sábado, 18 de janeiro de 2014

O Clube de Dallas

O Clube de Dallas é uma passerelle para Matthew McConaughey e Jared Leto, que levam o filme aos ombros e asseguram a aproximação do público à história, coisa que realizador e argumentistas nunca conseguiram totalmente

File:Dallas Buyers Club poster.jpg
DALLAS BUYERS CLUB
de Jean-Marc Vallée
com: Matthew McConaughey, Jared Leto e
Jennifer Garner
A primeira cena do filme mostra Woodroof a ter relações sexuais nas cabinas de um rodeo, bêbado e sem qualquer tipo de contraceptivo. Na arena, um homem é atirado violentamente ao chão e atacado pelo seu touro, acabando por morrer. A vida no limite e a morte mesmo ali ao pé. Toda a vida de Woodroof retratada em segundos. É com esta cena metafórica que o canadiano Jean-Marc Vallée abre O Clube de Dallas, que até final conta com mais belíssimos momentos muito simbólicos.

Passado nos anos 80, O Clube de Dallas conta a história verídica de Ron Woodroof (Matthew McConaughey), um cowboy homofóbico a quem é diagnosticado o vírus HIV. São-lhe dados apenas 30 dias de vida. Sem a possibilidade de usufruir de medicamentos eficientes, Woodroof parte em busca de alternativas para a sua doença acabando por se tornar um 'messias' daqueles que sofrem de SIDA.

Falar d'O Clube de Dallas é falar de Matthew McConaughey e Jared Leto. O primeiro conseguiu a performance de uma vida, com uma interpretação que lhe exigiu muito a níveis físicos (McConaughey perdeu muitos quilos para desempenhar o papel de Ron Woodroof) e psicológicos. O segundo provou que é muito melhor actor do que cantor. Rayon não seria a melhor personagem do filme se não fosse por Leto, que se transformou para desempenhar essa personagem. E depois há ainda uma agradável Jennifer Garner, que conseguiu dar vida a uma personagem (Dr. Eve Saks) que não tinha muito argumento para viver.

O filme não vai, no entanto, conseguir agradar a todo o público. Digo isto porque Vallée faz o O Clube de Dallas parecer demasiado longo, embora não chega às duas horas de duração. Não há dúvida que Vallée tem capacidades: tem um humor leve mas eficaz, sabe utilizar bem os movimentos tremidos de câmara para dar uma certa realidade ao filme e, como dito no primeiro parágrafo, consegue fazer belíssimas cenas com muito simbolismo. Mas depois o realizador canadiano acaba por criar momentos muito aborrecidos durante o filme, onde parece não se passar grande coisa digna de interesse. Até a criação do tal Clube de Dallas, a história demora mesmo em avançar.

A juntar a isso, há um argumento que não me conseguiu prender. A certa altura comecei a ter déjà vus, visto que o argumento de Craig Borten e Melisa Wallack acaba por tornar-se um pouco repetitivo (talvez algo que fez o filme parecer aborrecido), especialmente porque as falas de Woodroof nos centros de apoio aos doentes parecem começar a ser sempre as mesmas. Os diálogos entre as personagens parecem não ser tão profundos como por vezes querem ser e o paleio todo dos médicos não tem muito interesse. É claro que há passagens muito boas, particularmente as da personagem de Jared Leto, Rayon (a melhor personagem do filme).

O filme caiu também num ou outro cliché. A evolução da personagem Ron Woodroof é muito previsível e muito vista. Woodroof começa como um anti-herói homofóbico, mal-educado, arrogante, e acaba por se tornar no homem que defende os homossexuais, os oprimidos, os desprezados. No fundo ele é com um vilão de um filme de desenhos-animados que acaba por salvar o dia aos bonzinhos. É óbvio que se trata de uma biografia, esta evolução aconteceu de facto, mas a forma como é mostrada não me agradou particularmente.

Mesmo assim, O Clube de Dallas acaba por atingir o seu principal objectivo: mostrar a vida difícil de quem sofreu de SIDA nos anos 80 no Texas. A cena do supermercado, quando Woodroof encontra o seu antigo amigo TJ, é a que melhor demonstra aquilo que se vivia na altura. Woodroof obriga o homofóbico TJ a cumprimentar o homosexual Rayon. O nojo, o sentimento de injustiça, a homofobia radical, tudo num só corredor dum supermercado. É também aí que o melhor da realização de Vallée e do argumento de Borten/Wallack se cruzam.

O Clube de Dallas é um bom filme no geral. Conta com grandes interpretações de Matthew McConaughey e Jared Leto e com bons momentos de Jean-Marc Vallée, mas peca nos momentos em que deveria atrair o público. Passa a mensagem, mas não convence totalmente.

7/10

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