sábado, 15 de março de 2014

Fruitvale Station: A Última Paragem

Uma surpreendente estreia de Ryan Coogler e um bom tributo a Oscar Grant

File:Fruitvale Station poster.jpg
FRUITVALE STATION
de Ryan Coogler
com: Michael B. Jordan, Melonie Diaz e Octavia
Spencer
Este é o filme de estreia de Ryan Coogler, um perfeito desconhecido no mundo do cinema até ao momento em que levou o seu Fruitvale Station até ao Festival de Sundance 2013. A verdade é que quem se estreia assim só eleva expectativas para o seu próximo projecto.

Fruitvale Station: A Última Paragem narra os acontecimentos que conduziram à morte de Oscar Grant (no filme interpretado por Michael B. Jordan) na noite de Ano Novo de 2009, naquele que foi um dos acontecimentos mais marcantes dos últimos anos nos EUA envolvendo questões raciais.

Ryan Coogler conseguiu como estreante fazer um filme muito bom. Abordar um tema destes e retratar os acontecimentos de 1 de Janeiro de 2009 é sempre uma tarefa arriscada, mas o jovem realizador saiu-se muito bem. Através de um constante uso de hand-camera, Coogler fez o filme parecer quase como que um documentário e a forma crua como mostrou os bairros e as casas das personagens foi crucial para dar mais veracidade a Fruitvale Station.

No entanto, houve uma falha na construção das personagens. Oscar Grant é, no filme, alguém amável e fácil de gostar. Mas ninguém pode realmente acreditar que Oscar era assim na vida real: esteve na prisão, vendia droga e andava metido em confrontos de gangs. E nem é preciso pesquisar nada disto pois Coogler mostra-nos todo este lado negro da sua personagem principal, mas não da forma exagerada como quer passar-nos o seu lado de bom samaritano. Parece que o realizador quis negar o facto de Oscar não ser 100% perfeito.

E são estas tentativas de fazer de Oscar uma personagem boazinha que tiram grande parte do interesse a Fruitvale Station na sua primeira metade. Não se passa muito durante os primeiros instantes do filme senão uma montra de boas acções (algumas delas até forçadas e que parecem não ter existido) realizadas pelo 'herói' que Coogler tenta construir. Seria interessante se se tivesse tomado a decisão de tornar o protagonista do filme num 'anti-herói', de modo a levantar mais algumas questões.

Mas outras questões não deixam de ser levantadas. Breves diálogos entre as personagens e a magistral meia hora final de Fruitvale Station dão que pensar e ninguém lhes pode ficar indiferente. É por vezes demonstrado um certo racismo ou desdém por Oscar, bem como o seu orgulho em ser negro, e é ainda salientada a violência e brutalidade de alguns agentes da lei.

Ryan Coogler mostra ser um excelente realizador quando chega ao momento final do filme, aquele que todos sabem que vai acontecer: o assassinato de Oscar. Coogler havia iniciado o filme com um vídeo amador gravado na altura, onde se pode ver como tudo se passou. Quando voltamos a testemunhar o incidente, parece que estamos a ver exactamente o mesmo mas com um ângulo diferente, pois Coogler reproduziu minuciosamente o que se passou. Os movimentos dos polícias, as reacções das pessoas e os gritos de revolta dos amigos de Oscar estão iguais ao vídeo amador mostrado no início do filme.

Coogler, mesmo assim, não termina aqui o filme, como seria de esperar. O realizador oferece uma espécie de epílogo onde mostra o desespero dos amigos e família de Oscar no hospital onde este fora internado e eleva novamente o carácter sentimental de Fruitvale Station. Até ao último segundo do filme somos bombardeados com a tristeza das personagens e acabamos também por nos deixar levar por ela.

Fruitvale Station ganha ainda com as boas interpretações do seu elenco. Octavia Spencer, no papel de mãe de Oscar, é a maior estrela do filme e acrescentou mais uma excelente e comovente performance ao seu currículo. Michael B. Jordan e Melonie Diaz, que fez de sua namorada, tiveram desempenhos agradáveis, mas a tal tentativa de fazer Oscar mais amável que plausível não deu muita margem de manobra para os actores mostrarem muito senão uns sorrisos, embora quando foi necessário momentos de maior dramatismo tenham estado ambos bem.

Fruitvale Station: A Última Paragem põe o dedo na ferida trazendo à tona várias questões raciais e põe Ryan Coogler na lista dos mais prometedores realizadores americanos da actualidade. Embora peque nalguns momentos, é um retrato fiel das últimas horas de vida de Oscar Grant e não vai deixar ninguém indiferente.

7/10

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