sábado, 3 de maio de 2014

Sacro GRA

File:Sacro GRA.jpg
SACRO GRA
de Gianfranco Rosi
À volta de Roma existe o GRA (Grande Raccordo Anulare), uma estrada circular longe dos turistas e onde vive e circula a população mais pobre da capital italiana. E foi aí que Gianfranco Rosi rodou este seu documentário, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza 2013.

Rosi foi na sua carrinha filmar o quotidiano de várias personagens, com o objectivo de passar a imagem de pobreza e vazio, algo em contraste com a metrópole italiana que por perto se situa do GRA. Assim ao princípio parece aborrecido, não parece? Bem, Sacro GRA até tinha condições para não o ser. É fácil imaginar as centenas de histórias interessantes que devem existir em tanto lugar visitado por Rosi, visto que em todas as cidades, das mais ricas e alegres às mais deprimentes, há sempre alguém com uma boa vivência para partilhar.

E quem é que Rosi foi entrevistar? Primeiro que tudo, entrevistar não é o termo apropriado para o que fez durante 90 minutos, que demoram uma eternidade a passar. Na maior parte das vezes o realizador (se é que ele merece que assim o chamemos) limitou-se a filmar um conjunto de indivíduos no seu dia a dia, quase como que um Big Brother com desejos de ser politicamente activo. Sem o mínimo interesse vemos umas quantas pessoas a terem conversas ordinárias sobre assuntos tão desenxabidos que dificilmente irão agradar a alguém.

Sacro GRA torna-se, portanto, aborrecido. A tal mensagem de pobreza é passada, sim senhor, mas é um retrato por vezes tão cru e exposto que o próprio espectador fica deprimido e com muita pena de certos intervenientes, graças ao exagero (e por vezes à indiferença) com Rosi retrata a miséria dos italianos. No documentário é suposto afectar o público com a realidade, mas é sempre necessário dar uma certa esperança ou simplesmente algo que vingue a injustiça a que assistimos (como O Acto de Matar, estreado há umas semanas, fez). Infelizmente, nada disso se vê neste catálogo de deprimência, e mais que chocados ficamos aborrecidos.

Por vezes ainda há algo que prenda um pouco a atenção a Sacro GRA. As cenas da ambulância ou dos acidentes são boas e o homem barbudo que passa o dia em casa traz uma certa leveza e descontracção ao ar pesado do filme. Todavia, a forma como Rosi filma estas partes acaba por torná-las longas demais e um pouco cansativas. De resto, não há muito para recordar nesta obra, a não ser o gigante estado de sonambulismo com que ficamos ao vê-lo. Talvez se o realizador não estivesse tanto tempo parado em certas personagens sempre conseguisse dar ritmo ao seu projecto, mas os exagerados minutos nos mesmos indivíduos culminam com um bocejo e a miséria evidenciada quase que se banaliza. E banalizar a miséria há que ser o último desejo de quem cria um documentário.

Então o que é Sacro GRA, afinal? É um retrato cru da miséria dos italianos e das enormes discrepâncias entre as metrópoles e os subúrbios, que nos deprime e aborrece ao mesmo tempo. Se isto ganha prémios nos festivais internacionais então algo de mal se passa na cabeça dos jurados.

3/10

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