domingo, 23 de fevereiro de 2014

A Grande Beleza

O cinema italiano no seu pior

File:The Great Beauty poster.jpg
La grande bellezza
de Paolo Sorrentino
com: Toni Servillo, Carlo Verdone e Sabrina Ferilli
Um filme que vença o Globo de Ouro e BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro, que obtenha 4 Prémios do Cinema Europeu e que esteja em pole position para os Óscares não pode ser mau. Ou pode?

A Grande Beleza é a história de Jep Gambardella (Toni Sevillo), um homem de 65 anos que décadas atrás ficou conhecido pelo seu livro O Aparelho Humano. Agora, Gambardella passa os dias em festas nocturnas em Roma. No entanto, esta não é a vida que Gambardella quer.

Muitas são as comparações que se têm feito entre A Grande Beleza de Paolo Sorrentino e La Dolce Vita de Federico Fellini ou até Roma, Cidade Aberta de Roberto Rossellini, mas é-me difícil perceber porquê. Os filmes dos mestres italianos são excelentes, o de Sorrentino não. Todos demonstram o estado actual da sociedade italiana, mas A Grande Beleza fá-lo de maneira insuportável, com muitos recursos a flashbacks chatos ou cenas metafóricas que acabam por não transmitir nada.

Começa-se a perceber que vamos ser massacrados com cenas longas e aborrecidas logo na abertura do filme. Durante largos minutos Sorrentino mostra duas visões de Roma: a sua beleza clássica (capaz de matar os turistas) e a sua vida nocturna (patrocinada em letras grande pela Martini). A ideia de, em paralelo, expor assim os contrastes da capital italiana é boa, muito boa até. Mas Sorrentino perde-se e torna-a excessiva. Na primeira visão de Roma (a clássica), o realizador não se farta de cânticos de igreja combinados com planos da paisagem e monumentos da cidade, fazendo parecer que estamos a ver um vídeo promocional de uma agência de viagens. Na segunda, somos bombardeados com uma batida de discoteca irritante e repetitiva à medida que vai aparecendo uma ou outra personagem insignificante. E isto prolonga-se durante 10 longos minutos.

Ao fim destes minutos surge pela primeira vez Jep Gambardella, a única personagem de relevo em todo o filme. Gambardella é interpretado magistralmente por Toni Servillo, que acaba por salvar um pouco o filme (o actor italiano é talvez a maior beleza em A Grande Beleza). Há depois uma meia dúzia de actores que dão vida a uma meia dúzia de personagens sem grande interesse, que não são muito mais que simples corpos sem pulso ajudando Gambardella a filosofar sobre a sua mísera vida. O vazio destas personagens não ajuda muito a criar compaixão por elas e quando algumas acabam por morrer não há nenhum sentimento de pena, mas sim de indiferença.

Há ainda mais uma ou outra coisa que serve de salva-vidas a A Grande Beleza. Uma delas é a espectacular fotografia de Luca Bigazzi, que torna Roma muito mais apetecível e atraente do que na realidade é, com uma calma e bonita banda sonora de fundo. A outra é a cena final que acaba por ser incrivelmente aterradora, aquilo que o filme tenta ser durante duas horas e meia sem nunca atingir tal definição. Nesta cena vemos verdadeiramente o rosto e corpo da morte através de uma freira velha e exausta, após uma longa subida de infinitas escadas. Quando chega ao final da subida, a freira pousa o seu crucifixo no chão e apoia-se nas suas mãos cheias de rugas (talvez a única metáfora de Sorrentino que realmente resulta). Vemos depois Gambarella a reviver novamente o seu passado, chegando a uma conclusão final sobre a vida (não digo qual é para não estragar a surpresa). Muito bom.

Talvez tivesse gostado ainda mais desta tal cena final se todos os outros momentos do filme estivessem à altura da sua conclusão. Infelizmente, A Grande Beleza como um todo é algo muito aborrecido. E o culpado é um homem chamado Paolo Sorrentino, o realizador/argumentista desta longa longa-metragem. O italiano não conseguiu tornar a sua obra interessante devido a várias tentativas falhadas de mostrar o lado negro de Roma através de bares de strip ou de ruas obscuras (como quando, em plena noite, Gambarella vislumbra uma mulher inconsciente dentro de uma limusina). Digo falhadas porque as suas tentativas não chocam, não assustam nem passam nada para fora do ecrã. Há ainda uma preocupação constante com a estética dos cenários (as cores, os objectos, a paisagem com os maiores monumentos de Roma) que parece afastar Sorrentino do objectivo principal: construir uma história. A Grande Beleza até é bonito de se ver, mas parece que não se passa nada durante maior parte do filme.

E o argumento também não ajuda. À excepção dos monólogos em voice-over de Gambarella (bastante poéticos) e de um diálogo que a personagem de Sevillo tem com uma das suas colegas sobre o seu marido (muito desconcertante), não há ponta por onde se lhe pegue. Todas as falas parecem querer ecoar na cabeça do espectador mas são, na verdade, insípidas, vazias e fáceis de esquecer. Depois há ainda um desejo de fazer inúmeras cenas simbólicas, com muito significado por trás de cada acção das personagens (até das que só aparecem por uns segundos), enquanto se faz uma certa crítica ao estilo de vida extravagante dos italianos. Embora se percebam as intenções de Sorrentino, não nos podemos deixar de sentir sonolentos enquanto vemos todo este cortejo de coisas sem interesse. A Grande Beleza começa a ser frustrante a certo ponto.

O filme de Paolo Sorrentino funcionaria melhor como um teatro, como uma ópera ou até como um fresco, mas como filme não passa de um longo bocejo. De facto, não há nada de grande ou belo na história de A Grande Beleza. Uma autêntica desilusão.

3/10

Sem comentários:

Enviar um comentário