sense ou simplesmente estúpido. 2001 é uma das obras mais inteligentes realizadas até hoje, que necessita de ser analisada segundo a segundo para ser totalmente compreendida. Isso só mostra o empenho que Kubrick pôs neste seu enigma cinematográfico e dá-nos ainda mais vontade de revê-lo mais umas quantas vezes.

Conselho do Editor: se possível vejam o filme numa versão em HD. Façam download das versões em 1080p ou BlueRay, daquelas que têm mais de 2GB, e liguem o computador à televisão ou tentem encontrar aquelas reposições nos cinemas e comprem o bilhete.

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