domingo, 5 de janeiro de 2014

O Passado

Após uns minutos iniciais aborrecidos, O Passado torna-se num bom filme e prova que Asghar Farhadi é um dos melhores realizadores do Oriente

File:The Past poster.jpg
LE PASSÉ
de Asghar Farhadi
com: Bérénice Bejo, Ali Mosaffa, Tahar Rahim e
Pauline Burlet
Depois de ter saído de Berlim com o Urso de Prata em 2011 com o excelente Uma Separação, Asghar Farhadi mudou-se para França para realizar O Passado, numa linha que continua a abordar os quotidianos mais atribulados do cidadão comum.

Ahmad (Ali Mosaffa) regressa a Paris quatro anos depois de se ter separado de Marie (Bérénice Bejo) para finalizarem o seu processo de divórcio. Quando chega a casa, Ahmad descobre que Marie está envolvida com um novo homem, Samir (Tahar Rahim), e que a sua filha Lucie (Pauline Burlet) não gosta deste relacionamento. Ao tentar ajudar a situação, Ahmad vê-se envolvido numa situação delicada que envolve Lucie e a mulher de Samir, que se encontra em coma.

O Passado demora muito (demasiado?) tempo a entrar verdadeiramente na história. Farhadi gastou muitos minutos a apresentar as personagens e a pôr os espectadores a par dos seus dramas, o que tornou o filme algo enfadonho na sua primeira meia hora. Para além disso, os diálogos entre as personagens eram muito aborrecidos e a acção não passava muito para além de uns clichés. Mas à medida que saímos deste primeiro quarto d'O Passado, Farhadi evidencia finalmente as razões pela qual é um dos mais interessantes realizadores da actualidade.

Através de um excelente argumento assinado por ele mesmo, Farhadi volta a agarrar o espectador e cria um drama cheio de plot twists, onde cada vez que uma personagem abre a boca surge uma nova revelação surpreendente que muda por completo a forma como olhamos para elas, bem como para a história em si. Todas estas revelações acabam por transformar o enredo inicial (o divórcio de Ahmad e Marie) numa história secundária e transportando a história de Samir para o palco principal. Isso é, aliás, uma das coisas que adoro em Farhadi: a mudança do foco da história para algo que, ao início, não parece ter qualquer importância.

Farhadi maneja a câmara de forma tremida, dando a sensação que todo aquele jogo de mentiras entre as personagens poderá desabar a qualquer momento e, com a cinematografia de Mahmoud Kalari, O Passado acaba por se tornar melancólico e cinzento, um pouco como os dramas da vida. Juntando a isso, há ainda dois brilhantes momentos na realização do iraniano: o primeiro vem logo nos créditos iniciais quando o título do filme é lentamente apagado por um pára-brisas, prevendo as tentativas das personagens em tentar apagar o seu próprio passado. O outro momento vem já no final, num plano sem cortes, aquando da visita de Samir à sua mulher em coma, numa das cenas mais comoventes (porém simples) do filme.

O filme conta também com excelentes interpretações por parte do seu elenco. Bérénice Bejo (que ganhou o prémio de Melhor Actriz em Cannes 2013) quase que simboliza todo o drama do filme através da sua performance, sempre com as emoções à flor-da-pele e uma seriedade enorme. Ali Mosaffa e Tahar Rahim foram também muito bons, mas a minha atenção recai sobretudo em Elyes Aguis e Pauline Burlet, dois jovens actores que, embora jovens, estão soberbos (Aguis com 8 anos podia já dar lições a tipos como Adam Sandler ou Ashton Kutcher). Parece que em França é impossível encontrar um mau actor, seja qual for a sua idade.

O Passado é um retrato melancólico e parado dum drama quotidiano e que tem presente uma enorme carga emocional. Volta a provar que Asghar Farhadi é um dos melhores (quiçá o melhor) realizadores do Oriente do séc. XXI e vai certamente comover toda a gente que o veja.

8/10

Sem comentários:

Enviar um comentário