domingo, 20 de julho de 2014

Omar

عمر
de Hany Abu-Assad
com: Adam Bakri, Leem Lubany, Iyad Hoorani,
Samer Bisharat e Waleed Zuaiter
Omar chega finalmente a Portugal com uma nomeação para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e mais uns quantos galardões no currículo. Embora seja curiosamente filmado de uma maneira mais mainstream, não deixa de ser uma história que não deixará ninguém indiferente.

A personagem que dá o título ao filme é um palestiniano que se vê obrigado a saltar o muro da separação para se encontrar com Nadia, com quem mantém uma relação amorosa e que tem como irmão Tarek. Omar e Tarek são amigos de infância e, juntamente com um outro companheiro, Amjad, planeiam atacar militares israelitas, o que traz muitos problemas tanto a este grupo revolucionário como ao amor entre Omar e Nadia.

São duas histórias distintas que o filme do já consagrado Hany Abu-Assad vai focar: a relação de Omar com Nadia e os problemas que as atitudes radicais da personagem principal toma vão trazer à sua vida. A primeira cena do filme, em que vemos Omar pronto a escalar o muro da separação, é uma metáfora que irá resumir praticamente o percurso que a narrativa toma. Ele sobe rapidamente o muro até chegar ao topo, mas é surpreendido por tiros de militares e acaba por ter que descer rapidamente até ao outro lado da fronteira, acabando por magoar-se. São as suas expectativas em relação ao amor com Nadia que são cada vez maiores mas, com as suas acções com Tarek e Amjad, este amor vai tremer, estando os dois apaixonados expostos a uma queda rápida e dolorosa.

Um dos aspectos mais curiosos de Omar é a sua realização. Ao contrário do que se tem feito no cinema ultimamente, especialmente naquele que se faz fora dos EUA, não há uma obsessão por parte de Abu-Assad em usar uma câmara tremida em cada plano por mais simples que o que esteja a acontecer no ecrã seja. Se tal acontecesse até não surpreenderia, já que a narrativa é muito mexida a dados momentos e, querendo passar a ideia de que é uma história mais realista, o desejo de fazer uma espécie de falso documentário acabaria quase por ser justificado. Mas em vez disso vemos aqui um filme rodado convencionalmente, num estilo mais comercial, talvez com o objectivo de chegar a mais público.

Este mainstream sobressai também no desenvolvimento do amor entre Omar e Nadia. Recheado de diálogos mais cliché e por vezes a cair num ambiente mais cheesy no início, talvez as intenções dramáticas de Abu-Assad (também o argumentista) sejam um pouco relegadas para segundo plano, tal é a leveza com que apresenta inicialmente o casal. No entanto, a boa química que há entre Adam Bakri e Leem Lubany até que fazem o romance agradável de se ver, tornando situações que poderiam ser algo irritantes em momentos divertidos.

Mas com o decorrer do filme e o agravamento da situação de Omar em relação ao seu carácter mais politicamente activo, que o leva inclusive para a prisão onde conhece uma das melhores personagens do filme, o Agente Rami, o romance torna-se mais sério, mais trágico, o que aumenta a tensão em torno deste segmento da narrativa, paralelamente ao que acontece com os três amigos de infância e agora activistas. É através desta parte da história que é feito o retrato mais cruel de uma sociedade oprimida e dos conflitos que acontecem diariamente naquele espaço, onde são também postos em causa valores como a amizade, a lealdade e o amor. São mostradas cenas mais violentas, tanto psicologicamente como fisicamente, que vão culminar em momentos por vezes comoventes outras vezes desconcertantes.

Abu-Assad falou, mesmo assim, deste contexto mais sério de uma maneira adequada. Embora não descure da violência por vezes, a forma como filma algumas das situações demonstra bem que o realizador não quis propriamente chocar mas sim passar eficazmente a mensagem do que se passa na Palestina, não desviando a atenção do espectador para imagens repletas de torturas e sangue. É óbvio que Omar é submetido a experiências dessas (é-nos até mostrada uma tortura, ainda que soft, tendo em conta o nível de violência a que algumas chegam), mas o realizador soube atenuar os acontecimentos. Para além disso, há uma certa dose de humor negro no argumento, conversas divertidas e espontâneas entre as personagens e uma ou outra referência à cultura pop, o que acaba por originar alturas de comic relief.

O elenco de Omar é muito bom. A já referida química entre Bakri e Lubany resulta das boas prestações de cada um, que fazem com as suas personagens pareçam verdadeiramente apaixonadas. Também a relação que Omar tem com os seus amigos Amjad e Tarek, desempenhados por, respectivamente, Samer Bisharat e Iyad Hoorani, é posta no ecrã de forma bastante realista, dando ideia que aqueles três se conhecem verdadeiramente desde crianças. Destaca-se ainda a excelente performance de Waleed Zuaiter, no papel do Agente Rami, que acaba por ser o vilão do filme e que, por momentos, impõe de facto respeito.

Omar é, portanto, um filme que irá conquistar um público abrangente. Tem características que poderão ajudar a comercializá-lo mais junto de espectadores fieis a Hollywood, e a abordagem a um dos temas principais da actualidade vai certamente atrair a atenção de muita gente. Com interpretações de alto nível e uma mensagem de eficazmente passada, Hany Abu-Assad pode gabar-se de ter voltado a criar um título que merece definitivamente uma vista de olhos.

8/10

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