sábado, 8 de fevereiro de 2014

Quando Tudo Está Perdido

Redford volta a oferecer-nos uma grande performance no filme mais radical e corajoso dos últimos anos, embora Quando Tudo Está Perdido não esteja desprovido de algumas partes aborrecidas

File:All is Lost poster.jpg
ALL IS LOST
de J.C. Chandor
com: Robert Redford
Se ainda existem realizadores com coragem e espírito radical no mundo do cinema, um deles é J.C. Chandor, o homem que não teve medo de fazer um filme com uma personagem num único sítio.

Quando Tudo Está Perdido mostra o drama de um homem de terceira idade (Robert Redford) que navega sozinho pelo Oceano Índico. Mas quando o seu barco é atingido por um cargueiro à deriva ele é obrigado a lutar pela vida contra tempestades e tantos outros perigos, isto tudo sem dispositivos electrónicos.

O filme de Chandor poderia ser colocado numa lista onde figuram outros como Gravidade, A Vida de Pi ou O Náufrago. Mas o realizador consegue levar a ideia de solidão ainda mais longe. Todas as personagens principais dos filmes anteriormente referidos estavam também sozinhas, mas não na da forma como a de Redford se encontra em Quando Tudo Está Perdido. Em primeiro lugar, a personagem que o actor veterano interpreta não se dá a conhecer. Não sabemos nada sobre ele: como se chama, se tem família, se está a passar férias ou a exercer qualquer tipo de profissão no meio do mar. No fundo, o desconhecimento da personagem de Redford dá a possibilidade de qualquer um se colocar no seu lugar e construir a nossa própria personagem (o nome que Chandor deu à sua personagem no argumento é, aliás, OUR MAN).

Quando Tudo Está Perdido é também sobre os extremos do ser humano e até onde pode ir a nossa coragem e persistência. Redford (vamos chamar assim à personagem do actor) nunca baixa os braços e vai até ao limite para salvar o seu querido barco, mesmo quando já sabe que não há muito a fazer. O lema 'o capitão é sempre o último a abandonar o navio' é seguido até à exaustão por Redford, mesmo que ele seja o único tripulante. E é muito comovente a forma como Redford olha pela última vez para o seu barco enquanto este se afunda lentamente.

O argumento escrito por J.C. Chandor tem apenas 31 páginas, algo impensável nos dias de hoje. Isto deve-se ao facto de Quando Tudo Está Perdido não ter falas nenhumas. A voz de Redford é escutada somente em quatro ocasiões: um monólogo inicial, uma tentativa de comunicação com a rádio, um grito de socorro a um barco que vem de passagem e um audível e alto FUCK!. O resto do filme é passado em silêncio, onde o que se sobressai mais é o som da chuva, do mar e dos movimentos de Redford, todos ambientalizados com a excelente banda sonora de Alex Ebert.

O problema do filme consiste no facto de começar a ser um pouco aborrecido quando se começa a chegar à parte do meio. Quando Redford abandona o barco e fica à deriva num pequeno barco insuflável o filme perde ritmo e fica repetitivo. Aí talvez fosse interessante haver uma voice-over para dar mais interesse às cenas neste terço do filme. Sem ela, senti-me a assistir a uma adaptação cinematográfica de um manual de sobrevivência marítima. Chandor começa também a exagerar nesta parte de Quando Tudo Está Perdido ao fazer as cenas demasiado longas, principalidade porque o realizador se entreteve mais com planos subaquáticos, filmando cardumes e reflexos do sol na água, do que com o prosseguir da história. Os planos eram bonitos? Sim, muito. Mas ofereceram mais à história? Nem por isso.

E quando se quer fazer um filme onde não há falas e existe apenas uma personagem, o actor escolhido tem que ser dos bons. A escolha caiu felizmente em Robert Redford, um lobo solitário e silencioso, já envelhecido, mas ainda com grandes qualidades. Redford teve uma performance brilhante, muito exigente a nível físico (especialmente para um homem de 77 anos) e a níveis de mímica pois, sem falas, todas as emoções da única personagem tiveram que ser passadas com movimentos corporais e expressões faciais. Redford, sem qualquer actor com quem contracenar, dominou o ecrã e foi o oxigénio que deu vida ao filme.

Quando Tudo Está Perdido é um dos filmes mais corajosos e radicais dos últimos anos. É uma boa fuga do bunker comercial em que se tornou Hollywood e mostra que Robert Redford continua a ser um dos melhores actores americanos, talvez até o mais versátil. Só espero que no futuro J.C. Chandor consiga dar mais ritmo às suas histórias.

7/10

Sem comentários:

Enviar um comentário