sábado, 25 de janeiro de 2014

Golpada Americana

Demasiado longo e com muito exibicionismo por parte de O. Russell, Golpada Americana acaba por ser um desilusão

File:American Hustle 2013 poster.jpg
AMERICAN HUSTLE
de David O. Russell
com: Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper,
Jeremy Renner, Louis C.K. e Jennifer Lawrence
Irving Rosenfeld (Christian Bale) e Sydney Prosser (Amy Adams) são um casal de vigaristas que aceitam ajudar o agente do FBI Richie DiMaso (Bradley Cooper) a desmascarar uma rede de corrupção que envolve alguns dos mais poderosos senadores e congressistas da América, nomeadamente Carmine Polito (Jeremy Renner), o mayor de Camden.

Golpada Americana tem um início muito aborrecido. Depois de uma cena inicial bastante engraçada, o filme entra num flashback excessivamente longo, onde os acontecimentos que levaram Irving, Sydney e Richie à sala onde se encontra Polito são narrados. O. Russell precisou de muito tempo para colocar as cartas na mesa e apresentar as personagens (algumas delas que acabam por não ter muita relevância no resto do filme), isto porque a sua tentativa de dar um toque de Tudo Bons Rapazes ao seu filme saiu completamente ao lado (e as tentativas de 'scorsesiar' Golpada Americana não param aí).

A voz de Irving Rosenfeld em voice-over faz uma descrição dele antes e depois de conhecer a sexy e provocadora Sydney Prosser. O. Russell e o seu argumentista Eric Singer tentam começar a suscitar alguma simpatia pelas personagens através da história de amor do tipo A Bela e o Monstro, mas, inexplicavelmente, nunca me consegui afeiçoar às personagens. Ambas contam com enormes performances por parte de Christian Bale e Amy Adams e têm a seu dispor uma caracterização cool e ridícula (num bom sentido), no caso de Irving, e sensual e muito atractiva, no caso de Sydney. Mas os clichés e falta de originalidade nas suas construções deixam muito a desejar, para não mencionar que Bale e Adams (estranhamente) não parecem ter muita química entre eles.

Entretanto, e depois de todas as personagens e enredo estarem mais que apresentadas, já passaram quase três quartos de hora de filme. E ainda não houve muito para além de material para se fazer uma sinopse de Golpada Americana. Se se tivesse apenas mostrado o início da relação de Irving/Sidney e o surgimento do agente Richie podíamos seguir em frente para o resto do filme sem termos sido massacrados com demasiados pormenores sem grande importância.

O filme melhora rapidamente no momento em que voltamos a encontrar as quatro personagens numa sala cheia de escutas, prontas a incriminar Polito. É a partir deste momento que a comédia começa a aparecer finalmente, depois de ter andado tanto tempo escondida. Embora não sejam propriamente inovadoras ou inteligentes, as cenas cómicas de David O. Russell acabam por compensar a espera, especialmente aquelas onde entram Bradley Cooper e Louis C.K. (a surpresa maior no elenco), ou não fossem eles já dados naturalmente à comédia.

A realização de David O. Russell segue muitos dos traços de Martin Scorsese. Mas o problema é que este não é um filme que peça muito as técnicas do veterano mestre. O. Russell anda sempre com movimentos rápidos de câmara, steady-cams (que, novamente, tentaram recriar Tudo Bons Rapazes) e outros pormenores característicos de Scorsese. Não há dúvidas que O. Russell é, de facto, um excelente realizador e um dia fará um filme talvez tão grande como os de Scorsese. Mas, sendo Golpada Americana uma suposta comédia, O. Russell deveria estar mais preocupado com as piadas e as situações cómicas do filme em vez de mostrar que tem grandes aptidões atrás das câmaras. Tenho que dizer que houve um certo show-off por parte do realizador.

O. Russell cria igualmente um autêntico festival dos anos 70. Quer com as roupas e penteados das personagens quer com a banda-sonora, o realizador começa a dar mais atenção à recriação dos seus tempos de adolescência do que à história do filme, isto porque por vezes há um maior desejo de dar um '70s style' a Golpada Americana (a entrada de personagens pelo fumo de um holofote estragado ao som de Goodbye Yellow Brick Road de Elton John, por exemplo) do que a desenvolver a história. O. Russell devia ver com mais atenção os filmes de Tarantino ou Thomas Anderson, dois realizadores que conseguem sempre dar estilo aos seus filme e, em simultâneo, contar uma história de forma sublime.

E, num filme destes, é certo que vai haver um plot-twist. A dúvida é: qual será? Quando nos começamos a aproximar do fim do filme, ainda não se pode adivinhar muito bem qual será essa tal cambalhota no enredo, embora já se comece a suspeitar. Mas quando finalmente aconteceu o plot-twist, fiquei desiludido. É certo que não se estaria à espera duma mudança tão radical na história, mas a forma como ela nos é mostrada é bastante fraca, muito rápida, não dando tempo ao filme para este atingir um clímax. Infelizmente...

No que toca às performances dos actores, não há nada a dizer senão que foram todas perfeitas. Os estrondodos e já referidos Christian Bale (um verdadeiro camaleão que ganhou muitos quilinhos para interpretar Irving) e Amy Adams contracenaram com os excelentes Bradley Cooper e Jeremy Renner, ambos com interpretações muito acima das suas médias pessoais. Há ainda a predilecta de O. Russell, Jennifer Lawrence, que interpreta a extrovertida e convencida Rosalyn de maneira talvez demasiado energética mas que até acaba por dar mais piada à sua persongem.

O argumento escrito por Eric Singer e David O. Russell é bom, mas com algumas falhas e por vezes desinteressante. Aquando das descrições dos golpes que se preparam o argumento começa a ficar muito específico, muito pormenorizado e confuso, e foram várias as vezes em que me perdi no raciocínio das personagens. Singer e O. Russell começam também a exagerar na mudança de papéis entre as personagens, que numa só cena podem passar de manipuladores a manipulados, e cada vez que isto acontece Golpada Americana fica apenas mais cansativo e repetitivo. Há, para compensar, momentos de divinal comédia negra, como se pode ver na cena em que Irving e Richie descobrem que o seu xeque árabe é, na verdade, um emigrante vindo do México (isso, sim, teve muita piada).

David O. Russell quer levar a sua comédia demasiado longe e é isso que acaba por não o deixar ir além de um filme mediano. Demasiado preocupado com a apresentação das personagens e com o estilo à anos 70, o realizador faz de Golpada Americana um filme demasiado longo, graças à sua primeira parte muito maçadora, compensado pela comédia bem presente em algumas cenas e pelo seu potente elenco.

6/10

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