sábado, 26 de abril de 2014

Prince Avalanche

História simples, filme grande


File:Prince Avalanche Official Poster.jpeg
PRINCE AVALANCHE
de David Gordon Green
com: Paul Rudd e Emile Hirsch
Nota: nesta crítica é descrito o desfecho de algumas situações importantes da história (não porque quero ser desmancha prazeres, mas porque é a melhor opção para frisar duas ideias). Caso ainda não tenha visto o filme, salte os 4.º e 6.º parágrafo.

Vindo mais como promoção do trabalho de David Gordon Green que irá estrear o seu novo filme, Joe, no IndieLisboa do que para ser propriamente comercializado, Prince Avalanche acaba por ser algo que merece uma vista de olhos.

Na base da história está um incêndio que abalou o Texas em 1987. Um ano depois, Alvin (Paul Rudd) e Lance (Emile Hirsch) partem até à região para repintar a estrada e colocar de novo as sinalizações para os condutores. Alvin é trabalhador, forte e apaixonado pela sua namorada, daí que tenha convidado o seu irmão Lance para o ajudar, embora o ache um inútil infantil.

Como se pode perceber pela sinopse, a história não é muito rica e a ideia que dá do filme é que vai ser mais um daqueles lentos e aborrecidos. E Prince Avalanche é, de facto, lento. Mas nunca aborrecido. Vivendo sobretudo dos diálogos das personagens e das paisagens de um Texas em cinzas, a história vai crescendo com o drama interior de Alvin e Lance, que se vão tornando cada vez mais amigos e cada vez mais à vontade em partilhar pensamentos mais íntimos.

Um dos melhores aspectos do filme é o seu toque de surrelismo. David Gordon Green criou duas personagens idosas (interpretadas por Lance LeGault e Joyce Payne) que a dada altura se encontram com as principais, e a forma como elas se despedem é bastante interessante. A personagem idosa de Joyce Payne, uma idosa que apareceu pela primeira vez no filme numa excelente cena com Paul Rudd, entra no camião que Lance LeGault (a personagem dele também não tem nome) conduz, mas este afirma convictamente que não tem nenhuma mulher sentada ao lado dele, para espanto de Lance e Alvin.

O argumento e a realização de David Gordon Green são, também eles, muito bons. Sendo, como aqui se referiu, os dois pulmões essenciais que dão vida a Prince Avalanche, parece ter sido posto muito trabalho neles. Começando pelo primeiro, há que dizer que foi certeiro e soube sempre tocar com delicadeza nos assuntos a abordar. Tomando por vezes caminhos de comédia negra, oferecidos pela personagem Alvin, existe toda uma descontracção que atenua o peso dramático do filme e que acaba por nos fazer rir até mais do que estivéssemos à espera.

Quanto à realização, também não há muito a dizer a não ser que Gordon Green sabe o que anda a fazer. Desde as cenas mais mexidas até aos planos fixos das paisagens do Texas, o realizador consegue sempre transmitir algo, nem que seja apenas uma imagem bonita (a fotografia de Tim Orr é excelente). A construção das personagens está perfeita, todas têm algo peculiar nelas e todas têm as suas quedas, como o falhanço de Lance em ir para a cama ou a loucura em que Alvin entra quando a sua namorada acaba com ele. Gordon Green criou ainda algumas cenas mais psicadélicas, absolutamente estrondosas e belas, graças à sinistralidade e cores de alguns planos utilizados.

A isto tudo juntam-se as boas interpretações dos actores. Paul Rudd demonstra que é melhor do que as suas comédias parvas fazem parecer e dá aqui uma performance forte e realista de uma personagem sensível com muito para explorar. Emile Hirsch voltou aos bons filmes e deu também provas de que é um dos mais curiosos e versáteis actores da actualidade. E os dois actores que dão vida às tais personagens mais idosas tiveram também o seu quê de brilhantismo, mesmo tendo aparecido poucas vezes no ecrã.

Este Prince Avalanche é um dos mais interessantes filmes independentes dos últimos anos. Todos os seus aspectos estão muito bons, graças a David Gordon Green, que sabe exactamente como tornar uma história simples numa obra de maior profundidade.

8/10

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