sábado, 1 de março de 2014

Nebraska

A nostalgia divide-se entre a comédia e o drama e o resultado é um grande filme

File:Nebraska Poster.jpg
NEBRASKA
de Alexander Payne
com: Bruce Dern, Will Forte, June Squibb,
Stacy Keach e Bob Odenkirk
Esteve para nem sequer estrear em Portugal, mesmo com a excelente recepção da crítica e alguns prémios ganhos, mas lá acabou por chegar. É Nebraska.

O filme narra a história de Woody Grant (Bruce Dern), um velho com sinais de Alzheimer que pensa ter ganho um milhão de dólares. Para os reclamar, Woody tem que ir até Nebraska e pede que o seu filho, David (Will Forte), lhe dê boleia até lá. Pai e filho entram, então, numa longa viagem até ao prémio de Woody.

Como dito no início, Nebraska esteve para não estrear no nosso país. Isso acaba por ser o aspecto (embora externo) mais assustador do filme. A distribuição de filmes em Portugal anda a desiludir muito e foi com muita sorte que esta obra de Alexander Payne chegou às salas. O que acaba por ser surreal: com tantos filmes pobres em cartaz (Horas, A Rapariga que Roubava Livros, Empire State - O Assalto, etc.) Nebraska teve que esperar até ao último dia antes dos Oscars para se mostrar aos portugueses. Enfim...

Bem, passando a análise do filme em si. Nebraska é uma belíssima longa-metragem. É um road-movie fora do comum, onde a comédia e o drama se cruzam e misturam em perfeita harmonia. Um dos principais temas do filme é o passado, a nostalgia ou a saudade (utilizando um termo mais português), que nos são mostrados através da fotografia e dos pequenos pormenores que Alexander Payne escolheu. Ao utilizar o logótipo da Paramount (a distribuidora de Nebraska) numa versão vintage ainda antes da história começar é um sinal de que o realizador quer dar um ar antiga à sua obra.

As roupas que as personagens usam, as suas casas e a paisagem mais rural que serve de pano de fundo para o filme são algumas das outras formas que Payne arranjou de parar Nebraska no tempo. Embora a acção decorra no nosso presente, há a sensação de que tudo se podia passar nos anos 70. E depois entra em cena a brilhante fotografia de Phedon Papamichael, que dá cor ao filme através do clássico preto e branco. E é com um ou outro jogo com a luz que Papamichael e Payne transformam esse preto e branco em algo muito singular. Parece que há tons diferentes em cada cena, sendo que nas partes mais cómicas a imagem parece leve e mais branca contrastando com os momentos mais dramáticos, onde o cinzento e o negro sobressaem.

Payne sabe saltar do drama para a comédia e vice-versa com grande mestria. O filme é bipolar, quase tão contraditório quanto as suas personagens, e tem cenas de divinal comédia negra aliadas a situações de elevada carga emocional. Enquanto que muitos realizadores têm dificuldades em equilibrar tanta amplitude, Payne provou ser um profissional na mudança de tom do seu filme, pois deu sempre tempo à audiência para se rir das hilariantes situações das personagens, passando depois suavemente para as cenas de maior dramatismo. Toda a história avançou naturalmente, sem nunca mudar abruptamente de estilo.

A forma como Alexander Payne realizou o seu Nebraska é também bastante inteligente. Na maioria das vezes não há qualquer movimento de câmara, vemos apenas um plano estático sem muito som ou diálogo. E isso acaba por dar um ar ainda mais indie ao filme. Esta imobilidade é também a principal arma que Payne utiliza para nos fazer rir ou chorar: em vez de agitar as imagens de Nebraska, o que talvez fosse arruinar muitos dos seus momentos, o realizador dá-nos o tempo necessário para interpretarmos o que se está a passar ao interiorizarmos tudo o que vemos sem grandes distracções.

O argumento escrito por Bob Nelson é igualmente brilhante. Os diálogos são muito engraçados e realistas e todas as intervenções das personagens são memoráveis, ora é pela sua simplicidade ora pela sua frontalidade, pois ninguém no filme tem problemas em expressar o que lhe vai na alma. Há muitas gags e anedotas que, embora nem sejam novas, nos fazem sempre rir devido ao contexto em que se encontram, mas temos também algumas passagens mais melancólicas, onde ninguém consegue ficar indiferente. Não deixam de existir momentos um pouco mais monótonos em Nebraska, mas estes acabam por ser compensados pela excelente banda-sonora do filme, composta por temas calmos, meio country, que atenuam as suas partes mais pesadas.

Todo este argumento fica ainda melhor quando é dito pelos actores. Bruce Dern é Woody Grant, um homem mal disposto que provavelmente não haveria de ter muito para gostarmos dele. Mas graças a Dern, Woody torna-se uma personagem sensível e amável, embora não deixe de ser rabugento. O actor conseguiu dar vida ao Alzheimer e a todas as outras doenças de que a sua personagem padecia de maneira sublime. Quase parece que o próprio Dern estava demente. June Squibb é mais uma jóia de Nebraska. Tudo o que a sua personagem (a mulher de Woody, Kate) diz torna-se em ouro vindo da boca da actriz. Will Forte teve um desempenho razoável e teve alguns instantes de excelência, enquanto que Bob Odenkirk conseguiu descolar-se da personagem que o tornou famoso (Saul Goodman da série Breaking Bad) e interpretou com naturalidade Ross, o irmão de David.

Há uns dias disse que Uma História de Amor era o filme do ano, mas enganei-me. Nebraska é uma grande surpresa e superou todas as expectativas criadas à sua volta. Combina a comédia com o drama magistralmente num road-movie extraordinário e confirma o estatuto de Alexander Payne como um dos mais sensíveis realizadores da actualidade.

10/10

Sem comentários:

Enviar um comentário